Cultura

Guilherme Nascimento prepara livro

Mário Cohen

Depois de anos dedicado a música, o cantor Guilherme Nascimento "Juto" está a preparar o lançamento do seu primeiro livro de crónicas, onde vai constar o seu percurso artístico. O livro será um legado para as gerações vindouras.

Fotografia: DR

Hoje com 73 anos, o cantor disse ao Jornal de Angola que o livro vai incluir poemas e informações de como eram organizados os espectáculos nos anos '50, '60 e '70. O livro, contou, terá ainda dados sobre os cantores de relevo da época e como estes conviviam entre eles.
Como um dos poucos compositores e cantores sobreviventes da era colonial, o músico não se considera “fora de época”. O seu afastamento dos palcos, justifica, é, em parte, devido às escolhas dos promotores de espectáculos, "que actualmente preferem trabalhar com os jovens cantores". Essa atitude, continuou, não se vê só nos promotores, mas também nos concertos realizados pelos órgãos do Estado, “onde os músicos da minha época são pouco convidados”.
“É uma prova do pouco reconhecimento que temos, apesar de sermos em número reduzido. Espero que o reconhecimento do Ministério da Cultura não seja depois da pessoa morrer, tal como foi com o Zé do Pau e muitos outros”.

Toda uma vida


Com uma carreira que começou aos 13 anos, no programa radiofónico “Gente Nova”, da então Emissora Oficial de Angola, ao lado de nomes como Mário Gama, Tino Catela, Milita Raul da Ilha e João Arsénio, “Juto” começou a ter sucesso em 1967, aos 21 anos, quando venceu o festival de música do programa “Desconhecido ou Conhecido”.
Chegando a fazer manchetes nos jornais da época, o seu primeiro disco em vinil, “Mãe África - Mussulo Paraíso de Luanda”, foi gravado em 1970, com os Jovens do Prenda e editado pela Rebita. Nessa altura ganhou da mesma editora uma medalha de mérito, pela quantidade fãs.
Dois anos depois, o músico volta a estar na ribalta com a gravação do seu segundo disco, “Minha Terra é Luanda”, com os Kiezos. A partir desse momento começou a fazer digressões pelas províncias, acompanhado por vários agrupamentos.
Ainda nos anos '70 actuou em programas como o “Kutonoca”, com o África Ritmo, e no “Aguarela Angola”, com os Kiezos. Com o África Show realiza grandes espectáculos na LAASP, ex-Liga Nacional Africana, em Luanda; e nas cadeias da capital do país, actuando com o África Ritmo, cantando para os reclusos.
Na cidade do Lobito, em companhia de Sofia Rosa, dá um espectáculo com os “Bongos”, em 1971. Os convites, conta, não paravam de chegar e deu outros espectáculos no Namibe, em 1984, com a banda “Fenomenal”, e no Dondo, Cuanza Norte, em 1986, com os Dimba dya Ngola. O convite para cantar em Lisboa, Portugal, surgiu em 1985, onde dividiu o palco com nomes como Bonga e Waldemar Bastos, acompanhado pela banda Raízes.
O cantor fez também parte da colectânea “Memórias de Luanda”, que chegou ao mercado em 1980, com temas dos melhores músicos da capital do país na época, com destaque para Urbano de Castro, Os Kiezos, Elias dya Kimuezo e Chico Montenegro.

Talentos vários


Na infância, no Bairro do Alameda, com 12 anos, em 1958, Guilherme Nascimento aprendeu a tocar piano com um professor de nacionalidade alemã. Mas quando este voltou à sua terra natal, Guilherme Nascimento desistiu da música e optou por treinar atletismo, tornando-se num velocista. Anos depois passou a treinar para ser fundista. No clube do Eixo Viário teve como colegas Barceló de Carvalho “Bonga”, Mário Mulato, Nelito Soares e Zé Mingas.
Mas como a música era a sua paixão voltou a despertar o interesse por esta, mesmo na altura já a trabalhar como funcionário público. Depois de negociar com o empresário português José Luís Montez, que agendava os espectáculos na época, passou a actuar em sítios como o Beiral (centro de protecção de indivíduos da terceira idade), no programa Piô-Piô, da Rádio Nacional de Angola, e nos centros recreativos e sociais do São Paulo, Maxinde e Gajajeira.
Oriundo de uma família de músicos, em que se destacam nomes como Eduardo Nascimento, Carlos Nascimento e Luísa Nascimento, o cantor Guilherme Nascimento é membro da UNAC e também da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

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