Cultura

Falta política de incentivo à produção cinematográfica

Kindala Manuel

Os realizadores de cinema Henrique Narciso “Dito” e Mawete Paciência, foram unânimes em considerar que o fomento do cinema angolano passa pela implementação de políticas de incentivo financeiro, alinhadas a programas interactivos entre o Instituto Angolano de Cinema Audiovisual e Multimédia (IACAM) e os produtores nacionais.

Mawete Paciência e “Dito” pedem ao Executivo a criação de estratégias para o fomento do cinema
Fotografia: Edições Novembro |

Balanceando as actividades realizadas no ano passado, os dois destacados cineastas nacionais do conhecido movimento “Realizadores da Nova Geração”, surgido entre 2005 e 2012, em declarações ao Jornal de Angola afirmaram que a produção cinematográfica nacional tem qualidade, mas faltam incentivos financeiros.
Tido como o pioneiro dos precursores do movimento, Dito disse que a crise financeira que o país vive tem afectado, em grande medida, a produção cinematográfica nacional nos últimos três anos, ao ponto de alguns filmes gravados em 2018 não terem sido concluídos.
O autor do filme “Assalto em Luanda I e II”, de 2007 e 2008, referiu que para tirar o cinema angolano do marasmo em que se encontra “é necessário  que o Instituto Angolano de Cinema e Audiovisual e Multimédia (IACAM) seja uma entidade orçamentada pelo Estado, por forma a incentivar os cineastas a apresentarem projectos que possam ser financiados. “A partir do momento em que o IACAM passar a ter autonomia financeira, com a possibilidade de financiar projectos de produtores nacionais, a produção cinematográfica angolana vai crescer bastante”.
 Para tal, explica, os cineastas interessados teriam de elaborar projectos, adicionar o roteiro do filme, de acordo com o regulamento da instituição que tutela o cinema angolano, para uma avaliação e selecção rigorosa.
Para Dito, o financiamento deve ser concedido à forma de crédito, dando a possibilidade ao requerente devolver dentro dos acordos estabelecidos com a instituição credora, tendo acrescentado que acredita que com a criação de incentivos financeiros, acompanhados com programas de fiscalização, vai moralizar os produtores nacionais, numa acção que pode criar empregos para os jovens e gerar receitas financeiras para os cofres do Estado, com o pagamento de impostos.
A título de exemplo, o cineasta aponta o sucesso que os filmes tradicionais nigerianos ganharam na arena internacional, com uma produção que já lhe rendeu o apelido de “Nollywood”, por ser considerada a terceira maior indústria de produção de cinema do mundo, atrás apenas de Hollywood e Bollywood. Nollywood produz mais de três mil filmes por ano e, actualmente, constitui a segunda maior receita económica do país a seguir ao petróleo e que tem conquistado grandes audiências à nível de canais televisivos internacionais.

 Cinema regista nota negativa em 2018

Mawete Paciência dá nota negativa, em termos de produção cinematográfica nacional, ao ano de 2018. O cineasta aponta como principais causas do fracasso, da produção de filmes nacionais, a falta de incentivos financeiros, falta de ousadia por parte dos produtores e a alta de preços praticados no aluguer das salas de cinema do país.
De acordo com Mawete Paciência, em Angola existem mais de dez produtoras e se cada uma tivesse condições de produzir em média um filme por ano, o nível de produção seria positivo. “Embora com produções de filmes de baixa qualidade, entre o ano de 2008 e 2012, os produtores da nova geração produziam, mesmo sem apoio, uma média de dez filmes por ano”, salientou o realizador e produtor de cinema, que acrescentou que, no início do ano passado, ele e alguns colegas rodaram longas-metragens e séries televisivas mas que, por falta de verbas, não puderam finalizar os projectos cinematográficos.
“Algumas obras encontram-se em estúdio para a finalização, mas houve quem não teve como concluir o trabalho e engavetou o projecto”, esclareceu o realizador de “Resgate e Rastos de Sangue”,  que sugere que o Ministério da Cultura e o IACAM devem traçar melhores políticas junto dos proprietários das salas de cinema, no sentido de baixarem os preços do aluguer, para incentivar os produtores nacionais. “Em 2006, ano em que surgiram os filmes produzidos pelo grupo de jovens apelidados por Realizadores da Nova Geração, mesmo com falta de salas, os filmes eram apresentados em espaços adaptados ao formato dos filmes daquela altura”.
Para o produtor, a partir do momento em que começaram a surgir as salas de cinema modernas em Shoppings e outros lugares, o IACAM e o Ministério da Cultura deveriam na altura implementar convénios no sentido de criar políticas de preços adequadas para recepcionar os filmes nacionais, o que não aconteceu.

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