Cultura

Fragata de Morais abre ciclo do projecto “Textualidades”

Jomo Fortunato

A produção literária de Fragata de Morais, em debate com estudantes, convidados e público interessado, no dia 30 de Agosto, às 16h:30, no âmbito do segundo ciclo semestral da Programação Cultural do Memorial Dr. António Agostinho Neto, inclui uma pertinente investigação no domínio da história literária,com a "Antologia panorâmica de textos dramáticos", um estudo passível de integração nos conteúdos programáticos de ensino da literatura dramática angolana.

 

Fragata de Morais dialoga com os seus leitores no Memorial
Fotografia: Edições Novembro

A dimensão sociológica do conjunto da obra de Fragata de Morais, enquanto cronista do seu tempo, poeta e repórter da história, resvala na sátira social, nostalgia da infância, conflitualidade entre os bons costumes rurais e a tentação dos hábitos perniciosos da cidade, aliás, um dos temas plasmados no seu livro,  “A prece dos mal amados”, 2005.
Simples, incisiva e ousada, a escrita de Fragata de Morais discorre num estilo escorreito, com sérias preocupações de natureza social, moral e pedagógica. No entanto, o autor explica, deste modo, a sua propensão para a escrita, “Quando me perguntam de onde vem a veia para a escrita, geralmente digo que é um dom, que começou a revelar-se nas redacções que fazia na primária.
A partir da segunda classe, sempre fui o aluno que melhores notas tinha em redacção e leitura. A escrita fluía naturalmente, claro que condicionada à minha tenra idade e percepção do mundo que me rodeava, mas a verdade é que fluía”.
Da história mais recente de Angola, a obra de Fragata de Morais, tem uma palavra de desencanto: “Há coisas que se passam em Katola que nunca vi em lugar algum. Recordas-te quando fomos para o Rwanda? De como todos fugiam do país por causa da guerra? Pois em Inkuna passa-se o contrário, todos fogem por cá por causa da guerra!”, respondeu Jean Pierre, sem brincar...”, escreve Fragata de Morais no livro, “Inkuna, minha terra”, uma crítica evidente aos que se beneficiam com a guerra, relegando para um plano secundário, o sofrimento alheio”.  

Reconhecimento 

No entanto, a luta pelo reconhecimento não foi fácil: “Ao longo dos anos, fui escrevinhando coisas que achava terem uma profundidade e significado enormes, claro que só para mim. Já mais adulto, lembro-me de ter percorrido todas as editoras de Paris, sempre tendo o meu material amavelmente rejeitado, por esta ou aquela razão. Não desisti, e fui conseguindo ser publicado em pequenas crónicas nos jornais da diáspora portuguesa em Paris. Só na Holanda, em 1971, tive textos meus publicados em forma de livro, em duas antologias, uma de Poesia, outra de prosa. Continuei a publicar pequenos trabalhos avulsos, lá onde aceitassem”,  lembra Fragata de Morais.
Filho de Mário Augusto Barbosa de Morais e de Maria Alice Fragata de Morais, Manuel Augusto Fragata de Morais, nasceu no Uíge, no dia 16 de Novembro de 1941.

Fantástico 

Ainda no domínio da investigação da história literária, “O fantástico na prosa angolana”, 2011, de Fragata de Morais,  é um estudo singular no seu género: “Quando me veio a ideia de elaborar a presente antologia, de imediato se me colocou a grandeza e delicadeza da tarefa, face à vasta gama de escritores nacionais e sobre o que eu poderia considerar de imaginário, de fantástico, de real e ou de irreal, entre muitas outras considerações, numa sociedade em que as fronteiras entre o mundo visível e aquele invisível sempre estiveram tão intimamente ligadas.
Face à oralidade das sociedades africanas, da qual Angola não teria como escapar, este universo de ambiguidade não poderia deixar de ter residência visível nas diversas obras dos escritores angolanos que, ao longo dos séculos XIX e XX, foram férteis na produção de textos em que diversos mundos se interligavam com acontecimentos estranhos, acontecimentos que com muita frequência fugiam ao entendimento de serem ou não reais face à percepção do aceitável e ou do credível”. 

Percurso 

Dividido entre a política e a literatura, Fragata de Morais foi jornalista, actor, dramaturgo, cineasta, tendo frequentado a Universidade Internacional de Teatro em Paris e a Academia Holandesa de Cinema. A convite da Academia de Artes Dramáticas da Holanda escreveu, realizou e encenou os seus trabalhos de teatro infantil, designado, “Gupia”.  Fragata de Morais apresentou os seus trabalhos no “Holland Festival” e no “Berlin Kinder Und Jugendtheater”, em 1971. 
No “The Frist Company”, seu próprio grupo teatral,  realizou, encenou e actuou em “The Indian Wantsthe Bronx” de Israel Horowitz, “Fando e Lis” de Arrabal, bem como “The Hole”, “Agonies”  e “Sketches”, todos da sua autoria. De 1972 a 1975, frequentou a “Nederlandse Film Akademie”, produzindo para a televisão holandesa, documentários sobre Angola.
Tem publicação dispersa em vários jornais e revistas, é cronista do Jornal de Angola, membro da União dos Jornalistas Angolanos, deputado pela bancada do MPLA e foi vice-ministro da Educação e Cultura.  

Principais obras 

Fragata de Morais publicou: “Terreuren Verzet”, 1972, “Como iam as velhas saber disso”, INALD, 1982, “A seiva”, INALD, 1995, “Inkuna, minha terra”, Menção Honrosa do Prémio Sonangol de Literatura, UEA, 1997, “Jindunguices”, Prémio Literário Sagrada Esperança, INALD, 1999, “Momento de ilusão”, Campo das Letras, 2000, “A sonhar se fez verdade”, INALD, 2003, “Antologia panorâmica de textos dramáticos”, Nzila, 2003, “A prece dos mal amados”, Campo das Letras, 2005, “Sumaúma”, 2006, UEA, “Memórias da Ilha”, Nzila, 2006, “O fantástico na prosa angolana”, Mayamba, 2011, “Batuque Mukongo”, UEA,2011, e, mais recentemente, “A Visita”, UEA, 2014, teatro, lançado no dia 29 de Outubro de 2014, as 18h:00, na União dos Escritores Angolanos.
O projecto “Textualidades, conversa com leitores” inclui ainda, para o semestre em curso, as presenças de Pepetela, 27 de Setembro, Manuel Rui, 29 de Novembro,  e  Sandra Poulson, no dia 25 de Outubro. 


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