Exposição sobre o trajecto Björk gera polémica


16 de Março, 2015

Fotografia: Reuters

Anunciada como um dos acontecimentos do ano no Museu de Arte Moderna (MoMA), Björk, a retrospectiva da carreira da artista islandesa, está a ser alvo de críticas e a gerar muitas interrogações acerca das opções programáticas do museu.

A ser preparada há três anos numa colaboração entre Klaus Biesenbach e a própria Björk, é uma viagem visual e auditiva pelo trabalho da artista que em Novembro deste ano completa 50 anos e coincide com o lançamento do seu nono álbum a solo, “Vulnicura”.
Se o modo como a retrospectiva foi sendo apresentada fazia crer numa mostra capaz de reflectir a complexidade e multiplicidade do trabalho, assim como a enorme ambição e capacidade de se reinventar da cantora, a mostra parece limitar-se, em cada uma das salas onde está instalada, a ser uma viagem cronológica, incapaz de problematizar, contextualizar ou questionar muitas das decisões tomadas ao longo de 22 anos a solo, desde Debut, em 1993.
A exposição, para os críticos, começa de forma errada, ao ignorar o resto da biografia artística da artista que nasceu em Reiquejavique a 21 de Novembro de 1965 e que anos mais tarde colava o nome do seu país ao dela. “São anos inseparáveis no imaginário que passou a ser colectivo e que estão, de forma mais ou menos notória, em cada um dos trabalhos da autora, em cada uma das suas metamorfoses”, defendem.
“Um espectáculo bizarro, sem ambição e definitivamente sem qualquer lógica”, escreve o crítico e escritor Jason Farago no britânico “The Guardian”, num texto inspirado onde tenta explicar porque é que “Bjork, a exposição”, não conta a história que devia contar, ou seja, a de “uma mulher de fala calma que vem de um dos países mais pequenos do mundo, alimentando uma geração de designers, realizadores de cinema e músicos e nesse processo fez a fronteira entre arte e cultura pop”.  A crítica do “New York Times”, Roberta Smith, refere-se à retrospectiva como o sinal gritante da necessidade de o MoMA “querer ser tudo para todos os públicos”, revelando “desdém pelo seu público-alvo”, “fraqueza da curadoria frequente” e indiferença à “manipulação de multidões” e às necessidades dos seus visitantes.

Comercial e moderno

“Björk devia ter-se mantido firme no seu estilo não as mudanças do MoMA”, começou, antes de mais, por dizer nessa crítica arrasadora para com os organizadores da exposição e a direcção do museu que considera estar a perder a capacidade de discernir entre o que é comercial e o que é arte moderna. “O moderno aqui não é o tema”, escreve. Na “Artnet News”, Ben Davis não é mais generoso, quando fala de algo entre um desfile de moda e uma visita a um parque temático, enquanto na “Vulture”, Jerry Saltz considerou a mostra um acontecimento “embaraçoso” numa “programação pop embaraçosa” que tem caracterizado o museu de Manhattan nos últimos anos.

O MoMA

Para os críticos, o MoMA devia ter tido uma maior atenção em relação às exposições que monta, particularmente por ser detentor da maior colecção de arte moderna do mundo. O museu, destacam, passou a ser uma marca que continua a expandir-se, já que há dois anos ameaçou demolir o edifício ao lado, onde estava o Museu de Arte Tradicional numa polémica que pôs os nova-iorquinos contra o MoMA, dirigido por Glenn David Lowry.  Porém, com a exposição os grandes visados voltam a ser o MoMA e Alex Ross, que escreve um dos textos do catálogo onde compara o percurso da cantora a de compositores como Karlheinz Stockhausen ou Meredith Monk.
“Parece que em vez da artista o MoMA escolheu uma boneca sem densidade, estereotipada, sem nenhuma surpresa face ao que já sabemos dela. Björk no museu não é a cantora dos discos, do palco, dos ecrãs de cinema. É um produto acabado pronto a vender sem sugerir questões. Mas vender a quem? Os fãs mais insistentes, alvo preferencial desta exposição, facilmente se sentem defraudados ao verem que estão apenas perante um desfile garrido de factos com algumas opções estéticas”, lamenta a maioria dos críticos, para quem Alex Ross errou, num artigo publicado por si no “The Guardian”, em Fevereiro, a propósito do novo álbum de Björk, onde destacava a imensidão de géneros que servem de padrão ao mundo criativo da cantora.
“Mais uma vez, nada disto está no MoMA. Nem a participação dela no filme “Dancer in the Dark” (2000). São os álbuns a solo, os vídeos e os vestidos. Nada acerca das referências que a formaram. Apenas a história efabulada de uma menina protagonista de um conto de fadas da autoria do poeta islandês Sjón, narrada no iPad que é distribuído aos visitantes à entrada”, lastimaram os críticos de arte.

Decepções e concertos


Com esta amostra, acrescentam os especialistas, é o museu que sai beliscado e não Björk, que está a fazer coincidir a inauguração da retrospectiva com espectáculos em Nova Iorque, no Kings Theatre, em Brooklyn (18 e 22) e no City Center (28 de Março e 4 de Abril).
Depois do primeiro concerto, realizado sábado, a maioria dos jornais escreveu que ela tinha redimido em palco a imagem deixada no museu.
Em entrevistas, a cantora islandesa descreve o disco “Vulnicura” como psicológico, fazendo uma analogia com o cinema. “Procurei explorar a psicologia do cinema europeu "versus" a acção característica do cinema norte-americano”, disse.
Björk, a retrospectiva, vai estar no MoMA até 7 de Junho, mas está a ultrapassar as suas fronteiras pelas questões que coloca e que têm a ver com a frustração de expectativas. “Como é que se está três anos a preparar uma exposição que no fim não aprofunda nada em relação à carreira de uma artista apresentada como visionária e capaz de derrubar fronteiras entre linguagens artísticas, alguém à frente do seu tempo?”, escreve a maioria dos jornais norte-americanos.

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