Guitarrista angolano homenageado no Brasil

Jomo Fortunato |
25 de Abril, 2016

Fotografia: Kindala Manuel

Teddy Nsingui, guitarrista da Banda Movimento, foi homenageado pela Prefeitura de Niterói, pelo seu contributo ao desenvolvimento da Música Popular Angolana.

O instrumentista, um dos mais respeitados da actualidade, foi convidadoa participar nos “Encontros com África”,que decorreram de 13 a 16 de Abrilno Brasil, pela III Trienal de Luanda, projecto cultural, em curso, da Fundação Sindika Dokolo.
Pela sua importância e simbolismo, seleccionamos do texto integral da moção de homenagem, emitido pela Prefeitura de Niterói,um trecho que diz o seguinte: “Teddy é um grande músico de Angola e do mundo, e a sua música transforma as nossas vidas, e nossasalmas.  A nossa cidade tem o privilégio de receber a sua visita, através da parceria formada entre a Secretaria da Cultura, a Fundação de Artes de Niterói, e o Projecto“Ressonância magnética cultural”, Niterói, da Fundação Sindika Dokolo. Esta moção de aplausos é um pequeno gesto de agradecimento e reconhecimento para Teddy e todos os músicos angolanos que participaram neste projecto. Obrigado, Simão Nsingui, obrigado Angola, obrigado, África. Viva  a música.”
A cerimónia de homenagem,uma iniciativa do Vereador Bira Marques, decorreuno fim do concerto do cantor Gabriel Tchiema, realizado no Teatro Municipal de Niterói, no âmbito dos “Encontros”. Na ocasião, o consagrado baixista, Artur Maia, Secretário da Cultura de Niterói, realçou as qualidades musicais de Teddy Nsingui, tendo afirmado que “a homenagem é um reconhecimento da cidade de Niterói, e da Câmara Municipal de Vereadores”. Por sua vez, o instrumentista, que recebeu um diploma, agradeceu o gesto, tendo afirmado, lacónico e visivelmente emocionado, as seguintes palavras: “Tive que atravessar o oceano para ser homenageado. Agradeço, antes de mais, e fundamentalmente, a Fundação Sindika Dokolo, e obviamente, a Prefeitura de Niterói, muito obrigado”.

Retorno


No dealbar da proclamação da independência de Angola, muitos patriotas angolanos, emigrados no vizinho Congo Democrático, retornaram à pátria dando corpo ao “Período de retorno”, de 1974 a 1978, importante momento da Música Popular Angolana, assim designado pelo facto de terem sido apelidados de “retornados”, aqui a designação está despojada de qualquer conotação pejorativa, os angolanos oriundos do então Zaire.
Destacaram-se neste período os cantores e compositores: Matadidi Mário BwanaKitoko, o duo, Pepé Pepito e Nonó Manuela, Tabonta e Diana Simão Nsimba, entre outras figuras de relevo que mergulharam na canção política, de aplauso à independência de Angola. Tabonta, por exemplo, é o autor de “Wele Neto” (Neto desapareceu) a mais bela composição, em língua nacional kikongo, uma homenagem de forte pendor lírico, ao Presidente Agostinho Neto. Nesta canção, um clássico deste período, o cantor lamenta, de forma profundamente poética, o vazio deixado pelo trágico desaparecimento, inesperado, do primeiro Presidente de Angola.   

