Cultura

Herdeiro legítimo da percussão e estética da massemba

Jomo Fortunato

Tello Morgado  herdou as técnicas de execução da percussão do seu tio, o emblemático Joãozinho Morgado, e este, por sua vez, absorveu os ensinamentos do seu pai, o lendário, Mestre Geraldo Lourenço Morgado, acordeonista, dinamizador cultural, coreógrafo e célebre compositor da Massemba e vários grupos de carnaval luandenses, dos quais destacamos os “Feijoeiros do Ngola Kimbanda”, “Novatos da Ilha de Luanda”e “União Mundo da Ilha”.

Durante a sua carreira o percussionista Tello Morgado entrou no meio artístico londrino inserido no movimento “Acid Jazz”
Fotografia: DR

Percussionista de raro talento, Tello Morgado descreveu do seguinte modo, o desdobramento da sua portentosa e prestigiada genealogia musical: “A tradição musical é uma herança que se desdobra em três gerações da minha família, que vai do meu bisavô, João diá Nguma, que tocava tambores, estende-se à minha avó, Antónia João Martins, Antonica diá Geraldo, que tocava, igualmente, tambores nas manifestações lúdicas e sessões de “xinguilamento” e, por último, o não menos célebre, Joãozinho Morgado”.
Filho de José Secundino Lopes Alves, conhecido por Zeca Secundino, e de Isabel Lourenço Morgado Alves,  vulgo Santa, Adalberto de Jesus Morgado Alves, Tello Morgado, nasceu em Luanda, Bairro Operário, na residência do seu avô, Mestre Geraldo Lourenço Morgado, onde viviam os seus tios Joãozinho Morgado e Manuel Lourenço Morgado, vulgarmente conhecido por Buene Buene, que também tocava “dikanza”e fazia parte do grupo de Massemba “Feijoeiros do Ngola Kimbanda”, do Mestre Geraldo, localizado na emblemática Travessa da Missão, São Paulo, nº 110.
Tello Morgado afirmou, de forma resoluta, que “a maior inspiração e influência para me tornar percussionista veio do meu tio, Joãozinho Morgado, conhecido como “o rei dos tambores” e foi o meu primeiro professor em ambientes de festas, onde tocava sobre mesas de madeira, panelas, garrafas, garfos e facas. De notar que, Joãozinho Morgado, inspirou-se também na sua mãe, Antónia João Martins, que era lídere percussionista das manifestações culturais de carácter lúdico, ou seja, faço parte de uma genealogia de percussionistas, que exerceu uma forte influência na minha personalidade cultural e musical”. No entanto, Tello Morgado diz ter influências da arte de Paulinho da Costa, Pat Metheny Group, Naná Vasconcelos, Mongo Santa Maria, Filipe Mukenka, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal.

Brasil
Com 17 anos de idade, Tello Morgado deslocou-se ao Brasil, em 1986, e ficou hospedado na casa do cantor e  compositor brasileiro,  Martinho da Vila. Nesta época  começou a frequentar a Escola de Samba Villa Isabel, Rio de Janeiro, onde Martinho da Vila foi Director Musical, tendo assistido ensaios frequentes e oficinas de percussão de samba para preparação do carnaval. De volta ao Brasil, em 1989, Tello Morgado permaneceu, novamente,  em casa de Martinho da Vila, e, aos 21 anos de idade, meses antes do início do Carnaval do Rio de Janeiro, fez parte dos ensaios e oficinais do carnaval daquele ano, ficando até ao final do carnaval,  período que, considerou,  “uma  oportunidade e experiência únicas”.

Londres
Tello Morgado viajou depois para Londres, em 1991, onde começou a sua carreira profissional e ao mesmo tempo começou a estudar percussão com o professor percussionista brasileiro, Bosco de Oliveira, no melhor instituto privado daquela época de Bateria e Percussão na “Acton Drum TeQ Institute”, escola de música contemporânea que treina estudantes para a indústria da música nas seguintes disciplinas: bateria, voz, guitarra, baixo, música, produção.
Tello Morgado passou depois pelo College King´s Way, em 1995, durante dois anos, onde estudou música popular, tendo frequentado catorze disciplinas de música, desde “Tecnologia da música”,  “Engenharia de som” a “Music business”, onde obteve um diploma de equivalência de um curso superior técnico. Logo depois, pela qualidade do seu trabalho, Tello Morgado entrou no meio artístico londrino, inserido no movimento “Acid Jazz”, com os músicos da banda do Jamiroquai, “Brand New Havies” e Joceline Brown, que foi considerada rainha da soul em Inglaterra.

Participações
Durante a sua carreira, Tello Morgado participou em prestigiados festivais no mundo e acompanhou vários artistas dos quais destacamos Zara Mcforlane, vencedora do “Prémio Mobo Wards” de melhor vocalista de jazz, 2014-2015, Alfred Bannerman, guitarrista dos “Osibiza”, Ray Gaskins, da Banda de Roy Ayers, Simon Bartholomew, guitarrista da banda, New Heavies, Nick Van Gelder, da banda Jamiroquai, Kad Achouri, pianista e compositor francês radicado em Londres, Ahmed Ghannoun, cantor e compositor do Dubai , Eve Mendez, cantora brasileira, Lee John, vocalista e compositor dos “Imagination”, Coco Mbassi, vocalista do saxofonista, Manu Dibango, Derito Tavares, Angola, entre outros.  Tello Morgado acompanhou ainda artistas renomados do universo da língua portuguesa, tais como Lena D´Água, Portugal, Tony Dudu, Guiné Bissau e Tito Paris de Cabo Verde.
Em 2015, Tello Morgado  organizou, através da “Royal Batuke”, os festejos da celebração do quadragésimo aniversário da Independência de Angola, que coincidiu com “London Jazz Festival”, evento em que participaram o “Projecto Kutonoka”, do pianista João Oliveira, Paulo Flores, percussionista Galiano Neto e Banda Parakuka, festejos que tiveram o apoio da Embaixada de Angola na Inglaterra.

Joãozinho Morgado na história da percussão angolana

A mística e o simbolismo dos tambores, também designados “bumbos”, entraram na história da Música Popular Angolana pelas mãos hábeis de  Xodó e  Amadeu Amorim, Ngola Ritmos, Julinho, Águias-Reais, os lendários Petengué e Mangololo, Ngoma Jazz, Massano Júnior, África Show, Vieira João, Bongos de Benguela, Candinho, Kissanguela, Kangongo, Jovens do Prenda, e do histórico, Joãozinho Morgado,  dos “Negoleiros do Ritmo” e “Merengues”. Incluímos na nossa classificação a versão mais reduzida do tambor, a tradicional “caixa”, instrumento de madeira e pele percutida, de importância fundamental na execução e estruturação rítmica do semba. Ímpar no seu estilo, João Lourenço Morgado nasceu em Luanda, no Bairro Operário, no dia 7 de Fevereiro de 1947 e começou a marcar, com apenas dez anos de idade, o compasso rítmico das tumbas. 
Em 1957, seguia a Turma do Santo Rosa, as turmas eram versões reduzidas dos grandes grupos de carnaval,  e  o   tamborista Lúpi Lumbi Yaya, palmilhando as ruas do Bairro Operário nos períodos de festa e de eufórica movimentação de carnaval. Com  catorze anos, Joãozinho Morgado ajudou a fundar uma pequena formação musical de bairro com Carlos Giovetti, chocalho, Franco, bate-bate, Domingos Infeliz, reco-reco, João da Sparta, caixa, embrião que viria a dar depois na fundação dos “Negoleiros do Ritmo”, já com Dionísio Rocha, na condição de principal vocalista e compositor.
Joãozinho Morgado foi  homenageado no dia 20 de Julho de 2007, em cerimónia realizada no Centro Recreativo e Cultural Kilamba, pelo “contributo dado ao desenvolvimento da música angolana”,  ao longo dos quarenta e nove anos de carreira, numa iniciativa da Brás Som, do empresário angolano Ilídio Brás.

Tempo

Multimédia