Gestão cultural e crescimento económico

Jomo Fortunato |
20 de Junho, 2016

Fotografia: Francisco Bernardo

Angola tem uma oportunidade singular de exportar e rentabilizar a sua cultura, nas suas mais diversas manifestações, definindo inteligentemente os produtos exportáveis na agenda dos certames internacionais,

contrariando a tendência perniciosa de alguns sectores de opinião internacional que persistem em considerar Angola um país adiado, cinzento e inóspito, quando relacionado com a actual queda da cifra do barril do petróleo.A perspectiva visionária do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, apontava os caminhos da gestão cultural no processo de reconstrução nacional, no seu discurso sobre o Estado da Nação, proferido na abertura da segunda sessão legislativa da terceira legislatura da Assembleia Nacional, em  Outubro de 2013, referindo à valorização do livro, da promoção da leitura, e da formação artística: “A nossa política cultural vai ser igualmente reajustada e revitalizada na sua execução para maior valorização do livro e  incentivos à leitura, para a realização de actividades culturais regulares nos municípios, províncias e a nível nacional, tanto no domínio do folclore e do artesanato como no das manifestações de cultura popular e erudita.
Precisamos nesta área de criar também com urgência os estabelecimentos de formação básica, média e superior para facilitar o acesso ao conhecimento científico e técnico dos cidadãos”.  Concluindo depois que, “Devemos promover também a projecção regional e internacional das nossas figuras de destaque no domínio cultural e o registo e reconhecimento internacional dos bens culturais materiais e imateriais que simbolizam a nossa identidade”.
A visão prospectiva do Presidente da República, apontava a necessidade imperiosa de multiplicar a presença da cultura angolana nos mercados e na agenda dos eventos internacionais, facto que pode melhorar a imagem de  Angola se alargarmos, em termos de representatividade, os sectores da cultura com qualidade que nos remetem para a revalorização do património, e das manifestações da contemporaneidade artística, a exemplo da Kizomba, no domínio da dança.

Discursos

Nos últimos anos têm-se multiplicado as abordagens sobre a cultura nos discursos do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, o que denota a dimensão visionária do Chefe de Estado, a preocupação sobre as manifestações culturais do seu povo, e a necessidade de aproximação da cultura à economia. Vejamos três momentos diacrónicos de diferentes alusões do Presidente à cultura, nos discursos do Presidente: “Virámos a página da guerra e da destruição, abrimos o capítulo da Paz, para reconstruir o que está partido, para construir coisas novas, para promover os valores morais e sociais positivos, para criar novos factos culturais, afirmar a identidade nacional e desenvolver a nossa cultura”, alertava o Presidente no discurso de fim do ano, em Dezembro de 2005, para afirmar depois que “É tendo em linha de conta todos estes aspectos que consideramos a questão da Cultura como uma variável estratégica de grande importância, com efeitos imediatos na coesão interna da nossa sociedade, bem como na nossa marcha em direcção aos objectivos globais que nos propomos atingir, tais como construir uma nação unida, desenvolvida e próspera com uma cultura fluorescente e um Estado de Direito, Democrático e Social” fez lembrar o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, no dia 11 de Setembro de 2006, por ocasião do discurso de abertura do III Simpósio sobre Cultura Nacional. No entanto, entendemos que a adaptação dos pronunciamentos do Chefe de Estado, ao actual contexto de diversificação da economia, passa pela rentabilização da cultura, enquanto manifestação produtiva, centrada na valorização do património, incluindo os grupos de música tradicional, um segmento de largo consumo nos países ocidentais.

Marca

No mundo actual dos negócios, e mesmo do esforço dos Estados na optimização do relacionamento político e diplomático entre os países, a marca, entendida como instância cultural intermédia, entre quem oferece uma proposta e a entidade que a recebe, constitui um sinal, na acepção semiótica do termo, que pode influenciar, positivamente, o processo de circulação mercadológica dos produtos culturais e melhorar o prestígio de Angola no mundo das ideias criativas.
A magnitude simbólica da cultura nas suas mais diversas manifestações, literatura, música, artes plásticas, dança, artesanato, escultura, cinema e teatro, pode ajudar a compreender a personalidade cultural de Angola e melhorar a sua imagem, enquanto país em reconstrução, perante um mundo em constante mudança.
Entendemos que a angolanidade, na acepção  cultural do termo, não está circuncrita, nem pode ser representada pela efemeridade das paradas enebriantes do consumo acrítico. É imperioso divulgar a generalidade da produção cultural angolana no mundo, sobretudo aquela que, tendo qualidade, está, normalmente, fora dos interesses sencionalistas de determinados sectores da comunicação social, e do sucesso imediato.
Um dos objectivos, dentre outros não menores, da necessidade de associação da marca cultural angolana no sistema mercadológico mundial, é divulgar e prestigiar o nome de Angola, enquanto marca, atitude que pode ser suportada pelo recurso a uma programação cultural ambiciosa, recheada e inovadora. Daí que seja necessário definir e dar a conhecer os limites diferenciais da cultura angolana, o que implica um conhecimento exacto da peculiaridade das propostas artísticas. As marcas culturais identificam, substituem o que representam.
No seu sentido lato a nacionalidade e o indivíduo, inseridos num sócio-sistema concreto, definem uma marca cultural que, aliada às conquistas da “Angola nova”, anunciada pelo Chefe de Estado, darão, de certeza, um cunho  identitário à promoção da marca cultural angolana.
Pensamos que os formadores de opinião devem se juntar às marcas culturais, e a identidade individual ficará ao serviço da identidade colectiva, constituindo, verdadeiramente, “um só povo e uma só nação”, em defesa dos interesses de Angola.

