Filme mostra a solidão na era digital


7 de Agosto, 2014

Fotografia: AFP

O filme “O Homem das Multidões”,  baseado num conto homónimo de Edgar Allan Poe, consolida uma parceria entre dois realizadores de estilos distintos dentro do cinema brasileiro.

De um lado, está Cao Guimarães, com um percurso ligado ao vídeo  e filmes ensaísticos, como “Acidente” (2007), “Andarilho” (2007) e “A Alma do Osso” (2004).
Do outro, Marcelo Gomes, traçando o seu caminho sobre filmes baseados na vivência das suas personagens, casos de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) e “Era Uma Vez Eu, Verónica” (2012), sem contar outra parceria, com Karim Ainouz, no poético “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009).
Os dois estilos complementam-se à perfeição em “O Homem das Multidões”, que teve a sua estreia mundial na secção Panorama do Festival de Berlim, iniciando ali a circulação por vários outros festivais, como Guadalajara, Toulouse e Rio de Janeiro. Construindo a sua narrativa sobre silêncios e imagens, bem mais do que sobre diálogos, o filme arma um enredo em que a solidão é protagonista, a tónica da vida de duas personagens: o condutor de metro Juvenal e a sua supervisora, Margô.
Juvenal mora sozinho num pequeno apartamento em Belo Horizonte, num ambiente asséptico como um laboratório: poucos móveis, sem enfeites, uma geleira quase vazia. Fora do trabalho, ele debate-se com a insónia, passando as noites olhando a cidade do alto pela varanda, ouvindo rádio e a limpar a casa.
Nenhum amigo, nenhuma namorada, nem mesmo um computador pessoal. Na maior parte do tempo, ele fala sozinho. Eventualmente, procura a companhia de uma prostituta.
No trabalho, Margô é praticamente a sua única amiga. Embora ela seja aparentemente mais faladora e sociável, ambos são solitários, cada um à sua maneira. As relações de Margô são praticamente virtuais, excepto o pai, com quem ela ainda mora. Até o noivo ela conheceu na Internet. Os seus “animais de estimação” são peixes digitais, que ela “alimenta” no monitor do computador.
O formato causa uma certa estranheza inicial ao espectador, mas também concentra o foco do olhar no quotidiano miúdo das personagens.
No fim, “O Homem das Multidões” é um filme de sensações, que anseia criar uma cumplicidade com o público a partir de uma esfera dramatúrgica minimalista. A saber: Margô vai se casar e quer que Juvenal seja o padrinho; ele hesita. Há muito de não-dito neste afecto entre os dois, que se expressa por olhares, por falas aparentemente sem muita força, mas que mantém aceso um compartilhamento de sensações e sentimentos. A tecnologia muda mais do que a natureza humana, é o que o filme parece dizer.

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