Festival Luvale abre no Moxico

Adriano de Melo |
22 de Julho, 2015

Fotografia: Arimateia Baptista

A cultura dos luvale, no Moxico, é conhecida, a partir de hoje, no município do Alto Zambeze, com a abertura do Festival Etnolinguístico local, um espaço para a preservação dos princípios e tradições da região.

O director provincial da Cultura disse ao Jornal de Angola que o festival é uma oportunidade para mostrar o património cultural dos luvale, através de manifestações artísticas.
“Durante o festival etnolinguístico as pessoas podem conhecer os hábitos culturais da população. É também uma forma de transmitir estes conhecimentos à futura geração”, disse João Noé Manuel.
O Moxico, disse, tem uma grande riqueza patrimonial e cultural e as festas são uma factor-chave na preservação e divulgação da cultura local, porque permitem às pessoas, não só de Angola, mas também de outros países conhecerem melhor a História, a tradição e as vivências, reforçadas, este ano pela presença da soberana de Luena.
As visitas aos túmulos das rainhas Nyakatolo Ngambo (Cavungo), Kutemba e Chissengo (Cazombo), e às quedas de água de Luzavo e à Lagoa de Mujinatena constam do programa festivo, informou a administradora municipal, Adelina Chilica. 
As festividades dos Luvale contam com a presença de figuras e entidades governamentais nacionais, além de representantes das vizinhas Repúblicas do Congo Democrática e da Zâmbia.
O festival etnolinguístico recebeu em 2012 um diploma de mérito do Ministério da Cultura, que o instituiu Festival Internacional dos Luvale, devido à participação de diversos cidadãos da República Democrática do Congo e da Zâmbia.
O festival dos Luvale é realizado anualmente no dia 22 de Junho, data em que faleceu, em Luanda, a Rainha Nyakatolo Chissengo, em 1992. Na era colonial, a data era comemorada pelo regedor Kaquengue, nas localidades de Lumbala Caquengue e Chilombo.
Com o inicio da luta de libertação nacional, a população que vivia naquelas localidades foi obrigada a refugiar-se na Zâmbia, passando a festa a realizar-se, durante anos, nestes países vizinhos até a conquista da paz em 2002.

Os Luvale

Conhecidos também como Tulwena, pelo facto de algumas dessas comunidades se terem fixado nas margens do rio Luena, um dos afluentes do Zambeze, os luvale têm uma história ligada à tradição Lunda. Por causa dos conflitos havidos na corte entre a princesa Lweji a Nkondi, que detinha o poder, e os seus irmãos, príncipes Cinguli e Cinyama, estes abandonaram a corte e o território.
Cinguli e os seus parentes dirigiram-se para oeste, “onde o sol morre”, local onde foi recebido pelo governador colonial, que o autorizou a estabelecer-se em Kasanji.
Cinyama emigrou em direcção ao Sul, instalando-se na área correspondente à actual província do Moxico, e organizou aí o grupo que veio a receber e a partilhar os laços histórico-sociais e práticas rituais comuns com os seus vizinhos e afins culturais cockwe, tumbunda e tulunda. Com regime de filiação uterina ou matrilinear, e com a morte do grande chefe Cinyama, a estrutura política dos luvale passou para a gestão das mulheres, nomeadamente, Nyakatolo Ngambo, Nyakatolo Kutemba e em 1927 a rainha Nyakatolo Cisengo, falecida em Julho de 1991.
No aspecto artístico e cultural, os luvale, tal como todos povos do Leste de Angola, fabricam tambores de madeira, ngoma, cobertos de pele de antílope, cujo som, associado às melodias das suas canções, apaixonam os bailarinos e os assistentes das danças de lazer como coombe (tchombe), macopo e a cachacha, para as cerimónias de iniciação feminina e masculina, que constitui o momento mais alto da vida dos jovens, quando transitam para a vida adulta.
Os luvale são exímios artesãos de olaria negra, polida, envernizada, modelada e ornada com figuras antropomórficas e zoomórficas, destacando-se os mulondo ou vasos encimados por cabeças de mulheres, de homens ou por uma máscara. São vasos com características excepcionalmente raras e que revelam o luxo dos seus utilizadores ou as possibilidades técnicas mais avançadas dos oleiros luvale.
Pela sua raridade técnica e de ornamentação excepcional, esta cerâmica é considerada como uma obra prima e exclusiva dos luvale e um património cultural a preservar, não só para a contemplação das gerações presentes, mas também como fonte de inspiração da cultura actual para as gerações vindouras.
Os luvale ocupam maioritariamente os Municípios de Alto Zambeze e Luhakano. Têm ainda um bom número de habitantes na Zâmbia e núcleos no Congo Democrático.

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