Cultura

Festival de culturas no Brasil incentiva união entre povos

Manuel Albano

A importância de se fortalecer a ponte cultural entre Angola e a diáspora, de forma a recuperar parte dos valores levados além-fronteiras pelo tráfico de escravos, deve ser uma das prioridades dos criadores nacionais, em especial os realizadores de festivais culturais, defendeu, hoje, em Luanda, o presidente da Associação Globo Dikulo, Orlando Domingos.

Organizadores realizaram actividades para despertar o interesse pelas tradições africanas
Fotografia: DR

Para o responsável, a participação na segunda edição do Festival de Cinema Artes e Literatura Africana (FESCALA), realizado em Novembro, em São Paulo, Brasil, numa iniciativa do Colectivo Raízes, em parceria com a Associação Globo Dikulu, permitiu, ao longo de duas semanas, criar uma plataforma para a promoção da diversidade cultural e a união entre angolanos, afrodescendentes e brasileiros.
O festival, disse, reuniu, em vários palcos de actuação e espaços de reflexão, criadores africanos para uma troca de experiência, especialmente com brasileiros. Mesmo com diversos altos e baixos registados na produção das actividades e na programação do festival, os organizadores souberam, de forma profissional, ultrapassar todos os obstáculos.
A “ponte cultural” estabelecida com o festival, criada também para celebrar o 20 de Novembro, dia consagrado à Consciência Negra no Brasil, serviu ainda para enaltecer o legado deixado pelos africanos aos afrodescendentes, assim como os traços comuns herdados por muitos brasileiros.
Os organizadores decidiram explorar o facto de o Brasil ser uma sociedade multicultural e racial para chamar atenção do público aos aspectos comuns com a História e tradições africanas, por intermédio das artes.
Para a organização, o FESCALA foi, também, uma oportunidade de demonstrar o potencial cultural e artístico dos criadores africanos e dos afrodescendentes, numa sociedade que apesar de ter muitos traços idênticos, a descriminação racial e a desigualdade social estão presentes no quotidiano da maioria dos negros.
Devido a esta desigualdade, muitos movimentos culturais têm apostado na promoção da cultura e a realização do FESCALA foi de grande valia no fortalecimento dos laços de irmandade que unem os africanos, afrodescendentes e brasileiros.

Outra visão
O Museu Afro-Brasil tem sido um dos esteios do contributo africano no desenvolvimento das Américas e um símbolo da luta pela preservação e maior divulgação do legado cultural brasileiro para os afrodescendentes.
O espaço é um marco quanto às verdadeiras histórias sobre a população negra, que foi levada às Américas no período da escravatura, a maioria das quais cheia de aspectos negativos, muitos deles ligados à violência e que ajudaram a criar uma ideologia sobre a inferioridade dos africanos.
Para quem visita o espaço, pela primeira vez, é a oportunidade para conhecer outra narrativa sobre os escravos, apresentada ao público e muito distante da visão do colonizador.
O passado carregado de memórias dos escravos africanos tem tornado, por anos, o museu numa das atracções turísticas da cidade de São Paulo e um símbolo da luta pela preservação da História feita pelos afrodescendentes.

Os ganhos

Este ano, o intercâmbio cultural entre Angola e o Brasil foi marcado por inúmeras actividades artísticas, algumas das quais abriram portas para novas parcerias. As oficinas de arte e palestras ajudaram a consolidar determinados projectos, que ganham uma nova dimensão por terem sido levados ao contacto dos estudantes de universidades e escolas brasileiras.
O festival serviu, ainda, para analisar o actual estado da produção artística e cultural moderna africana, através da partilha de ideias com especialistas africanos. Um dos frutos da parceria é a doação de livros à Associação cultural Globo Dikulu para a criação da biblioteca comunitária do Animart, no Cazenga, à semelhança da experiência brasileira feita na região de Heliópolis.
Para o presidente da Associação Globo Dikulo, Orlando Domingos, a parceria com o Colectivo Raízes tem sido muito frutífera. “Os artistas brasileiros têm ajudado a dar uma ideia sobre como se pode analisar melhor uma sociedade em mudança, como a angolana, através das artes”.
Por sua vez, o mentor do projecto Raízes e do FESCALA, Isidro Sanene, fez um balanço positivo do que tem sido feito, do qual participam artistas, académicos e activistas africanos residentes no Brasil, por se conseguir promover e elevar a Cultura de África no Brasil.
A ponte cultural e artística entre Angola e o Brasil tem sido fortificada, nos últimos anos, graças a uma parceria entre associações, que tem resultado na vinda e ida de especialistas nos dois países. A última ligação aconteceu, de Julho a Agosto, em Angola, quando artistas brasileiros realizaram um ciclo de formação, acções sociais e actividades culturais nas províncias de Luanda, Bengo, Benguela e Huambo.

Centro histórico

O centro histórico da cidade de São Paulo é um dos espaços arquitectónicos de grande relevo cultural. Situado no centro frenético da cidade, a área “esconde” grande parte do legado de um povo.
Durante a sua estada na cidade paulista, a delegação angolana visitou locais históricos, como o edifício Martinelli, o Teatro Municipal, a Estação da Luz, a Pinacoteca, o Parque Ibirapuera, o Museu Afro-Brasil, o 25 de Março, a Praça das Artes, a Catedral da Sé, o Mercado Municipal e o Brás, onde reside a maior comunidade angolana.
O intercâmbio incluiu visitas aos locais usados actualmente para divulgar o legado trazido pelos africanos, através da escravatura, como o Itaú Cultural, Fábrica de Cultura, Centro Cultural Arte em Construção, Vila Nova Cachoeirinha e Escola Municipal de Iniciação Artística.

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