Festival reforça a unidade nacional através da cultura

Pereira Dinis e Manuel Albano|
2 de Setembro, 2014

Fotografia: Dombele Bernardo

A cultura nacional juntou, sábado, centenas de pessoas, no Estádio Nacional 11 de Novembro, para a abertura da II edição do Festival Nacional de Cultura, 25 anos depois do primeiro.

A cerimónia de abertura do FENACULT 2014 teve início pouco antes das 19h00, mas a festa começou por volta das 11h00, com as primeiras pessoas a chegarem ao recinto e os organizadores a fazerem os últimos acertos.
A 15 metros da rampa da porta 3, do Estádio Nacional 11 de Novembro, estavam montadas barracas de comes e bebes. O menu era o mais variados, desde o calulú, a menha ndungu, kizaca, xicuanga, funge de bagre, mengueleca e mufete, mas todos ligados a típica culinária da terra.
Em alguns destes locais o kuduro era o tema dominante, enquanto nas outras eram tocadas mais kizombas e sembas. Era o início da festa. Os jovens começavam já dar alguns “toques” de dança, acompanhados pelos kotas, que, depois, mostraram também o seu talento.
O que de início parecia ser um empate técnico resultou numa vitória da maioridade e muitos dos “miúdos” deixaram de dançar para ficarem a apreciar o desempenho dos kotas.
João Rafael, de 63 anos, também conhecido por Man Remédio, morador do Sambizanga e bailarino conhecido desse bairro emblemático, depois de dar uns toques de kuduro, exclamou: “Candengues, naquele tempo já dávamos grandes toques, só que com mais responsabilidade!”
E para mostrar os seus dons, pediu ao “discotequeiro” para pôr a tocar um semba. Soou uma canção do malogrado Mamukueno e os kotas presentes levantaram-se para “rasgar” o asfalto.
Os jovens observavam com inveja as passadas daqueles que um dia foram iniciados na dança em salões como o Desportivo de São Paulo, Braguês, Faria, Marítimo da Ilha, Maria das Escrequenha e outros quintais do musseque. Os miúdos provaram o sabor da derrota. Reprovam logo no primeiro exame, que consiste em saber como se convida uma dama para dançar, sobretudo quando se trata de uma senhora acompanhada.

Coincidência


“A Cultura como Factor de Paz e Desenvolvimento” é o lema da segunda edição do FENACULT e os homens de uniforme também fizeram parte da festa. Quatro soldados das Forças Armadas Angolanas que apreciavam o ambiente à entrada do estádio, puseram-se em sentido para saudar o oficial que se aproximava.
Mas a seguir um deles pediu permissão para abordar o superior hierárquico e depois de uma conversa entre os dois, regressou para juntos dos camaradas. “O maior disse para convivermos, mas devemos colaborar com a Polícia, caso haja necessidade”, transmitiu. Até ao momento em que a equipa da reportagem do Jornal de Angola deixou o local, já depois da 1h00 da manhã, a Polícia não havia registado qualquer situação anómala. O comandante provincial de Luanda, comissário-chefe António Maria Sita, esteve no local desde as primeiras horas, a sensibilizar o efectivo para actuar com pedagogia na manutenção da ordem e tranquilidade.

