Filme

Francisco Pedro |
2 de Agosto, 2016

Fotografia: Vinicius Pereira

A música jazz produzida em Nova Orleãs, nos Estados Unidos, e o samba carioca, servem de base para a narrativa do filme “Samba & Jazz” exibido nos dias 28 e 30 de Julho, no Centro Cultural Brasil-Angola, em Luanda.

O realizador brasileiro Jefferson Mello aproveita a música para abordar o racismo e outras questões que afligem as personagens na sua maioria afrodescendentes.
Antes da exibição, o realizador disse aos espectadores que o maior invstimento do filme centrou-se em aspectos técnicos  como a fotografia e o som. 
Após a exibição do filme, seguiram-se perguntas ao realizador que explicou que o seu objectivo é “mostrar as similitudes entre o jazz e o samba”, embora tenha tido sempre uma visão crítica sobre a vida das personagens, brasileiros e norte-americanos. O roteiro demorou 20 anos, desde que conheceu Nova Orleãs. “Há três anos, comecei a produção, as filmagens demoraram um ano e meio, resultando em 300 horas de imagens. Acumulei algumas funções nesse filme, mas tive uma equipa maravilhosa que se dedicou com muito carinho”, referiu o realizador.
O documentário, que aproxima as cidades de Rio de Janeiro e Nova Orleãs, passou em 16 festivais e oito países, sendo o primeiro “Première Brasil”. O filme não se limita a descrever as origens do jazz e do samba, bem como a relação entre essas sonoridades, tão-pouco os desfiles de ruas quer em Nova Orleãs quer no Rio de Janeiro. Com toda a envolvente do público, transcorre pela vida dos mais representativos instrumentistas dessas cidades musicais, incluindo cantores como Pretinho da Serrinha, Mestre Átila, Alcione, Arlindo Cruz, bandas e blocos de carnaval, tais como Madureira, Cacique de Ramos, Pedra do Sal, “Congo Square”, Império Serrano, “Young Men Olympian”, “French Quarter”, “Big band”, "Mardi Gras Indians", ambientes de candomblé e vudu e jazz funeral.
“Semba & Jazz” mostra as motivações pessoais dos músicos na formação das bandas, as circunstâncias, os locais para apresentações públicas, o desempenho nos desfiles de carnaval, a hegemonia dos músicos em Nova Orleãs para a elaboração da indumétária e dos adereços - algo que deixa as mulheres curiosas.
A relação com a comunidade em que estão inseridos, entre outras situações favoráveis e desfavoráveis para o êxito ou não dos músicos, também são levantadas pelo documentarista no decurso da narrativa.
Jefferson Mello não esconde a sua paixão pelo jazz, e o facto de nascer sambista, por isso questiona os entrevistados sobre a influência do ritmo norte-americno no ritmo brasileiro e, sem receio, evidencia o facto de ambos os géneros musicais terem origem africana.
Por outro lado, o documentarista mostra os prejuizos do furacao Katrina, de 2005, particularmente para os músicos de Nova Orleãs, conhecida mundialmente como a “cidade  berço” do jazz, destruída pela “terrível catástrofe natural”.
A reconstrução do local é vista de maneira negativa por alguns músicos, como Gregg Stafford, que reclama contra a “elitização” de bairros como o Quarteirão Francês, onde o “Preservation Hall”, considerado “templo do jazz” não passou ileso, mudou de dono e virou atracção para turistas.

"Razões Africanas"


A vinda do cineasta Jefferson Mello a Luanda teve o objectivo de difundir o documentário “Samba & Jazz” e conhecer personagens e um pouco mais da história da música produzida em Angola para a produção do seu novo projecto “Razões Africanas”.
Em entrevista ao Jornal de Angola, o realizador disse que “Razões Africanas” pretende mostrar a influência africana, abordando Angola na construção dos “blues” no Mississipi (EUA), “rumba”, em Cuba, e “jongo” da Serrinha no Rio de Janeiro. “Escolhi Angola, primeiro, por um motivo pessoal, valorizar a língua portuguesa e os estreitos laços que ligam Angola ao Brasil. Além disto, a pesquisa que já iniciei para este novo projecto levou-me    a trazer à tona a imensa influência levada pelos escravos angolanos que chegaram a estes três países e foram os responsáveis por ressignificarem culturalmente as suas tradições rítmicas de acordo com o novo ambiente a que foram sujeitados”.
Em fase de pesquisa e produção, Jefferson Mello esteve durante sete dias em Luanda, e informou que as filmagens já começaram nas cidades de Rio de Janeiro e Havana. “Nesta primeira vinda a Luanda, aprofundei contactos e a pesquisa de conteúdo. A previsão de lançamento é para o segundo semestre de 2017 e vai acontecer, com certeza, no Centro Cultural Brasil-Angola”.
O documentarista ficou encantado com a luz e a cor da cidade de Luanda. “As pessoas são alegres e transmitem esse sentimento não só nas suas expressões, mas também na sua maneira de vestir”.

Percurso


Jefferson Mello é fotógrafo de moda e publicidade há 20 anos, realizador de filmes publicitários para os clubes Botafogo e Vasco da Gama, autor de inúmeras capas de CD, catálogos de moda e do livro “Os Caminhos do Jazz” no qual viajou pelo mundo atrás de histórias sobre este género musical.
O livro foi a fonte de inspiração para criar o roteiro da longa-metragem “Samba & Jazz”. Além disso, foi o idealizador de documentários sobre o Botafogo na segunda divisão, denominado “O Resgate da Dignidade” e outro sobre a conquista do campeonato pelo Botafogo em 2006, denominado “O Rio é Preto e Branco”.

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA