Artista britânico explora o tempo em filme


9 de Março, 2015

Fotografia: AFP

Christian Marclay pegou em milhares de videoclipes que mostra a passagem do tempo e juntou-os num filme que dura 24 horas, “The Clock”, que pode agora ser visto em Lisboa, no Museu Berardo.


 Christian Marclay juntou excertos de filmes que mostram cronómetros, relógios de pulso, de torres de igrejas, o Central Station, a mais cinematográfica das estações, e actores como Robert Redford, Michael Douglas, Charles Chaplin, Marlon Brando, Leonardo DiCaprio James Stewart, Katharine Hepburn, Mickey Rourke, Bill Murray e Richard Gere.
“Desde que acordamos de manhã, com o despertador a tocar, vivemos com o tempo contado. A hora de entrar na escola, de começar a trabalhar, almoçar e conseguir encaixar tudo o que temos para fazer nas 24 horas que tem um dia. Quantas vezes olhamos para o relógio? No pulso, no telemóvel, no computador, no carro?”, pergunta o artista, que partiu desta experiência comum para criar a peça premiada na Bienal de Veneza.
Christian Marclay disse que em 2007 atribuiu a si próprio uma missão impossível, criar um filme sobre o tempo que “representasse todos os minutos do dia e da noite”. O resultado, que levou três anos a ser produzido a um ritmo obsessivo de dez a 12 horas por dia, foi “The Clock” (o relógio).
No Museu Berardo, disse ser “um artista ultrapassado” pela sua criação, que ganhou vida própria. “Levei 40 anos de trabalho ancorado nas vanguardas artísticas e no experimentalismo para, agora, dar nisto, ser conhecido onde quer que vá, primeiro, sobretudo ou apenas, como o autor de ‘The Clock’”, desabafou. Apesar de ser uma compilação com cenas de filmes, “The Clock” é também um relógio, sincronizado com o tempo real. Sempre que se vêem as horas no filme, elas coincidem com a hora do dia em que estamos a essa imagem. “Essa é a ‘magia’ da peça”, disse.

Conselhos

O artista não encoraja as pessoas a verem o filme “The Clock” na sua totalidade. “A decisão é de cada um, se querem ver oito minutos ou duas horas. A vida do espectador torna-se parte da experiência porque ele tem de ir buscar os filhos à escola, ou ir à casa de banho”, referiu. Christian Marclay revelou que gosta da ideia de a correspondência entre o que se vê no filme e a experiência dos espectadores ser mais intensa de madrugada.
“Meio-dia e meia-noite costumam ser as horas mais procuradas pelo público porque são intensas, sente-se um crescendo. Tinha imenso material à disposição relacionado com a meia-noite. Das três às cinco da manhã é capaz de ser mais interessante porque é o período que menos pessoas viram.”
Christian Marclay recusa a ideia de ser um videasta. A sua primeira exposição de trabalhos feitos depois de “The Clock” pode ser vista actualmente em Londres, na galeria White Cube, perto da Tate Modern.
Das maiores impressões que a exposição deixa é de ser uma reacção a, ou mesmo contra, “The Clock”, ou a reafirmação de Christian Marclay como um artista multidisciplinar, na opinião dos críticos.
Numa das salas, o artista montou um contentor com uma prensa de discos vinis. Christian Marclay já foi um DJ nas primeiras décadas da sua carreira artística e utilizou, para os críticos, este conhecimento para montar a nova exposição, onde trabalhou com vários discos.
“The Clock” é produto dessa experiência, declaram os críticos de arte. “É a obra de um DJ visual, por assim dizer, mais do que de alguém que vem de uma tradição cinematográfica, o que talvez explique por que é que críticos e historiadores de cinema tendem a ser os mais cépticos perante ‘The Clock”, sustentam.

A ideia original

O artista reconhece que “The Clock” “é já uma peça algo anacrónica”. A selecção de filmes foi feita a partir dos títulos disponíveis entre 2007 e 2010 em lojas londrinas de vídeo.
“Se fosse feito hoje, tínhamos trabalhado de outra forma, se calhar usado downloads de filmes”, admitiu. Os relógios que aparecem em “The Clock”, disse, também são de certo modo tecnologia ultrapassada, pois passámos a ver as horas nos telemóveis, iPhones e ecrãs de computador.
“Quando ainda mandávamos cartas pelo correio, o tempo de espera entre uma acção e o resultado era maior. Agora esperamos que a resposta a um e-mail seja imediata”, recordou. “The Clock”, disse, não pode ser visto de outra forma, a não ser ao vivo, porque o artista não está a planear nenhuma edição em DVD.
“Chegámos a pensar criar um aplicativo onde se pudessem ver as horas tal como no filme, mas a dimensão sonora ficava comprometida”, referiu. “Além disso, podia criar um problema em termos de direitos de autor porque a partir do momento em que fizesse uma aplicação passava a ser uma obra comercial. A melhor maneira de ver cinema é numa sala com outras pessoas.”

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