Cineastas usurpam lógica de Hollywood


15 de Julho, 2014

Fotografia: DR

Imbuídos do espírito do cinema autoral francês, os irmãos Arnaud e Jean-Marie Larrieu decidiram enfrentar a mentalidade hollywoodesca de se contar histórias, ao mesmo tempo que vêem um certo glamour na estética da indústria norte-americana, em especial no que diz respeito à imagem feminina.

Em “O amor é um crime perfeito”, em exibição desde a semana passada em vários países, os realizadores quiseram homenagear o naturalismo e a beleza das actrizes da terra que produziu Catherine Deneuve e Juliette Binoche, mas com a “sofisticação” das estrelas de Hollywood. Os dois estilos confluem em todos os cantos da co-produção franco-suíça, resultando numa mistura “comovente e sulfurosa”, nas palavras de Jean-Marie Larrieu.
“Costumamos dizer a brincar que o nosso filme é do Hitchcock, com diálogos do Éric Rohmer”, diz o realizador. “Não foi por acaso que adaptámos o escritor Philippe Dijan (de “Betty Blue”, filmado por Jean-Jacques Beineix nos anos 1980), ele mesmo muito influenciado pelo universo norte-americano. Mas, no fundo, o que nos interessa é mostrar aquilo que resiste à americanização generalizada do mundo."
A referência aos dois realizadores indica um cruzamento de géneros - este próprio ao serviço das intenções insubmissas de Jean-Marie (“É uma maneira de confrontar o cinema, especialmente o norte-americano, o grande inventor de géneros”, diz). Passado em terras geladas, entre lagos e montanhas, o filme conta com Mathieu Amalric como um professor de literatura, um Don Juan que conquista as alunas nas salas de aula e nos elegantes corredores de vidro da universidade. O que podia vir a ser uma história de romance desemboca em tramas sobre assassinato, delírio e incesto.
“Sempre tivemos uma predilecção por misturar géneros. Por quê? Porque é disso que a vida é feita”, afirma Jean-Marie. “Fazemos filmes para partilhar um tipo de emoção e mostrar até que ponto o que chamamos 'realidade' é uma noção ambígua. Filosoficamente, somos influenciados por Renoir. Em termos geográficos, pensamos que os lugares determinam tanto o comportamento das pessoas quanto as suas histórias de vida”.
Desde que concorreu à Palma de Ouro em Cannes com a comédia “Pintar ou fazer amor” (2005), a dupla de cineastas explorou dramas e até ficção científica, e agora investe no suspense na sua quarta parceria com Amalric (a primeira foi em “La brèche de Roland”, de 2000), hoje também requisitado por realizadores dos EUA - “O Grande Hotel Budapeste”, realizado por Wes Anderson e protagonizado por Amalric.
“Tornámo-nos amigos logo no início, talvez porque o Mathieu fazia de conta que não era actor. Nós identificamo-nos com ele, e foi recíproco. Ele empenha-se na história que contamos, e desta vez era preciso falar sobre o mal. Nós gostamos da maneira como Mathieu não calcula os seus papéis. Descobrimos a personagem conforme filmávamos. Isso deu-nos um medo, e a ele também, mas é sempre muito empolgante”, conta Jean-Marie.
Mas estabelecer parcerias não é algo inédito para o homem que, nos moldes dos Dardenne e dos Coen, assina a realização com o irmão em dez títulos, incluindo dois documentários e uma curta-metragem. O trabalho em família não foi programado, mas com o tempo perceberam que a dinâmica preservava “alguma coisa da infância” - algo que certamente tem relação com as origens do cinema, diz Jean-Marie, que em momento algum da entrevista trocou o “nós” por “eu”. E, apesar de ter feito um filme com objectivos aparentemente opostos, vê coerência no resultado final: “Somos cineastas filosóficos... E burlescos. Podemos pensar, rir e chorar ao mesmo tempo. Não há contradição em nenhum de nossos filmes”.

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