Festival da Cultura é a chave da união e intercâmbio

Manuel Albano|
27 de Agosto, 2014

Fotografia: Paulo Mulaza

O Festival Nacional de Cultura é para o vice-presidente para a área do Teatro da União Nacional dos Artistas e Compositores, Africano Kangombe, o caminho para uma maior união dos criadores e aumentar o intercâmbio cultural.

 Em entrevista ao Jornal de Angola, lamentou o facto do FENACULT não ser acompanhado com a construção de novas infra-estruturas. O também encenador pediu mais aposta na formação de quadros.

Jornal de Angola - O FENACULT pode dar “luz verde” ao teatro em Angola?


Africano Kangombe - Pode ser um espaço de interacção, mas o facto de não criar infra-estruturas vai ser um problema. O lado positivo é que vai permitir reunir as pessoas, de diferentes meios, em diversos recintos, em prol das artes e incentivar a troca de experiências.

JA - Como vê o teatro angolano?

AK - O teatro em Angola está num crescimento nunca antes visto tendo em conta a quantidade dos grupos e indivíduos que têm praticado esta arte. Outro aspecto a ter em atenção, é a qualidade da peças, que nos últimos anos melhorou significativamente.

JA - Já existe qualidade nos espectáculos apresentados?

AK - O teatro já tem qualidade e posso afirmar que os grupos têm feito um bom trabalho, apesar das dificuldades que enfrentam. Temos bons grupos, encenadores e dramaturgos, prova disso são os elogios que a crítica internacional tem feito à participação dos angolanos em festivais internacionais.

JA - Os grupos e encenadores têm sabido dignificar o teatro?

AK - Sim, os grupos de uma forma geral têm sabido dar respostas à actual dinâmica e ao crescimento do teatro em Angola. Quero particularmente destacar o contributo do Oásis, Horizonte Njinga Mbande, Etu Lene, Pitabel, Henriques Artes, Nguzo Ya Kuzola, Ngola Teatro, Dadaísmo, Miragens e Protevida. É ainda importante reconhecer os encenadores Beto Cassua, Gildo e Adelino Caracol.

JA - O papel da dramaturgia angolana já é visível?


AK - A dramaturgia angolana enfrenta um mal, que está associado à falta de publicação das peças. Raramente são publicadas as obras depois de serem representadas nos palcos, o que leva a concluir que existe uma lacuna.

JA - Temos dramaturgos suficientes em Angola?


AK
- Nunca houve falta de dramaturgos. Faltam obras para o teatro. Em qualquer outra áreas do saber devem ser produzidos e publicados, regularmente, trabalhos científicos. O teatro e as outras manifestações artísticas não fogem à regra. Portanto, é um assunto que deve constar da agenda do Ministério da Cultura, com incentivos, como a criação de um prémio literário de dramaturgia.

JA - A comédia continua a ser o género predominante?


AK - No percurso do teatro angolano nunca houve uma época só de comédia, o que se passou foi que alguns grupos se dedicaram mais à  comédia. Isso não significa que tenha sido o género predominante. O Etu Lene é um dos que investe muito no estilo comédia, enquanto o Horizonte Nzinga Mbande aposta mais no drama. O Oásis tem apostado no melodrama. Cada um deles tem um público específico, por isso, não podemos dizer que houve um género predominante.

JA - O surgimento acelerado de grupos é um entrave à qualidade?

AK
- Os novos grupos trazem sempre novidades, mas depois há os mais fortes e melhor estruturados, que vão sobreviver e remetem os demais para o esquecimento. Os grupos da década de 80 que sobreviveram são o Horizonte Njinga Mbande e o Oásis. Da década de 90 os mais destacados são o Miragens e o Etu Lene, mas nesta altura surgiram outros que emprestaram uma nova dinâmica, porém desapareceram como o Diassonama, Tetema ya Diolo, Lumier e Hoje ya Henda.

JA - O que fazer para os dar mais protagonismo aos grupos no anonimato?


AK
- Os grupos de teatro é que devem fazer alguma coisa, porque não existem infra-estruturas. Ninguém nos dá protagonismo com tão poucas salas de teatro, por isso, devem ser os próprios a arranjarem estratégias de crescimento e de aparecerem. Temos como exemplo, o grupo Vozes de África, do Huambo, que está distante de Luanda e vai sendo um exemplo de superação, ou o Olombangue, no Bié, que está a conseguir sair do anonimato participando em festivais locais.

JA - Quais os ganhos que os festivais trazem à arte?


AK
- Os festivais têm ajudado a transmitir conhecimentos, a criar mais interacção e aproximação entre os actores e o encenador, revitalizando o movimento. Os festivais nacionais e internacionais constituem também um grande espaço de união entre os povos, permitindo trazer novas experiências para o enriquecimento do teatro. Os governos provinciais e as administrações deviam ajudar a massificar as actividades culturas nas suas regiões. O Huambo, Benguela, Bié e a Administração Municipal do Cazenga têm sido exemplos a seguir.

JA - O teatro deve estar mais associado às Universidades?


AK
- O teatro devia estar associado a todas as escolas e não apenas às universidades. A existência da disciplina de teatro nas escolas, por ser considerada a “mãe das artes” ia ajudar a superar algumas deficiências registada hoje nos palcos.

JA - Como superar o problema da falta de salas de espectáculos?

AK - Temos que reconhecer que o Executivo, através do Ministério da Cultura, tem feito um esforço na criação de infra-estruturas artísticas, que é visível pela evolução e crescimento dos grupos. Se houver um esforço maior, com a mobilização dos agentes culturais e empresários, rapidamente podemos inverter a situação, particularmente a falta de salas para a realização dos espectáculos. Mas é importante que os projectos de construção das centralidades incluam espaços para as artes do palco.

JA - Os preços dos bilhetes dos espectáculos são justos?


AK - Os preços altos do aluguer de uma sala são também um aspecto contra o crescimento e desenvolvimento do teatro, em particular das artes, porque as receitas das vendas dos bilhetes não chegam para cobrir as despesas dos grupos.

JA - Como vê a questão da formação dos actores?

AK
- A formação é a base do desenvolvimento de qualquer sociedade e com o surgimento do Instituto Médio e o Superior de Arte vai ser possível reduzir o défice de conhecimentos e aumentar a qualidade das pessoas que fazem teatro. Porém é importante que as infra-estruturas surjam em todo o país e que a nível do ensino de base exista uma disciplina de teatro.

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