"Birdman" foi o grande vencedor dos Óscares


24 de Fevereiro, 2015

Fotografia: Reuters

A 87ª edição dos Óscares decorreu na madrugada de ontem no teatro Dolby de Hollywood, numa cerimónia conduzida pelo actor Neil Patrick Harris. A festa começou com o tradicional musical com Harris, Anna Kendrik e Jack Black e durou três horas com a entrega de estatuetas em 24 categorias.

Os contornos e as diversas dificuldades para se firmar na actual indústria do entretenimento norte-americana, representadas em “Birdman”, deram ao recente trabalho de Alejandro González Iñarritu a maior distinção da 87ª edição dos Óscares, a de melhor filme e realizador.
Apesar do “empate técnico” entre “Birdman” e “Grand Budapest Hotel”, de Wes Anderson, um dos factos inéditos desta edição dos Óscares, já que ambos os filmes estavam nomeados em nove categorias, mas receberam cada um quatro troféus, o trabalho de Iñarritu obteve a maior vantagem pelas duas categorias.
O humor negro de Alejandro González Iñarritu, sobre os problemas da fama na Hollywood actual, conquistou ainda os prémios de melhor argumento original e direcção de fotografia, enquanto “Grand Budapest Hotel” venceu nas categorias técnicas, melhor banda sonora, figurino, maquilhagem e direcção de arte.
Para os especialistas, Julianne Moore não surpreendeu ninguém ao obter o Óscar de melhor actriz por “O Meu Nome é Alice” e Patrícia Arquette e J. K. Simmons confirmaram o seu favoritismo nas categorias de actriz e actor secundários.
“Estou muito feliz e emocionada que as pessoas hoje compreendam melhor quem sofre da doença de Alzheimer. Muitos destes doentes vivem isoladas e marginalizadas. Este filme ajudou a maior parte deles a serem vistos. Esta é uma das coisas maravilhosas do cinema”, disse Julianne Moore.
A atribuição do prémio de melhor actor a Eddie Redmayne pela sua interpretação de Stephen Hawking, em “A Teoria de Tudo”, foi uma surpresa numa corrida onde Michael Keaton partia como favorito por “Birdman”. O actor inglês disse que o seu Óscar pertencia a Hawking e à família. “Sou o seu simples zelador.”
O anúncio dos vencedores desta edição “derrotou” sem piedade três dos outros candidatos fortes: “O Jogo da Imitação”, de Morten Tyldum (um único prémio em oito nomeações), “Boyhood – Momentos de uma Vida”, de Richard Linklater, e “Sniper Americano”, do realizador Clint Eastwood (ambos vencedores de apenas uma categoria apesar de seis nomeações).
A cerimónia, uma das mais longas da história dos Óscares (3h40) foi repleta de surpresas. A primeira foi a apresentação da cerimónia por Neil Patrick Harris, surpreendentemente nervoso. O actor de “Foi Assim que Aconteceu”, recentemente premiado com um Tony pela peça musical “Hedwigand the Angry Inch”, pareceu estar “fora de pé” ao longo da noite.
A segunda surpresa foi feita pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que não poupou esforços para “compensar” as polémicas que rodearam as nomeações, e sobretudo a ausência nas categorias principais do aclamado filme de Ava du Vernay, “Selma - A Marcha da Liberdade” (nomeado apenas para melhor filme e canção original).
No discurso da presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, subentendeu-se a vontade de celebrar menos a política e mais o cinema. A referência da responsável para a defesa da liberdade de expressão pareceu referir-se, sem as nomear directamente, às controvérsias que mais abalaram Hollywood nos últimos meses: o ataque informático aos estúdios Sony ligado à comédia “A Entrevista”, a actual questão da representação da população afro-americana no cinema e o reacender do debate sobre a guerra no Iraque à volta do filme “Sniper Americano”.

Direitos humanos

Todos os anos, a cerimónia do Óscar é marcada por momentos de humor, mas também de homenagens e discursos intensos. Na edição deste ano, os vencedores das principais categorias aproveitaram a oportunidade para amplificar a voz de diversos movimentos de luta por direitos humanos. O cantor John Legend, ao receber o prémio de melhor canção original pelo tema que escreveu para “Selma”, “Glory”, fez a ligação com o cinquentenário da marcha liderada por Martin Luther King de Selma a Birmingham. “O filme ‘Selma’ é hoje, porque a luta pela justiça é hoje”, disse, citando em seguida os números oficiais da população negra norte-americana hoje detida em estabelecimentos prisionais como superior ao número de escravos negros ao tempo da Guerra Civil.
“O espírito desta ponte transcende a raça, o género, a religião, a orientação sexual e o‘status’ social. ‘Selma’ une todos os que sonham com uma vida melhorou defendem a sua liberdade de expressão, até mesmo com aqueles que protestam pela democracia. É uma ponte construída em cima da esperança, moldada com compaixão e elevada pelo amor por todos os seres humanos”, afirmou o músico.

Novas vozes

Durante a cerimónia também foi feita uma homenagem ao cinquentenário de “Música no Coração”, com a interpretação de temas do enorme sucesso do cinema musical, interpretado por Lady Gaga, que chamou ao palco em seguida a Maria original do filme, Julie Andrews.
O agradecimento de John Legend não foi o único a gerar uma fricção que a Academia de Cinema talvez não esperasse. Ao receber o prémio de melhor actriz secundária pela actuação em “Boyhood”, Patricia Arquette lançou um grito pela igualdade de estatuto e de tratamento para as mulheres em Hollywood, no que foi fervorosamente aplaudida por uma entusiasmada Meryl Streep na plateia.
A documentarista Laura Poitras chamou ao palco o jornalista Glenn Greenwald para aceitar com ela o Óscar de melhor documentário por “Citizenfour”, sobre as revelações do analista de informação Edward Snowden, e alertou para o perigo que o controlo informático pode criar para as democracias.
O realizdor Graham Moore, agraciado com o troféu de melhor argumento adaptado por “O Jogo da Imitação”, dedicou o prémio a todos aqueles que se sentem socialmente inadaptados, evocando a sua própria recuperação de uma tentativa de suicídio para oferecer a certeza de que tudo pode melhorar.

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