Futuro do desporto e da música está na formação

Pereira Dinis | Arcângela Rodrigues |
11 de Novembro, 2015

Fotografia: Maria Augusta

Figura incontornável do desporto e da música angolana, Rui Mingas, 76 anos, é ao mesmo tempo uma pessoa afável no trato e pragmática no que diz. Nesta entrevista ao Jornal de Angola, o antigo atleta do salto em altura e 110 metros barreiras, primeiro secretário de Estado da Educação Física e Desportos, autor do Hino Nacional em parceria com Manuel Rui, além de várias canções memoráveis, como “Meninos do Huambo” e “Minha Angola, Meu País”, antigo embaixador em Portugal e actual administrador da Universidade Lusíada de Angola, faz uma abordagem pedagógica ao estado actual do desporto e da música no país. Pelo conjunto da sua obra, Rui Mingas foi este ano galardoado com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, na categoria de música, instituído pelo Ministério da Cultura.



Jornal de Angola - Há um ano, afirmou que era um erro querermos estar entre a elite do desporto mundial antes de estruturarmos o sector ao nível interno. Registaram-se mudanças nessa tendência?

Rui Mingas -
Internamente, obtivemos algumas mudanças que resultaram na criação de outra dinâmica, embora não  da forma ideal, porque ainda enfrentamos várias debilidades. O nosso país herdou uma estrutura desportiva colonial que não tinha nas suas preocupações a abrangência que um país independente possui. A estrutura do desporto colonial naquela altura era para a classe dominante, como os colonos portugueses e os assimilados, mas o desporto estruturado para um país independente tem a preocupação de proporcionar a sua recuperação no seu todo.

Jornal de Angola - Ao recordar a primeira participação de Angola nos Jogos Olímpicos, em Moscovo, em 1980, disse ter sido uma luta contra o tempo. As participações em eventos internacionais são agora bem preparadas?

Rui Mingas -
Estão a ser bem preparadas. A corrida aos Jogos Olímpicos [de Moscovo] foi uma luta contra o tempo, porque éramos um país nascente e não possuíamos o que estava a ser exigido pelos órgãos internacionais para fazermos parte do grande movimento desportivo mundial. Foi necessário criar as federações, uma das condições para o nosso país fundar o Comité Olímpico e de seguida fazer parte do Comité Olímpico Internacional.

Jornal de Angola - Depois dos II Jogos da África Central, em 1981, o país acolheu outros eventos desportivos internacionais. Temos crescido neste aspecto?

Rui Mingas -
Não há dúvida que temos sido um país de referência, crescemos desde o CAN, Afrobasket, Jogos da África Central, Andebol, e esse dinamismo faz com que estejam marcadas todas as vitórias que conseguimos obter no movimento desportivo.

Jornal de Angola - Dá a impressão que as intervenções dos participantes nos vários encontros realizados para discutir o desporto no país, as conclusões e as recomendações delas saídas são sempre as mesmas. O que falta para colocar essas ideias em prática?

Rui Mingas -
Não há dúvida que as recomendações são sempre as mesmas e para colocar em prática na componente do desporto há dois aspectos fundamentais que devemos ter em conta: a existência de infra-estruturas e recursos humanos capacitados. É importante que haja uma estratégia que desenvolva o desporto para que as recomendações estabelecidas possam dar respostas aos desafios criados. Por exemplo, é necessário saber como são as infra-estruturas do nosso país, que infra-estruturas temos e quantos quadros existem na área do desporto para responder a estas necessidades. Não há dúvida que as acções existem, mas temos falta de quadros para dar início ao trabalho. As escolas não possuem ginásios, pavilhões para a prática do desporto colectivo e campos de futebol.

Jornal de Angola - Qual é o impacto das infra-estruturas desportivas construídas nos últimos anos, dos quadros que se vêm formando e dos que regressam ao país depois da conquista da paz?

Rui Mingas -
As infra-estruturas são boas, mas não na sua totalidade. Uma das coisas boas que fizemos foi a realização do Afrobasket para o qual foram criados vários pavilhões. Eles existem, mas, se realizarmos um acompanhamento a nível nacional dessas infra-estruturas existe um vazio, porque esses espaços não são utilizados. A falta de utilização dessas infra-estruturas é que faz com que não sejam bem aproveitadas. Os quadros existentes são poucos, por isso, não podemos desenvolver o desporto como deveria ser. Infelizmente, a formação não está a ser bem estruturada.

Jornal de Angola - A que velocidade caminha a revitalização do desporto escolar?

Rui Mingas -
O quadro é desolador, porque as escolas do nosso país não têm infra-estruturas e professores competentes para dar aulas de educação física às crianças. Estamos numa fase de revitalização da educação física e desporto escolar. Sem educação física, não existe desporto.