Economia criativa

É necessário empreender um esforço, redobrado, para que Angola seja conhecida, não só pelo passado do conflito bélico e pela actual crise financeira, mas pela sua cultura. Sabe-se que a crescente circulação dos produtos culturais no mundo, acelerada pela dinâmica do advento das modernas tecnologias,  gerou o conceito de “economia criativa”.
Actualmente as organizações e os países desenvolvidos têm desenvolvido diferentes amplitudes na abordagem do tema.
No contexto angolano, entendemos que a noção de “economia criativa”, deve incluir a gestão dos produtos e serviços relacionados com a capacidade intelectual e as representações da cultura endógena, num diálogo directo com os desígnios políticos e económicos de Angola, enquanto Estado e Nação independente, com  ideias próprias.
Os programas culturais de exportação devem estar focalizados na investigação, criatividade, imaginação e inovação, e não se restringir aos produtos que sustentam desígnios estritamente comerciais.
Toda a acção cultural de um programa definido com objectivos, deve estar assente no património e no carácter identitário da cultura imaterial angolana.
 Daí que a aplicação, pragmática, do conceito de “economia criativa” se nos afigura um requisito fundamental para se sair do lugar-comum da competição predatória, que consiste em incluir no mercado, produtos e serviços em que se ausentam dos factores identitários, culturalmente significativos, e os padrões de qualidade aceites internacionalmente.

Identidade

 Preferimos abordar a questão da identidade cultural, não numa perspectiva monolítica e linear, mas relacionando-a com a sua dimensão multifacetada, ou seja, em articulação com a identidade do outro.  É assim que optamos pela noção de identidades plurais, pelo dinamismo e distensão intrínsecas ao conceito, relevando aqueles aspectos culturais que todos os angolanos partilham e, com os quais, se identificam.
A cultura angolana, entendida como um sistema de representações das relações entre os indivíduos e os grupos, envolve a partilha de inúmeros factores tais como o património comum, as línguas nacionais, a religião, as artes, o trabalho, os momentos de convívio e entretenimento, e, obviamente, o desporto, num processo dinâmico, de construção continuada, alimentada pela absorção de várias culturas, ao longo de uma intemporalidade indefinida.

Globalização

Hodiernamente, consequência do processo de globalização, as identidades culturais não apresentam, muitas vezes, contornos nítidos e estão inseridas numa dinâmica fluida e móvel.
É desta fluidez e mobilidade que devem assentar os factores de concorrência na criação das marcas culturais angolanas, perante a presença, que pretendemos disciplinada e regulamentada, das marcas estrangeiras, sem cairmos na  xenofobia, comportamento que pode dar azo a  consequências incómodas, em relação à imagem de Angola no mundo.
Diríamos que estamos perante um desafio cujo desfecho depende do rumo que quisermos proporcionar à imagem de Angola, apelando sempre à simbologia da representatividade das artes e da cultura, configuradas nos seus contornos nacionais, enaltecendo sempre Angola, no seu diálogo com o mundo.

Optimismo

Vejamos, a terminar, a visão optimista do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, na mensagem à nação por ocasião das comemorações do 40º aniversário da independência nacional: “A defesa dos interesses de África é uma prioridade absoluta da nossa diplomacia. Continuamos a desenvolver como no passado uma diplomacia activa e construtiva, tanto no plano bilateral como no multilateral, para fortalecer a amizade e a cooperação e estabelecer parcerias vantajosas para as partes envolvidas. A roda da História gira para frente e revela as novas facetas, vitórias e sucessos dos que ousam ser perseverantes e determinados. Angola tem condições para continuar a evoluir e ser sempre uma estrela nos céus de África. Honremos sempre a nossa História. Viva Angola!”

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