Filmes angolanos são tesouros da cinemateca

Francisco Pedro|
25 de Janeiro, 2015

Fotografia: Maria Augusta

O montador de cinema Domingos Magalhães considerou ontem em Luanda, que os filmes angolanos produzidos pelo antigo Laboratório Nacional de Cinema, entre os anos 1975 e 1982, fazem parte dos tesouros da Cinemateca Nacional de Angola e são parte  “do nosso património audiovisual e da nossa memória colectiva”.

Desse acervo cinematográfico produzido pela primeira geração do cinema angolano   constam obras de ficção e documentário, como “A Festa do Boi Sagrado” e “Nelesita”, de Ruy Duarte de Carvalho, “Levanta, Voa e Vamos”, de Asdrúbal Rebelo, “O Ritmo do Ngola Ritmos” e “Carnaval da Vitória”, de António Ole, “Caçulinhas da Bola”, de Beto Moura Pires, ou “Memórias de Um Dia”, de Orlando Fortunato.
Funcionário da Cinemateca desde 1987, Domingos Magalhães trabalhou antes no Laboratório Nacional de Cinema e sente-se apaixonado pela tarefa de construção e difusão da cultura cinematográfica, através da recolha e pesquisa de todos os elementos que compõem a cinematografia nacional, actividade desenvolvida pela Cinemateca Nacional de Angola.
Numa altura em que se viviam os primeiros dez anos do cinema angolano, foi decidido que toda a produção nacional devia ter uma cópia para depósito na cinemateca, onde a conservação obedece a normas internacionais.
Além da componente conservação, lembrou que a cinemateca é um espaço aberto aos profissionais do cinema e audiovisual para realizarem debates, discussão e análise dos filmes.
Domingos Magalhães queria seguir a carreira de realizador, mas quando foi submetido a um teste psicotécnico, descobriu que possuía dotes para trabalhar como montador de cinema. Se tivesse que optar, entre a realização e a montagem, optava pela montagem porque “acho que o processo final do filme dá-se na montagem”, e porque que os grandes êxitos dos filmes “têm a mão do montador, há sempre uma cumplicidade entre o realizador e o montador, principalmente para a definição da mensagem que se pretende passar”. A coragem e a vontade de registar todos os acontecimentos marcantes da nossa história pós independência, desde a política à cultura e desporto, fazem parte dos seus sonhos, “o verdadeiro sentido de pátria”.

Características do cinema

Domingos Magalhães definiu o cinema angolano como essencialmente documental e como exemplo citou filmes  poéticos, produzidos por Asdrúbal Rebelo, documentários etnográficos, produzidos por Ruy Duarte de Carvalho, documentários culturais, produzidos por António Ole, e documentários informativos (Jornais de Actualidade), produzidos por Salgado Costa.
Na sua opinião, os filmes angolanos da primeira geração, de uma forma geral, não estão focados no circuito comercial, “apesar de termos algumas obras que se adaptam às salas de cinema”, entre as quais “Memória de um Dia”, “Miradouro da Lua”, “Kiala Mukanga”, “Moía Recado das Ilhas” e “Mopiópio”.
“Acredito que a geração pioneira do nosso cinema estava mais preocupada com o cinema como arte, como meio de comunicação do que o cinema como comércio”.
Domingos Magalhães fez um curso de Cinema no Laboratório Nacional, em 1987. Mais tarde foi requisitado para trabalhar na Cinemateca, para apoiar a organização dos arquivos cinematográficos, a pedido do director Bito Pacheco.

Experiência e Formação

Como montador, ganhou experiência ao trabalhar como assistente de montagem de positivo  com António Diogo Agostinho,  e Denise Salazar, nos filmes “Lalipwo Lubango”, 1988, de Raul Correia Mendes (Kikas), e “Escute e Olhe”, 1991, de Lázaro Búria.
Foi assistente de Realização do telefilme “O Mártir de Marta” (1990), de Ventura de Azevedo, e co-realizador de “366 dias Ano Bissexto” (1996), com Ventura de Azevedo.
Dedicou-se ainda à assistência de montagem de documentários com António Diogo Agostinho.
A carreira de realizador acaba por ser um processo íntegro e exigente pois “o realizador tem que tratar da parte técnica e da artística, facto de consome muito tempo, dedicação e empenho”, razão pela qual se tem dedicado a outras actividades usando as ferramentas disponíveis pelas tecnologias de informação, que hoje permitem a produção de inúmeros trabalhos audiovisuais.
 “Quando entrei na Cinemateca, a primeira coisa que fiz foi ler toda a literatura sobre cinema, além do arquivo de som e imagem, da qual conheço 90 por cento. Os restantes não li, ainda, por estarem em russo e em alemão”, disse, referindo que a leitura levou-o a obter muitos conhecimentos e a paixão pela cinemateca.

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