Cultura

Grupos folclóricos nacionais fazem “travessia no deserto”

Manuel Albano

Os grupos tradicionais de música e dança no país esperavam uma maior valorização dos estilos de raiz e a própria preservação da matriz cultural, após a conquista da Independência Nacional, da opressão colonial, o que não acontece na dinâmica pretendida passados mais de quatro décadas.

Idimakaji tem procurado valorizar a tradição de algumas regiões do país nos poucos espectáculos para os quais são convidados
Fotografia: Edições Novembro| Arquivo

Para grupos tradicionais como Kamba dya Muenho, Kilandukilu, Idimakaji e Semba Muxima continua-se a fazer muito pouco para a preservação do folclórico, uma realidade que está a “resistir no tempo”. Procurar formas de conseguir ultrapassar barreiras, tem sido como a “travessia no deserto”. “Manter um projecto cultural e artístico, não tem sido tarefa fácil para ninguém, sobretudo, para os grupos tradicionais que pouco valorizados pelo Estado e mais no estrangeiro”, lamentou o líder do grupo Kamba dya Muenho, Lutuima Sebastião.

O artista fez um enquadramento histórico antes e após independência, concluindo que “muito pouco mudou no resgate e valorização do folclore no país”.
Um dos lemas do grupo, ao longo das duas décadas de existência, tem sido “lutar para derrubar as barreiras que possam fazer desaparecer a matriz cultural de raiz”. Para isso, o grupo vai continuar a manter uma identidade original a nível dos instrumentos tradicionais e da pesquisa do próprio folclórico, afirmou, o também vocalista e tocador da puita e hungo.

A frontalidade, afirmou, muitas das vezes tem criado constrangimentos, quando defende “a ferro e fogo” a importância de uma maior valorização dos ritmos e estilos tradicionais. “O Ministério da Cultura, Ambiente e Turismo e os órgãos de comunicação social, sobretudo as rádios e os canais televisivos têm feito muito pouco pela promoção e defesa dos estilos tradicionais”.

Esta situação, rebateu, em nada tem contribuído na divulgação das canções de cariz tradicionais. “ Quando lançamos discos fazemos questão de distribuir à imprensa, mas mesmo assim ainda ouvimos pouco os nossos trabalhos a serem divulgados nos media”.

Desafios e conquistas

Durante o período do confinamento, devido a Covid-19, os integrantes do Kamba dya Muenho têm ensaiado, três vezes por semana, para aperfeiçoar técnicas, como canto, execução de instrumentos musicais, entre os quais o hungo, dikanza, puita, mukindu e batuque. Originário do bairro Marçal, o grupo, que conquistou, em 2002, o Concurso Estrelas ao Palco, da Rádio Luanda Antena Comercial (LAC), tem feito um trabalho permanente de pesquisa do folclore das regiões de Luanda, Bengo e Malanje, procurando enaltecer ritmos como semba, kilapanga, massemba, rebita, kangoia, varina e kazukuta, estilos explorados no primeiro e único disco do grupo “Twabixila”, de 2012.

Fundado a 1 de Outubro de 2000, o grupo é composto por Lutuima Sebastião (hungo, puíta e voz), Martinho Fernando (dikanza), António Nunes (mukindo), Luís Gonçalves (tambor solo) e Manuel Sebastião (tambor baixo).

Pouca produção

O responsável do Semba Muxima, Francisco Franco “Chico”, disse que se tem dado pouca importância e visibilidade ao trabalho feito pelos grupos folclóricos nacionais. Ao longo de quase três décadas de existência do grupo, Chico disse que o folclore continua a ser o “suplente” das actividades artísticas e culturais no país. “Apenas na diáspora o trabalho dos grupos tradicionais tem tido maior referência”.

