Cultura

Gabriel García Márquez revela o “Escândalo do Século”

João Céu e Silva

Nenhum leitor fica indiferente à prosa do escritor Gabriel García Márquez e ainda mais quando se trata da escrita enquanto jornalista, a profissão que o colombiano mais gostava e que o volume que chega às livrarias na próxima semana mostra em 50 exemplos de todo o género.

Fotografia: DR

Intitulado “O Escândalo do Século”, a obra reflecte uma grande parte da vida profissional de Gabo, o diminutivo que os mais próximos lhe chamavam, e resulta de uma selecção feita pelo seu editor Cristóbal Pera. Diga-se que Gabriel García Márquez disse uma vez que desejava ser lembrado pelo jornalismo: “Não quero que me recordem por “Cem Anos de Solidão”, nem por aquilo do Prémio Nobel, mas sim pelo jornal”.
Apesar de se poder colocar em dúvida a questão da (des)importância do Nobel e do valor da literatura para si, é preciso não esquecer que García Márquez só se tornou conhecido no mundo inteiro devido ao romance extraordinário “Cem Anos de Solidão” e ao Prémio da Academia Sueca em 1982. E aí a produção jornalística ganhou outro valor ainda maior.
Nascido em Aracataca, em 1927, Márquez foi baptizado “pai do realismo mágico latino-americano”, o responsável pelo grande boom da literatura daquele continente em todo o mundo. Aliás, nesta recolha surge um texto, A Casa dos Buendía, que fornece pistas para a escrita desse romance. Que começa assim: “Quando Aureliano Buendía regressou à povoação, a guerra civil tinha terminado. Talvez ao velho coronel nada restasse da áspera peregrinação. Restava lhe apenas o título militar e uma vaga inconsciência do seu desastre.”
Quanto aos outros 49 textos, há de tudo para mostrar a capacidade narrativa do escritor colombiano. Uma importante introdução de Jon Lee Anderson esclarece o propósito da maior parte dos artigos reunidos em “O Escândalo do Século”, reafirmando o prazer de García Márquez no jornalismo:
“Afora tudo isto, Gabo foi jornalista; o jornalismo foi de certa maneira o seu primeiro amor e, como todos os primeiros amores, o mais duradouro. Esta profissão proporcionou lhe o primeiro sustento como escritor, coisa que ele recordou sempre; a sua admiração pelo jornalismo chegou ao ponto de proclamar em certa ocasião, com a sua generosidade característica, que era “o melhor ofício do mundo”.
Na introdução do editor, encontram-se também testemunhos desse amor: “Sou um jornalista, fundamentalmente. Toda a vida fui jornalista. Os meus livros são livros de jornalista, embora se veja pouco”. Explica Cristóbal Pera que a selecção de cinquenta textos de Gabriel García Márquez, publicados em jornais e revistas, entre 1950 e 1984, são “escolhidos entre a monumental Obra Periodística em cinco volumes compilados por Jacques Gilard e tem o propósito de levar aos leitores da sua ficção uma amostra do seu trabalho na imprensa e em revistas, fruto do ofício que sempre considerou a fundação da sua obra.”
Para Pera, os leitores da sua ficção “encontrarão em muitos destes textos uma voz reconhecível”, bem como a "formação dessa voz narrativa através do seu trabalho jornalístico”. Como afirma Gilard, refere o editor, “o jornalismo de García Márquez foi principalmente uma escola de estilo e constituiu a aprendizagem de uma retórica original”.
Não deixa de referir que “alguns dos seus primeiros contos” precedem as suas crónicas na imprensa, mas o jornalismo foi o ofício que permitiu a Gabriel García Márquez deixar os seus estudos de Direito, começar a escrever em El Universal de Cartagena e em El Heraldo de Barranquilla e viajar até à Europa como correspondente de “El Espectador de Bogotá”.
No seu regresso, e graças ao seu amigo e colega jornalista Plinio Apuleyo Mendoza, prosseguiu o seu trabalho jornalístico na Venezuela, em revistas como “Élite” ou “Momento”, até se instalar em Nova Iorque, como correspondente da agência cubana Prensa Latina.”
A partir daí abandona temporariamente o ofício para escrever “Cem Anos de Solidão” e o resto é história:

 

 

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