Percurso

Filho de Simão Nsingui e de Teresa Nzima, TeddySimão Nsingui, conhecido nos meios musicais por “Teddy”, nasceu no dia 26 de Abril de 1954, no Município de Maquela do Zombo. Por força do conflito armado em Angola, emigrou para a vizinha República Democrática do Congo, e em 1966, aos 12 anos,Teddyconheceu o guitarrista, DallyKimoko, um dos pioneiros da Música Popular Congolesa, que o ensinou os primeiros acordes de guitarra, contacto que diz ter sido “oportuno” mas de uma “experiência frustrante”.
TeddyNsingui, um virtuoso guitarrista, dos mais solicitados no escasso mercado de instrumentistas angolanos, vem de uma família sem nenhuma ligação com a música. A tia, irmã do pai, de nome Kama Katita, destruía, de forma resoluta e intencional, as guitarras que o futuro músico levava, carinhosamente, para casa.
Embora se tenha revelado umguitarrista de fino tacto musical, foi no canto que TeddyNsingui teve os primeiros contactos com a música. Fanático apreciador deTabuleyRochereau, Teddy começou a cantar, com apenas nove anos de idade, no coral da sua escola primária.Em 1972, ajudou a formar os “Les Bebés”, seu primeiro grupo, formação que chegou a gravar dois singles pela editora “Rono”.
Perseguindo a intenção irreversível de ser músico, aliado ao objectivo de refinar a sua musicalidade, Teddy aprendeu harmonia com Eric, um músico que, segundo as suas palavras: “foi quem me introduziu nos segredos da música, e abriu o meu mundo restrito, a nível do entendimento da plástica e da sonoridade musical”.
No entanto, foi com o baixista Garcia Luzolo, conhecido por Mog, integrante da já referida banda SOSOLISO de Matadidi, que Teddy passou a ser reconhecido como músico, numa altura em que foi convidado para um “Nzonzing”, gíria musical sinónimo de biscato, para uma gravação com o saxofonista e arranjador, Mbole Tambwe, ex-SOSOLISO, e Michel Boy banda, vocal e ex-TP OK JAZZ, intérprete do clássico “Café”. Neste “Nzonzing” chegou a gravar com o cantor Franck Sole. “Eu era um imaturo entre os gigantes”, recordou Teddy. De 1972 a 1974, Teddy  Nsingui integrou, com Mbole Tambwe, o grupo “Sakayonça”, dando forma e solidez a uma carreira que passou pelos “Kintueni”, grupo voltado à tradição musical da região do Mayombe. É assim que, em 1976, surgiu o baixista Mog, com um recado do Matadidi Mário Bwana Kitoko, para seleccionar músicos, visando a formação do “Inter-Palanca”, em Angola.
Depois de 15 anos de ausência, Teddy regressou a sua terra natal no dia 30 de Setembro de 1976. Em Luanda concretiza-se a criação, com Matadidi Mário Bwana Kitoko, do projecto “Inter-Palanca”, cuja estreia ocorreu no Estádio da Cidadela Desportiva, em Novembro de 1976, durante as comemorações do primeiro aniversário da independência de Angola.
Em finais de 1979, por razões estritamente pessoais, Teddy abandonou o conjunto, Inter-Palanca e não participou nas gravações das canções: “Um minuto de silêncio”, “Agostinho Neto”, de Matadidi,  e “WelleNeto”, de Tabonta. No entanto, Teddy retornou ao “Inter-Palanca”, em 1980, porque, segundo Matadidi, “era um músico que me dava segurança”. Depois do “Inter-Palanca”, Teddy  ajudou a fundar, em 1981  o “Instrumental Primeiro de Maio”, conjunto musical ligado à UNTA, União Nacional dos Trabalhadores Angolanos, que se chamou posteriormente “Semba África”.
Fizeram parte do Instrumental 1º de Maio: Massano Júnior, tambores e voz, Franco,  flauta, Botto Trindade, guitarra solo, Dinho, baterista, Betinho Feijó, guitarra ritmo, e Carlos Venâncio, guitarra ritmo, formação que se desfez, na sequência do redimensionamento salarial da UNTA, sindicato a que estava vinculado o Instrumental 1º de Maio.  Para além dos guitarristas consagrados da Música Popular Congolesa, e  da sonoridade dos mais conhecidos guitarristas angolanos, Teddy diz ter sido influenciado por B.B. King, Carlos Santana, e George Benson.

Banda

Embora tenha tido participações em vários projectos musicais, Teddy Nsingui é o actual guitarrista solo da Banda Movimento, formação musical ligada à Rádio Nacional de Angola, fundada no dia 2 de Março de 1999, sob influência do Movimento Nacional Espontâneo. A Banda lançou, em 2001, o CD “Espontaneidades”, com as canções: “Ngulungo”, interpretada por, Day Doy, “A Vida”, Dom Caetano, “Ngana António”, Lulas da Paixão, “Maruvu”, Dom Caetano e Kintino, “Pelenguenha”, Massoxi, “A Razão do Semba”, Dom Caetano, Tá estalar”, Kintino, “Adeus à hora da partida”, Dom Caetano, “Zange boba”, Lulas da Paixão, e  “Kibuikila”, de Bangão. Em Dezembro de 2003, a banda introduziu no mercado o segundo CD, “Kufungisa”, que significa mistura, com participação de: Beto de Almeida, Day Doy, Gabriel Tchiema, Lulas da Paixão, Lurdes Van-dúnem e Bangão. Da banda Movimento fazem parte, actualmente: Teddy Nsingui, guitarra solo, Diogo Sebastião, Kintino, guitarra ritmo, Mias Galheta, baixo, Chico Madne e Nino Groba, teclas, Romão Teixeira, bateria, Correia Miguel, percussão, Massoxi, percussão ligeira e voz, e Betty, Dorgan Nogueira, conhecida por Gigi, coros, e  Mister Quim, na voz principal.

Depoimento

O guitarrista Belmiro Carlos, Secretário-geral da UNAC, União Nacional dos Artistas e Compositores e amigo de Teddy Nsingui, fez o seguinte depoimento laudatório: “Conheci e vi, em exibição, pela primeira vez o Teddy Nsingui, na Cidadela Desportiva de Luanda, em1976, ocasião da actuação do Matadidi Mário Bwana Kitoko, no seu concerto de estreia em Luanda, na primeira parte do espectáculo do legendário Agrupamento Kissanguela, do qual fiz parte. Nessa altura, fiquei particularmente maravilhado com o desempenho da guitarra solo do Tedy. Foi espantoso! Nunca na minha vida tinha visto, ao vivo, um jovem guitarrista africano tão virtuoso.

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