Actualmente, garantiu, não têm muito para fazer, devido a Covid-19, mas o grupo tem trabalhado algumas letras e mantido encontros periódicos, enquanto espera “silenciosamente” que haja a reabertura das actividades culturais. O grupo é constituído por Dodó (voz e bate-bate), Caú (voz, hungo e bate-bate), Bibas (dikanza e puíta), Man Nelson (voz e ngoma ), Vieira Campos “Lavi” (voz e dikanza), Anita, Belinha e Patrícia (coros).

Com o quartel-general montado no Bairro Popular, o grupo apresenta um reportório composto por ritmos musicais e danças, nos estilos semba, kangoia, njimba, mundango, varina e xinguilamento, muitos criados com base em pesquisas feitas em Malanje, Bengo, Huambo, Bié, Cuanza-Norte e Sul. Fundado a 10 de Abril de 1993, tem feito um calendário de actuação, em função dos principais sucessos do discos “Tia”, “Ua Giza”, “Kangoia” e “Tuxicanenu”, este último apresentado em 2012.

Tradições

A inexistência de políticas proteccionistas e fraca aposta nos grupos de música folclórica nacional é uma realidade que precisa de ser invertida o mais rápido possível. Essa preocupação, de acordo com Adão José “Fabião”, membro do grupo Idimakaji, deve ser primeiro do Estado angolano. O grupo realizou o último concerto em Fevereiro, na localidade de Zambela, Icolo e Bengo, para saudar o para saudar o 23º aniversário da fundação do colectivo.

O folclore em si, disse, pode e deve estar na lista de prioridades, por representar “as tradições e manifestações de um povo, expressas nas suas crenças, canções e costumes”. Fabião enalteceu, com satisfação, iniciativas, como a Trienal de Luanda, que enquanto durou, permitiram apresentar vários espectáculos semanais do género tradicional, que ajudaram a reactivar o folclore angolano.

Neste período, referiu, o grupo tem realizado algumas acções sociais nas comunidades. “Com os poucos recursos de contribuições dos integrantes do grupos e amigos temos mandado fazer algumas máscaras de protecção que tem sido distribuído às comunidades para ajudar a evitar a propagação do novo coronavírus”.

Autovalorização
A preocupação da valorização do folclore é unânime. Por outro lado, a questão da autovalorização da classe artística nacional pode ajudar a ter um desfecho diferente, defendeu o agente cultural e director artístico do Ballet Kilandukilu, Maneco Vieira Dias, que encorajou os criadores, em especial os dançarinos, a continuarem a apostarem na criação artística, neste momento em que o mundo vive em isolamento social, devido à Covid-19.
A situação deplorável e degradante que muitos fazedores de artes enfrentam para se manter no activo, segundo Maneco Vieira Dias, tem permitido que, por questões de sobrevivência, muitos artistas sejam “obrigados a aceitar receber alguns tostões”.
Essa condição, disse, em nada dignifica a classe, uma vez que os agentes culturais e empresários continuarão a olhar para os artistas como pedintes. Para o responsável, vivemos num mercado “selvagem, onde o mercantilismo é um elemento fundamental”. Nesta perspectiva, admitiu, a qualidade da produção artística, pouco importa para muitos, porque “não basta ser música ou dança folclórica, passa também pela regulamentação do próprio mercado”.
Os próprios artistas, defendeu, precisam de definir as regras como forma de se impor no mercado. O pouco que se fez diante do muito que se pretende realizar, infelizmente, para Maneco Vieira Dias, continua a ser uma “gota no oceano”.
O grupo Kilandukilu, criado a 15 de Março de 1984, explicou Maneco Vieira Dias, tem apostado num sistema de formação, por via de oficinas, para garantir a continuidade e a excelência em termos de qualidade do trabalho. “O Kilandukilu tem procurado se destacar dos demais grupos de dança do país, adequando-se a espectáculos dos mais variados estilos, usando a pesquisa, recolha e estudos das manifestações culturais dos povos para transmitir um legado positivos as novas gerações”.

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