Cultura

Filho de Escobar critica personagem de “Narcos”

Juan Pablo Escobar, filho do narcotraficante colombiano Pablo Escobar, criticou o papel que caracteriza a vida do seu pai Pablo Escobar. O filho do narcotraficante mais famoso da História, não reconhece a personagem principal da série de televisão “Narcos”, inspirada na história do pai, e lamenta que a Netflix tenha criado um “Superman”, glorificando uma actividade criminosa.

Papel interpretado pelo actor brasileiro Wagner Moura na série televisiva “Narcos” não satisfaz o filho do traficante Pablo Escobar
Fotografia: Daniel Daza

Quem vê a série “Narcos”, que vai na segunda temporada, fica sem “ideia de  quem foi Pablo Escobar”, disse à agência Lusa Juan Pablo Escobar, que está em Lisboa para promover o seu segundo livro sobre o progenitor, com o  título “Pablo Escobar, o que o meu pai nunca me contou”.
“Mostram uma personagem que é quase um herói, parece um “Superman”. Admito que  tenha sido uma fórmula de sucesso comercial, mas creio que cometeram um erro grave ao glorificar a actividade criminosa do meu pai, dando-lhe um ‘glamour’ que esta história nunca teve”, lamenta o filho do narcotraficante.
Juan Pablo Escobar teme que a opção da Netflix, e outras produtoras, que lhe seguiram as pegadas com outros títulos, aproveitando o “filão” do narcotráfico, estejam a ter “consequências graves”.
“Há uma geração actual de jovens, de diferentes partes do mundo, que me escrevem através das redes sociais e me dizem: `quero ser como Pablo Escobar`, porque viram a série da Netflix”, revela.
“Isto é muito diferente da sensação com que ficam os leitores dos meus livros. Não conheço, até agora, nenhum leitor que os tenha lido e tivesse dito que ficou com vontade de ser como Pablo Escobar. No dia em que conhecer uma pessoa que tenha ficado com essa vontade terei percebido que fiz um péssimo trabalho como escritor”, acrescentou o autor de “Pablo Escobar - O meu pai, Radiografia íntima do narcotraficante mais famoso de todos os tempos”.
Juan Pablo Escobar disse que “abordou” a Netflix quando soube que a produtora pretendia criar a série, seis meses antes de começarem a filmar, oferecendo-lhes “acesso sem restrições” ao seu “arquivo pessoal, com milhares de fotografias, vídeos caseiros, cartas escritas” pelo pai.
“Mas eles não se interessaram por ter acesso à verdade real. Acredito que estavam já muito comprometidos em contar a história segundo os agentes da DEA, segundo a versão institucional norte-americana, que obviamente procura encobrir toda a responsabilidade que tem neste grande negócio” do tráfico de droga, ­acusou o filho de  Pablo Escobar. Esta convicção, disse, é alimentada por “surpresas” como a da gritante história de Adler Barriman Seal, piloto de Pablo Escobar e agente infiltrado pela CIA, que “brilha pela ausência”.
“Como é possível que a DEA (Departamento anti-droga norte-americano), que escreve sobre Pablo Escobar, se tenha esquecido do próprio Pablo Escobar norte-americano que era Barry Seal, um agente da CIA?”, pergunta.
“Não se vê esta personagem nas duas temporadas que a série já leva”, sublinha Juan Pablo Escobar. “Fica muito clara a tentativa de atribuir toda a responsabilidade ao meu pai - que tem uma enorme responsabilidade e eu não pretendo diminui-la um milímetro - mas, claramente, não fez tudo sozinho. Era um homem inteligente, mas não tanto que não necessitasse da cumplicidade de outros para obter o poder militar e económico que teve”, conclui.
O filho de Pablo Escobar referiu que tentou junto de “muitas produtoras” oferecer os dados que permitem passar aos ecrãs “a história real” do narcotraficante que controlou o comércio mundial de cocaína nos anos 80, a partir de Medellin, na Colômbia, “mas até agora nenhuma teve a valentia suficiente para enfrentar a história”.
Quanto à Netflix, resta-lhe agradecer, afirmou. “Isso, sim. Tenho que agradecer à Netflix por me ter permitido vender muitos livros. Porque as pessoas acabam por ficar interessadas em conhecer as histórias verdadeiras, não as coisas fantasiosas que lhes contam na série. Isto despertou o interesse de milhares de pessoas que querem conhecer a história da parte de alguém que não a viveu na televisão. Eu vivia-a na própria carne”.
O autor, um “pai de família”, vive em Buenos Aires, na Argentina, é arquitecto de formação e desenhador industrial de ocupação, e divide com a escrita as conferências sobre a vida do pai, com quem cresceu e aprendeu “o caminho a não fazer”.
Pertenceu até aos 16 anos a uma das famílias mais ricas e poderosas do mundo. Quando o pai foi morto em Novembro de 1993, a família tinha “muito dinheiro”. Depois, “as autoridades colombianas tomaram o controlo das propriedades mais conhecidas e a seguir os cartéis da droga, que no passado tinham estado associados ao pai, acabaram por tirar o resto: o dinheiro, propriedades, veículos, aviões”, tudo que teria hoje como herança.
Questionado sobre o que tem para viver, respondeu: “Fiquei com a vontade, fiquei com a inteligência e a energia para colocar em benefício do meu filho um passado, um presente e um futuro muito diferentes do que tive e herdei do meu pai”, acrescentou em seguida.
“O dinheiro com que ficámos, tiraram-no. Fizeram-nos o favor de nos deixar - tanto as autoridades como os inimigos do meu pai - com os bolsos vazios, mas com a possibilidade de nos reinventarmos como pessoas”.
“Vivo em Buenos Aires. Sou um profissional, uma pessoa com uma vida aparentemente normal. Pago os meus impostos, vivo dólar a dólar mostrando à sociedade, aos bancos, às autoridades, como ganho a vida. Não tenho intenções de sair deste caminho. Já tive a experiência de ser milionário e não me foi grata”, concluiu.

 

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