Cultura

Homem de cultura e fundador da primeira escola de semba

Jomo Fortunato

Os valores culturais, intrínsecos à identidade de um povo, degeneram-se com o tempo e a memória humana, na ausência de fontes documentais fixadas pela escrita, acaba por ser um valioso recurso que anula o natural esquecimento, restaura a história e particulariza a transcendência dos factos culturais.

José Oliveira de Fontes Pereira foi um exímio tocador de dikanza e autor de vários clássicos
Fotografia: DR

José Oliveira de Fontes Pereira foi, igualmente, bailarino, artífice, coreógrafo, figura emblemática do Grupo Teatral Ngongo, fundou a primeira Escola de Semba (1958-1960) e preservou a memória de importantes momentos da história da cultura angolana, com um rico espólio documental. Malé Malamba, como é conhecido pelos mais próximos, contava apenas cinco anos de idade quando herdou de um inseparável amigo do seu pai a afeição, intuitiva, pelos instrumentos musicais angolanos, particularmente, a dikanza.

Homem de uma verticalidade cultural ímpar, José Oliveira de Fontes Pereira recordou, de forma visivelmente emocionada, os últimos momentos da morte do seu pai, “Estava em casa com a minha mãe, quando descobri que o meu pai dava, no seu quarto, os últimos suspiros da sua vida. Alertei à minha mãe, e esta, acto contínuo, comunicou à vizinhança do bairro.

Num instante mágico, Luanda inteira estava informada. Morreu José Abel, Muene ó Dikota, mu Elite! Com uma prodigiosa memória, José Oliveira de Fontes Pereira recordou a data e a hora exacta da morte do seu pai, “O meu pai morreu numa tarde solarenta do dia 29 de Janeiro de 1951, às 15h00”. José de Fontes Pereira (Abel, Muene ó Dikota), pai de Malé Malamba, foi tocador de concertina, e fundou o “Elite União Clube” (1919-1951), um notável grupo de “Massemba” do Bairro Vila Clotilde, em Luanda, formação que incluía o não menos famoso instrumentista Joaquim Carolas (dikanza).

José Oliveira de Fontes Pereira integrou, em 1954, como dançarino de Massemba, o CAMA, Conjunto Artístico de Melodias Angolanas, do Carvalho Simões, um conhecido artista da época, onde teve uma passagem efémera. Filho de José de Fontes Pereira e de Maria Martins Dias dos Santos, Mutúri Marica, José Oliveira de Fontes Pereira, Malé Malamba, nasceu em Luanda, no dia 19 de Junho de 1939 e morreu, vítima de doença, no dia 22 de Junho de 2014.

Dinastia

José Oliveira de Fontes Pereira descende de uma importante “dinastia” de músicos, homens de cultura, e autores de clássicos da Música Popular Angolana. Autor da canção “Nzagi”, Euclides Fontes Pereira, seu irmão, foi compositor, cantor e executante de dikanza do conjunto Ngola Ritmos. Luís de Fontes Pereira e António de Fontes Pereira, seus tios, e irmãos do pai, são autores das canções “Ó massangungimadiami” e “DiáNgó”, respectivamente, a última das quais transcrevemos os versos: Diángoéh/ ku buri se kima/ Diángo é/ ku buri se kima/ Diángo é/ ku buri se kima/ se u burisa/ pata geku muxima/ Ó kitadi/ diángitulamié/ Ó kitadi/ diángitulamié/ ué ngana/ kiálunaóh muxima/ kanukakitange (é) / ué ngana/ ngozokutungaonzo/ Se uejidilékuenda/ Ngozokutungaonzo/ Se uejidilékuenda, mamã/ Ngozokutungaonzo.


Baptismo

Embora os pais de José Oliveira de Fontes Pereira tivessem optado, por acréscimo, pelo nome José, a Oliveiro de Fontes Pereira, o irmão mais velho, Euclides de Fontes Pereira (Fontinhas), por lapso de audição, terá entendido Oliveira. Há um outro argumento à volta da substituição de Oliveiro por Oliveira. O primeiro nome não fazia parte da onomástica portuguesa, em vigor na época colonial.