Jornal de Angola - O surgimento de mais escolas de formação e a realização de provas de massificação, como o Girabairro e os Palanquinhas, estão a contribuir para o desenvolvimento do futebol?

Rui Mingas -
Sim, porque estas iniciativas contribuem para este efeito, mas sem maior massificação da prática escolar não podemos ter crianças a praticarem desporto. Por exemplo, quantas crianças temos hoje no ensino primário e secundário a praticar o desporto escolar? Devemos apostar nas nossas escolas, porque é onde são descobertos os verdadeiros talentos. E se for introduzido como prática nas escolas, além das academias, facilmente consegue-se controlar com regularidade a aula de educação física e captar jovens que vão integrar as próprias academias.

Jornal de Angola - Como caracteriza o actual estado da música angolana?

Rui Mingas -
A música angolana deu um salto muito grande. Depois da nossa Independência, a música mudou significativamente. Actualmente, a nossa música tem um movimento bastante grande, temos excelentes intérpretes e grupos musicais de grande qualidade. A música, assim como outras actividades culturais, deve entrar numa outra componente, que é a formação, criação de escolas e academias de música.

Jornal de Angola - A concorrência entre músicos de diferentes gerações e estilos musicais é positiva ou prejudicial para a música angolana?

Rui Mingas -
Acredito que a concorrência é salutar. É salutar para os músicos da minha geração, porque os mais velhos são uma referência do passado. Sem uma referência do passado, dificilmente se pode perspectivar um futuro melhor. O que foi feito por nós não se ajusta às sensibilidades da nova geração. Devemos continuar a ser bons indicadores e andar de mãos dadas com os jovens.

Jornal de Angola - Rui Mingas é autor e intérprete de canções que ficaram no ouvido das pessoas e passam de geração em geração. Hoje, as músicas parecem ter menos “longevidade”. Será por seguirem tendências mais comerciais?

Rui Mingas -
No momento em que vivemos, a música comercial é necessária. Quanto a não durarem por muito tempo, deve-se à pouca qualidade de algumas produções. Há uma comercialização excessiva e muitas vezes não se esgota a mensagem do que se está a fazer. Portanto, isso perde-se porque hoje temos um mercado muito apetecível e a longevidade não se faz sentir. A comercialização num país como o nosso é necessária.

Jornal de Angola - O facto de mais músicos angolanos fazerem sucesso no exterior demonstra a evolução da nossa música ou serve para encobrir as nossas debilidades?

Rui Mingas -
Temos estado a mostrar a evolução da nossa música, em particular de alguns artistas que hoje produzem músicas bastante competitivas para o nosso continente e a América Latina, onde as identidades rítmicas são muito parecidas.

Jornal de Angola - Que resultados se podem esperar dos centros de formação artística e musical que estão a ser criados, sobretudo pelo Estado?

Rui Mingas -
Melhoria na qualidade da música. É louvável a criação de escolas de música e bem-vindas todas as outras iniciativas que possam contribuir para que os nossos filhos demonstrem as capacidades e habilidades que possuem. 

Jornal de Angola - Uma questão que não podíamos deixar passar em branco: o Hino Nacional. Manuel Rui disse que foram dois dias de muita pressão e ansiedade. O que sente hoje quando ouve o tema “Angola Avante” a ser entoado em grandes eventos dentro e fora do país?

Rui Mingas
- Já senti bastante emoção, nos primeiros anos da nossa Independência. Actualmente, sinto que, humildemente, eu e o Manuel Rui contribuímos para um símbolo que é de todo o povo angolano.

Jornal de Angola - Além do Hino Nacional, é autor de uma canção que se tornou no Hino da Paz: “Minha Angola, Meu País”. Fale-nos dessa música.

Rui Mingas
- Essa música foi composta por mim e Filipe Zau. Na altura, ele era adido cultural e eu embaixador acreditado em Portugal. Lembro-me que, quando se aproximavam as eleições de 1992, pedi ao Filipe Zau para criar um verso que simbolizasse a nossa pátria e as crianças. Ele é uma pessoa de grande habilidade com a escrita e criou os versos. Um belo dia, convidei-o para irmos passear, com a melodia já gravada para ele ouvir e reagiu com bastante satisfação. Ainda em Portugal, realizei um jantar para receber uma delegação proveniente de Luanda e o general José Maria fazia parte desse grupo. Durante o jantar, cantei essa linda música composta por mim e Filipe Zau e o general gravou numa cassete. Trouxe-a para Luanda e, na altura do acordo de paz, fez a apresentação da música a todos os membros participantes na Assembleia Nacional. Para mim, foi uma surpresa porque eu não contava que ele ainda tinha a música gravada e se tornou no Hino da Paz.

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA