Cultura

Hélder Mendes na vanguarda do Afro-Beat-Pop

Jomo Fortunato |

Embora pertença a uma geração cada vez mais globalizada, caracterizada pela vulgaridade das novas tecnologias da esfera comunicacional, Hélder Mendes, cantor e compositor, aposta nos ritmos nacionais e reutiliza na sua música, a expressividade proverbial e os contos da tradição oral, tendo caracterizado a sua música, nos seguintes termos:

Hélder Mendes começou a enfrentar momentos difíceis no início da sua carreira pela dificuldade de afirmação e divulgação da sua música nas rádios
Fotografia: Edições Novembro

“A minha arte e a sua teatralidade, que inclui segmentos de rock,é o resultado do que escutei e vivenciei na minha infância, muito agitada, mas bonita… e das minhas boas lembranças. São canções de louvor que ouvia da voz da minha mãe enquanto engomava a roupa, incluindo as suas exclamações e interjeições do tipo,  ''sukuama yá thema'', ai está quente, e dos cânticos da catequese. O que faço resulta também das canções dos óbitos que ouvia e que hoje ainda ecoam na minha memória. Acredito que a minha arte é o legado que herdei dos meus antepassados que,  segundo a minha avó, mãe da minha mãe, também tinham veia artística. Então… sou o escolhido por eles, toda esta representação é a vontade de expressar por gestos, tudo o que sinto e não chego a dizer por palavras. Sou de uma família que usa muito os gestos do corpo, para expressar os seus sentimentos”.
Descendente de uma família de músicos, o seu avô materno foi cantor e compositor da Igreja Protestante, as suas tias avôs pertenciam ao grupo coral da mesma igreja, e a sua mãe sempre gostou de cantar em casa, Hélder Mendes foi demonstrando propensão para a música, com apenas seis anos de idade.Neste ambiente musical, uma dasprimas da sua mãe ensinou-lhe uma canção congolesa, em lingala, e com ela recebeu em troca  “galetes”, bolos de origem belga.
Hélder Mendes tinha então seis anos de idade, e o canto ocupava um lugar de entretenimento, mas com o tempo, foi descobrindo que a música seria a sua verdadeira profissão.
Em 1993, com a tensão militar que se vivia no país, HélderMendes partiu do Cuanza-Norte para Luanda com a família, contudo não afastou o desejo de se tornar artista, altura em que começou a compor as suas próprias músicas. Em 1998, conheceu os irmãos Nho e Nhunha, cantores e produtores,tios de Alves René, seu colega de escola, que tinham montado um pequeno estúdio de gravação na Escola Ngola Kanini, em Luanda, com os quais gravou, de forma incipiente, as suas primeiras canções, em estilos variados. Foi nesta época que Hélder Mendes começou a enfrentar momentos difíceis no início da sua carreira, pela dificuldade de afirmação e divulgação da sua música nas rádios, que, alegavam, possuía fraca qualidade sonora e deficiente expressão linguística.
Filho de Domingos Pedro Mendes e de Domingas Miguel André, Hélder de Jesus André Mendes nasceu no dia 13 de Dezembro, nos anos oitenta, recusa revelar a sua idade, nós respeitamos, na pequena aldeia de Caxissa, província do Cuanza-Norte, arredores de Cambambe.

Solidariedade e internacionalização

Em 2003, convidado pela Madre Catarina de Sousa,  Hélder Mendes trabalhou como voluntário para o Centro Social “Mama Muxima”, instituição de acolhimento de crianças desfavorecidas, onde conheceu Pablo de Vicente y Colomina, Chefe da delegação de missionários espanhóis, que o convidou a viajar a Espanha, onde conheceu vários músicos, dos quais Pablo Mora,  chefe e produtor da banda madrilena, “Lagarto Amarilo”, que em poucos meses produziu o seu primeiro EP “África Okwaba”, patrocinado pelo Padre Pablo de Vicente y Colomina. Em 2006, ainda em Espanha, fez vários concertos a convite de amigos, no Instituto Juan Pablo, Madrid, Instituto de Badajoz, na Cruz Vermelha, Madrid, e na ONG “Berit”, cidade de Ávila. No entanto, o seu grande concerto fora de Angola, aconteceu no Centro Cultural “La Torre” em Guadarrama,município de Madrid, onde, incentivado pelas suas professoras de língua espanhola, foi acompanhado por quatro músicos espanhóis. “Com este concerto começou, verdadeiramente,  a minha carreira como cantor, ocorrência que serviu para apresentar o meu primeiro EP “África okwaba”, agradecer e despedir-se de todas as pessoas que me haviam acolhido em Espanha.

