Cultura

Francisco Vidal inaugura exposição “Padrão Crioulo”

Seiscentos e trinta retratos de autoria de Francisco Vidal estão patentes no Espaço Espelho D'Água, numa exposição intitulada “Padrão Crioulo”, inaugurada, sábado, em Lisboa.

Os quadros de Francisco Vidal, sob técnica mista, podem ser apreciados até 25 de Maio no Espaço Espelho D’Água em Lisboa
Fotografia: Dr

Na mostra, o artista angolano espelha o projecto que tem vindo a desenvolver desde 2014, que é “uma espécie de sebenta de um pensamento contemporâneo africano”, disse à Lusa.
De acordo com Francisco Vidal, “são os retratos que estou a fazer desde que estive a dar aulas de desenho em Luanda, em 2014, uma espécie de sebenta de um pensamento contemporâneo africano”.
Os retratos mais recentes, que na exposição estão “feitos sobre catanas”, são de músicos africanos de Lisboa, nomeadamente DJ Marfox, DJ Nervoso, DJ Nigga Fox, DJ Nídia e o DJ Firmeza.
“Os retratos destes músicos falam sobre o tempo que vivemos hoje, a música que ouvimos hoje, as pessoas que somos hoje”, disse.
O projecto de retratos fica patente até ao 25 de Maio. Iniciou em 2014, designado “Name dropping para uma revolução industrial africana”.
“É de facto um 'name dropping' porque são nomes quase como se fosse uma lista telefónica. Porque eu tenho 630 retratos e a minha intenção quando comecei era chegar aos mil”, explicou. Quando começou o projecto, em Luanda, “o que interessava naquela altura era pensar sobre o passado recente do continente, do país e da cidade, o passado recente político, ético, estético, através do desenho”.
“Por isso, aparecem muitos políticos que estiveram envolvidos nas lutas de libertação. Políticos, poetas, músicos, artistas. Aquilo que eu tentei fazer foi uma estrutura de pessoas importantes que mudaram os tempos que vivemos hoje e também pessoas importantes no espaço contemporâneo, que estão a mudar a cultura e a maneira como nos relacionamos uns com os outros”, referiu.
Entre os 630 retratados estão também colegas de Francisco Vidal de Luanda, os pintores, os escultores, os músicos, os amigos de Lisboa, pintores e artistas. “Depois de Luanda comecei a viajar por outras cidades e a fazer retratos de pessoas dessas cidades”.
Estão 630 retratos, muitos dos quais são folhas A4 de uma sebenta académica, para tirar fotocópias e passar aos alunos.
Segundo o artista, trata-se de um objecto de estudo. “Os originais viajam e sempre que faço uma exposição fotocopio esses originais e ponho na parede", explicou, acrescentando que faz “uma pequena edição, porque é importante que apareçam os mais importantes sempre”.
Por tratar-se de um projecto “portátil”, Francisco Vidal sempre que está num espaço tenta “activar esse espaço numa maneira de estudo”. Em Setembro do ano passado, no festival Iminente, em Lisboa, fez “um ‘workshop’ de papel e retrato com um grupo de jovens do bairro da Outurela, em Carnaxide, concelho de Oeiras, com essa intenção que saiu de Luanda com os alunos”.
“Estive a falar com esses jovens sobre o que é a nossa estrutura cultural, afrodescendente, em 2019 e pensando nesta estrutura que nos faz ser o que somos hoje”.
Além disso, quando esteve em São Tomé e Príncipe, Francisco Vidal fez “uma série de retratos de um ‘workshop’ com 99 crianças e jovens, entre os 3 e os 19 anos”.
Na sua óptica, o desenho e a fotocópia são um meio de trabalhar um pensamento que viaja por essas geografias todas que pensam em português e que “têm ligações históricas”, afirmou.
Francisco Vidal, actualmente o angolano que mais vende no mercado europeu e não só, considera que, “diariamente, essas geografias e as pessoas que habitam essas geografias têm que pensar o que é que as liga”. “Aquilo que nos faz construir um espaço colectivo que atravessa fronteiras físicas, geográficas, mas outras também que são importantes de trabalhar para conseguirmos ter um espaço estético, ético, político que cresça, que tenha uma evolução, que seja construtiva e positiva”, defendeu.

Perfil do artista

Francisco Vidal é licenciado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, fez um curso avançado em Artes Visuais na Escola de Artes Visuais Maumaus, em Lisboa, e tem um mestrado na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.
Nascido em Lisboa em 1978 de pai angolano e mãe cabo-verdiana, foi seleccionado para fazer parte do pavilhão de Angola na 56ª edição da Bienal de Veneza e tem realizado várias exposições individuais e colectivas em Portugal e no estrangeiro.
Em Maio de 2017, duas obras de Francisco Vidal foram a leilão no primeiro leilão da “Sotheby's” dedicado exclusivamente à Arte Moderna e Contemporânea em África. Em Outubro do mesmo ano, um quadro seu foi arrematado em leilão por 3.200 libras (3.589 euros) em Londres. “Utopia Luanda Purple” é uma tela produzida em 2016, cujo valor estava estimado entre 3.000 e 5.000 libras (3.400 e 5.700 euros).

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