Festival une o país


Passava das 17h00, quando no interior do Estádio Nacional 11 de Novembro, começou a registar-se uma maior movimentação de crianças, jovens e adultos, ávidos por assistir à abertura da segunda edição do FENACULT. Era visível a ansiedade dos assistentes quando aos poucos o cenário se ia compondo.
Os escuteiros perfilados avançaram para as suas posições, enquanto a equipa de limpeza dava os últimos retoques à base para a animação em 3D projectada sobre o tapete verde. Centenas de figurantes deram colorido à festa, assistida por milhares de espectadores. As coreografias, projecções de vídeo e música cativavam as atenções do público.
O director do Instituto Angolano de Cinema Audiovisual e Multimédia, Pedro Ramalhoso, disse que a abertura do festival apresentou um novo conceito de dinamismo, baseado numa tecnologia audiovisual. Os agentes da Polícia Nacional e dos Bombeiros tiveram uma noite sem incidentes, porque os espectadores conviveram num clima de paz e harmonia, tanto no interior como fora do estádio.
Manuel Rocha, presidente do União Sagrada Esperança, do distrito urbano do Rangel, grupo vencedor do Carnaval de Luanda deste ano, elogiou o trabalho da organização do festival, que soube dar valor a grandeza do mesmo. A intenção do grupo União Sagrada Esperança foi levar para a cerimónia de abertura uma mensagem de reconciliação e alegria, enaltecendo os ganhos que o país já alcançou com a conquista da paz. “Criamos um tema e coreografia em função do lema desta segunda edição do festival, que fala da cultura como factor de paz e desenvolvimento”, disse.
Elias dia Kimuezo, “rei” da música angolana,  disse que o festival é também uma forma de imprimir uma nova dinâmica às actividades culturais, através de uma maior divulgação das artes e dos seus criadores, em particular os de regiões menos conhecidas do país. Elias dia Kimuezo apelou à participação massiva da juventude em todas as actividades do FENACULT para poderem conhecer melhor a história e a cultura de Angola. 
A cantora gospel Irmã Sofia, que interpretou alguns dos seus maiores sucessos, como “Lobo” e “Zungueira”, disse que o festival vai ajudar também a unir os criadores angolanos, promovendo o intercâmbio cultural.
Irmã Sofia elogiou a forma alegre e entusiástica como o público participou na cerimónia de abertura, realizada no Estádio Nacional 11 de Novembro. “O país está em festa, por isso, devemos todos dar o nosso contributo para que o festival possa ficar na memória de todos”. Para o músico Kueno Aionda, participar no festival é também uma forma de trocar experiências com músicos consagrados. “Sinto-me privilegiado por poder fazer parte desta festa, que está a mobilizar a sociedade angolana”, afirmou.

Emergências Médicas

O coordenador do Sistema Integrado de Emergências Médicas (SIEM), Aleixo Macaia, disse, ao Jornal de Angola, que os serviços médicos presentes no local não registaram nenhum caso preocupante. “Tivemos algumas situações naturais neste género de actividades, como pequenos ferimentos, situações muito comuns, mas que não puseram em causa a realização harmoniosa do festival”, afirmou.
A maior preocupação do SIEM esteve direccionada às crianças. “Muitas delas ficam durante horas sem se alimentar devidamente, o que nos obriga a redobrar os esforços”, explicou.
Aleixo Macaia disse que o SIEM mobilizou para a abertura do FENACULT 2014 oito ambulâncias, três médicos e oito enfermeiros. “Tudo correu com se esperava. O público mostrou disciplina, participando na festa com muita alegria”, disse o médico a felicitar o comportamento da assistência.
A terceira edição do FENACULT acontece em 2018. O festival tem como objectivo promover a unidade nacional no quadro da diversidade cultural de Angola, e a preservação e divulgação da identidade nacional. Entre os propósitos do festival constam uma análise sobre o estado actual do sector e a criação de mais oportunidades para os criadores angolanos.
O FENACULT conta com a realização de diversos espectáculos de música, dança e teatro, sessões cinematográficas, feiras do livro e do disco e exposições de artes plásticas.

Momento de reflexão


A ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, afirmou que o festival tem como objectivo contribuir para o espírito da harmonia, intercâmbio e fortalecimento da unidade nacional e mostrar ao mundo o que se faz em Angola em termos culturais. Na cerimónia de abertura do FENACULT 2014, Rosa Cruz e Silva frisou que o festival vai ajudar a criar também um momento de reflexão sobre o actual estado da cultura nacional, assim como é um espaço privilegiado para os angolanos reafirmarem a sua identidade. A governante acrescentou que o festival vai promover a integração das práticas culturais, levando os vários agentes do sector a capricharem na qualidade do produto colocado à disposição do público.
O Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, reafirmou ainda, na ocasião, que o Festival Nacional de Cultura acontece no âmbito das acções programadas pelo Executivo angolano.
De acordo com o dirigente, “essas acções estão incluídas na política cultural e são ainda resultado do esforço do Executivo, liderado pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, em prol da cultura, como benefício da paz. “Com o país em paz, podemos agora usufruir das vantagens e benefícios que a mesma proporciona, razão pela qual os angolanos se mobilizam para esta manifestação cultural”, acrescentou.
“Nos dias que o mundo atravessa, dominados pela globalidade, os valores culturais têm capital importância na preservação da identidade dos povos”, referiu o Vice-Presidente, acrescentando que o Executivo angolano promoveu a realização deste festival, que acontece a partir de agora de quatro em quatro anos, para avaliar o estado da cultura no país, visando a definição de novas metas e estratégias para desenvolver o sector. “Vamos, pois, prosseguir nesta tarefa em prol da defesa do rico e do vasto património cultural nacional e, consequentemente, da nossa identidade”, sublinhou Manuel Vicente.

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA