Reportagem dos dias antes da Independência

Adriano de Melo|
14 de Abril, 2015

Fotografia: Paulino Damião

O extraordinário relato da luta do MPLA pela independência de Angola descrita pelo jornalista polaco Ryszard Kapuscinski chega ao cinema no próximo ano, num filme com imagens reais e animação, do realizador Raul Fuente.

O realizador esteve em Angola durante três meses, em duas etapas. O roteiro do filme é o livro “Angola Mais Um Dia de Vida”, de Ryszard Kapuscinski.
O cineasta arrancou com o filme graças a uma cooperação financeira entre a Espanha, Alemanha, Bélgica e Polónia. A película, com imagens reais e animação, tem a duração de 88 minutos. O filme, explicou tem uma base histórica, assente na luta do MPLA pela libertação dos angolanos, contada pelo jornalista polaco, pelo General Farrusco e pelo jornalista Artur Queiroz. Mas é completamente artístico.
“Apesar de ser uma adaptação cinematográfica do livro, escrito com base nas vivências de Kapuscinski e inspirado na realidade, era muito difícil contar toda a história da luta dos angolanos num filme, sem a imaginação artística e subjectiva do cineasta”, disse.
Raul Fuente disse que o Povo Angolano e o MPLA “travaram uma luta que atrai qualquer realizador, apaixonado pelas conquistas das independências, como as africanas, valores de justiça, a descolonização, ou a busca de uma nova vida como aconteceu com os angolanos”.
A maior parte das cenas, explicou, conta os factos vividos em 1975 pelos angolanos, com um enfoque na sua força e a determinação, contada por Kapuscinski. “Era o livro favorito do autor e passou a ser o meu também. São relatos da sua maior aventura em África, com uma descrição detalhada de pessoas com quem conviveu na época. Tudo é interessante e durante a leitura temos a sensação de o próprio jornalista ser também um combatente do MPLA, com quem se solidarizou”, acrescentou.
As vivências descritas no filme são as contadas pelo jornalista entre Agosto e Setembro. “Em 2011, quando estive aqui a primeira vez, fiz investigação e algumas preparações para as gravações. Conheci muitas pessoas ligadas a essa época. Fiz o mesmo percurso do jornalista. Parti de Luanda, passei por Ndalatando, Samba Caju e depois fui a Benguela, Lobito, Huambo e Ondjiva”, conta Raul Fuente.
Nesta última fase de filmagens, conta, trabalhou mais de um mês em Luanda, no Cine Tivoli, Morro dos Veados, Hotel Presidente e na Avenida Marginal. Fez uma viagem para à Catumbela onde captou imagens áreas essenciais.
“Tudo para contar o que aconteceu em 1975, mas de forma livre e subjectiva”, reforçou o realizador Raul Fuentes.
Com previsões de chegar ao mercado cinematográfico mundial no próximo ano, embora ainda sem uma data precisa, o filme de animação inclui ainda relatos de combatentes cubanos, que lutaram também pela independência de Angola.

O lado difícil


Para o realizador Raul Fuente um dos aspectos mais difíceis desta adaptação é contar factos relacionados com a guerra. “Em qualquer país, onde tenha existido um conflito falar sobre a guerra é sempre muito difícil. Existem muitas versões, até mesmo entre os angolanos. Portanto é muita responsabilidade narrá-la com fidelidade”, disse.
O cineasta voltou a dizer que não é um filme puramente histórico, mas sim centrado nas vivências de Kapuscinski, com uma vertente artística. “Os únicos aspectos reais são as opiniões do General Farrusco e de Artur Queiroz, os dois protagonistas do filme, sobre a época. Ambos são citados no livro. Queiroz e Kapuscinski estiveram juntos nas frentes de combate”, diz o realizador.
“Nunca tive dificuldades no acesso à informação e contei com o apoio da Força Aérea Nacional e do Jornal de Angola. Os únicos problemas agora são artísticos, para elaborar o filme. Não é fácil fazer um filme de animação. Requer tempo e uma arte especial, visto que tenho de fazer selecção das cenas a serem introduzidas”, disse, adiantando que este é o seu primeiro filme de animação com imagens reais.
Quanto à produção cinematográfica europeia, Raul Fuente disse que não é fácil: “Os filmes são muito caros precisamos de muito dinheiro. Levei cinco anos a obter um financiamento para este filme. O que consegui foi uma parceria de vários países, que querem conhecer um pouco mais sobre esta história”, justificou.

Perfil do escritor


Ryszard Kapuscinski (1932-2007) foi um jornalista e escritor polaco. Começou a sua carreira jornalística aos 17 anos na revista “Hoje e Amanhã”. Em 1964, foi apontado pela Polska Agencja Prasowa (PAP), onde trabalhou de 1958 a 1981.
Durante esse período viajou pelo mundo e fez a reportagem de guerras, golpes e revoluções em África, Ásia, Europa e Américas, incluindo a “Soccer War” (conflito de seis dias entre Honduras e El Salvador, em 1969). Fez amizade com Che Guevara na Bolívia, Salvador Allende no Chile e Patrice Lumumba no Congo. Ao longo da sua vida presenciou 27 revoluções e golpes de Estado, esteve em 12 frentes de guerra e foi condenado a fuzilamento por quatro vezes.
No mundo anglófono, ele é mais conhecido pelas suas reportagens de África nas décadas de 1960 e 1970, quando testemunhou em primeira mão o fim dosi coloniais Europeus nesse continente. A partir do início da década de 1960, Kapuscinski publicou livros de elevado valor literário, habilmente caracterizados por sofisticada narrativa técnica, os retratos psicológicos das personagens, abundância de metáforas e outras figuras de estilo e imagens raras que servem como meios para interpretar a percepção do mundo.
Entre os seus livros mais conhecidos destacam-se “O Imperador”, sobre o declínio do anacrónico regime etíope de Haile Selassie, “Xá dos Xás”, a queda de Mohammad Reza Pahlavi, o último Xá da Pérsia, “Imperium”, sobre os últimos dias da União Soviética, e “Angola Mais Um Dia de Vida”, sobre o sofrimento e o caos da guerra de agressão contra Angola. Em 1999 foi eleito no seu país como o melhor jornalista do século XX. Em 2003, recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias. Foi frequentemente mencionado para receber o Prémio Nobel da Literatura.
Desde a sua morte foram-lhe dedicados vários epitáfios, como “O mestre do jornalismo moderno”, “Tradutor do mundo”, “O maior repórter do mundo” e “Heródoto dos nossos tempos”.

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