Feitos de Eugénio Ferreira revividos

Francisco Pedro |
9 de Junho, 2016

Fotografia: Paulino Damião

A homenagem póstuma que o Camões-Centro Cultural Português prestou, na noite desta terça-feira, em Luanda, à figura do ensaísta e crítico literário Eugénio Ferreira, foi um gesto de reconhecimento e louvor, refere a mensagem do embaixador de Portugal acreditada em Angola, João Caetano da Silva, apresentada durante a cerimónia.

A mensagem, lida pela directora do Camões-Centro Cultural Português, Teresa Mateus,   considera Eugénio Ferreira como uma das poucas figuras que soube conciliar tão bem dois mundos aparentemente antagónicos. “De um lado Portugal, onde nasceu e tinha as suas raízes e o levaram a afirmar ser ‘intrinsecamente português’. Do outro lado, Angola, onde se bateu pela independência, assumindo o ‘orgulho de ser angolano”’.
Figura ímpar e multifacetada, Eugénio Ferreira desempenhou as funções de presidente do Tribunal da Relação, advogado, professor, presidente da Sociedade Cultural de Angola e director do  jornal “Cultura”.
Entre os contemporâneos que testemunharam o seu percurso, Henrique Guerra, embora tenha referido que o seu contacto com Eugénio Ferreira tenha sido muito curto, destacou os momentos marcantes na Sociedade Cultural de Angola e no então jornal “Cultura”.
Contou que, em 1948, um dos artigos assinados por Eugénio Ferreira, sobre a diferença de salários entre os operários africanos e europeus que trabalhavam na construção da barragem das Mabubas, propiciou o encerramento do jornal. O jornal, acrescentou, teve duas épocas distintas, na primeira só havia colaboradores portugueses, e na segunda  integrava intelectuais africanos, que introduziram textos de resistência cultural, “uma linha de força que contestava as diferenças entre a população de origem europeia e a africana”.
O forte sentido de “humor e teimosia”, segundo as juristas Paulete Lopes e Teresinha Lopes, também faziam parte da personalidade de Eugénio Ferreira, que recordaram as diferentes fases em que trabalharam para a produção do Código da Família, com a participação da professora Maria do Carmo Medina, Tânia Traça, Ruth Neto e Pedro Redinha. “Quase todos os homens desistiam, quando introduzíssemos artigos que defendessem a mulher, em pé de igualdade de géneros. Eugénio Ferreira não desistiu da comissão, ficou heroicamente connosco até à apresentação do Código da Família na Assembleia Nacional”, lembrou Paulete Lopes.
Durante três horas de testemunhos, outros sem a presença dos seus autores, nomeadamente Francisco Pestana, Américo de Carvalho, Leonel Cosme e Francisco Soares, e que foram apresentados por Carlos Ferreira (Cassé), filho do homenageado, que teve direito a uma medalha metálica oferecida pelo Camões -Centro Cultura Português, com a inscrição “Revistar Eugénio Ferreira-Uma singela homenagem póstuma”.
O encontro, “Revisitar Eugénio Ferreira”, contou com a presença de Maria Eugénia Neto, Arnaldo Santos, Antero de Abreu, ex-colegas e ex-alunos, e jornalistas.
Eugénio Ferreira pertenceu ao movimento cultural, histórico, político e social, a partir de 1940 até à data da sua morte, aos 92 anos de idade, em 1998. Participou na luta pela Independência de Angola, desde 1943 quando chegou ao país, obtendo em 1976 a nacionalidade angolana.

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