Discografia

Hélder Mendes lançou o seu primeiro EP, “África Okwaba”, África bela,  em 2006,  gravado na Espanha, com apenas quatro faixas musicais, “O Henda y ngala na yo”, “Angikita”, “O nosso amor”, África okwaba”. No CD “Vumbi”, espíritos,  2010, as canções falam dos rituais de maternidade, punições aos transgressores das normas nas comunidades rurais, complexos e tabus culturais, e o disco inclui os temas “Matsanga Mami”,  “Longeso”, “Kimboliange”, “Dikumbi”, “Lua”, “Maliji”, “Phala Ku Sanguluka”, “Thangu Zin Kaka”, “Quando o amor te eleger”, “Nzambi Ya Menya”. O  CD “Elefante”, 2017, com as faixas, “Mbirimbiri, versão rock, “Deus da dança”, “Ókithadi”, “O Carnaval”, “Kinsoladi ya nvitha”, “A noite”, “Porquê”, “Luz”, “A verdade”, “Volta”, “Xalenu kyambote” e “Gente fina”, bonustruck “A capela elefante”está  cantado em kikongo e umbundu, foi produzido e gravado em Madrid pelo produtor Eduardo Molina, e aborda o tema da homossexualidade, quebrando de forma humana, rótulos e preconceitos.

  Regresso retumbante e principais digressões de Hélder Mendes

Hélder Mendes retornou ao país em 2006, e fez a sua estreia no Cine Teatro Nacional, em Luanda, com um concerto de apresentação do EP “África okwaba”, muito bem recebido pela crítica, com apoio e realização da “Alliance Française”.  Com parcos recursos financeiros para gravar o segundo CD, voltou a Espanha, em 2009, apoiado, mais uma vez,  pelo seu amigo Pablo de Vicente y Colomina, e gravou “Vumbi”, espíritos, em  Sevilla, produzido por Kike Gamero. Na sua segunda viagem , fez um concerto em Bruxelas,  onde conheceu o guitarrista, Paul Buttin,  à época  estudante de guitarra flamenga, em Sevilla. Paul Buttin convidou Hélder Mendes, e juntos viajaram a Paris, onde criaram o duo “La Alameda”, com um reportório criado em dueto, e  realizam um concerto bastante aplaudido, no Centro Cultural de “La Jeunesse” Jean Michel, diante de um público composto maioritariamente por adolescentes. Rapidamente surgiu-lhes outros convites um dos quais no Centro Prisional de Paris. Com Paul Buttin voltou a Sevilla, para outras apresentações. Foi um dos convidados do Projecto Bahia dos Sons, em 2010, com o concerto “Espíritos que regressam”, acompanhado por Celso Brunhoso, guitarra, Celson Costa, baixo, Jó Pinto, bateria e Nana na percussão. Diz ser influenciado por Baaba Maal, Youssou N'dor, Angelique Kidjo, e Salif Keita. Em 2013, realizou uma digressão em Cap Town, Pretória, Maseru, Lesotho, Windhoek,  acompanhado pela banda “Boulevard Internacional”, tendo revisitado os álbuns “África okwaba” e “Vumbi”, com destaque para interpretação dos  temas, “Umgombothi”, de Ivone Chaka Chaka, “Kimbemba”, Tela Lando e “Mbiri Mbiri” do conjunto, “Ngola Ritmos”.

 

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