Exibição

José Oliveira de Fontes Pereira viu o pai em exibição, pela primeira e última vez, numa cerimónia, em 1950, na casa de Joaquim Filipe Amado, no Bairro Indígena, e narrou o ambiente dos momentos que viveu, “O meu pai colocava-se num dos cantos da sala, empunhando a concertina, com o tocador de dikanza ao seu lado. A sala era iluminada ao centro, por um petromax e o alinhamento coreográfico, formado, em pares, por vários cavalheiros e respectivas damas, seguia o perímetro das quatro paredes. O mestre-sala entrava ao centro, fazia requebros e vénias, e as palmas soavam em uníssono, completando a umbigada (Massemba) dos pares, ao ritmo frenético da concertina e do coro dos dançarinos”, recordou, nostálgico e emocionado, José Oliveira de Fontes Pereira. À época os mestres-salas mais conhecidos eram os dançarinos, Victoriano Barros e o Mestre Horácio, também conhecido por Silva. Havia também mulheres na condição de mestres-salas, Nazaré Araújo e a mãe de José Oliveira Fontes Pereira, já referida, eram as mais famosas da época.

Construção

Os antigos instrumentistas, salvo raras excepções, eram os construtores dos seus próprios instrumentos. Tanto é assim que aos dezassete anos de idade, José Oliveira de Fontes Pereira, eivado pela curiosidade e assunção de uma personalidade cultural angolana, construiu no Bairro Marçal a sua primeira dikanza. Como se chama este instrumento? Foi a interrogação que José Oliveira de Fontes Pereira fez à sua mãe, em 1947, com apenas oito anos, e guardava, religiosamente, na memória, a respectiva resposta da sua mãe, “Óhihi a i xana dikanza” (isto chama-se dikanza).

Escola

José Oliveira de Fontes Pereira decidiu criar a primeira Escola de Semba, depois de várias conversas mantidas com a sua mãe, sobre a participação do seu pai na defesa da cultura musical angolana, uma verdadeira academia que vigorou de 1958 a 1960. “Estávamos na época da eclosão dos conjuntos, recordou Fontes Pereira, e, entusiasmado, fui ao encontro dos meus amigos na casa de Suzana Augusto Francisco (Santa). Suzana Ferreira, seu pseudónimo, cantava e dançava ritmos de várias latitudes. Na parte frontal da casa de Suzana Ferreira havia uma pedra de formato redondo por nós designada a “Pedra do Amor”. Era neste local que se encontravam os jovens da minha época”. Fizeram parte da escola de semba, José Oliveira de Fontes Pereira (Mestre Sala e passista em dupla com Mário Clington), Mário Alberto de Sousa e Almeida Clington, José Rodrigues Ascêncio (Zé Rodrigues, batuque), José de Matos Júnior (Lindo da Popa, corista), José Cordeiro de Matos Júnior (Zé Cordeiro, corista), Joaquim Manuel Neto (Lara, corista), Jorge Reinaldo Gomes de Melim (corista), Manuel Malheiros dos Santos (Lindo Malheiros, corista), Rui Matias (corista), Francisco José Amaral e Hernâni Lúcio Ferreira Gonçalves.

A secção feminina era formada por Eulália do Espírito Santo (Lalita, vocalista), Benícia do Espírito Santo (Benícia, corista), Cupertina do Espírito Santo (Tina Santos, corista), Gabriela de Jesus Matos (Gabi, corista), Amália Marcelino Conde (Amália, corista e bailarina) e Maria Isabel Albano (Isabel Albano, corista e bailarina).

Método de construção da dikanza segundo Malé Malamba

Instrumento nobre, segundo José Oliveira de Fontes Pereira, a dikanza é um instrumento de acompanhamento que se junta, de forma rítmica e harmónica, à concertina, viola, kibabelo e batuque. José Oliveira de Fontes Pereira insurgia-se contra os que designavam, reco-reco à dikanza. Reco-reco é uma onomatopeia que associa o som da dikanza, quando friccionada pelo “kixikilu”, seu nome verdadeiro é dikanza. A história da Música Popular Angolana regista os nomes de Euclides Fontes Pereira (Fontinhas, Ngola Ritmos), Adolfo Coelho (Kiezos), Zé Fininho (Negoleiros do Ritmo), Raúl Tolingas, Bonga e Augusto (Jovens do Prenda), como sendo os mais notáveis tocadores de dikanza. Yuri da Cunha, Lolito (filho de Lulas da Paixão), e Dina Cláudia, são os mais importantes seguidores, da nova geração de instrumentistas.Segundo José de Oliveira Fontes Pereira, que para além de executante foi um exímio construtor de dikanzas, existe um modelo construtivo, assente em dezoito passos, para se obter uma perfeita dikanza, 1º Cortar o bordão no tamanho desejado para se obter a altura, 2º Quebrar as arestas com lixa desbastadora número 40 ou 60, 3º Raspar o bordão com uma faca de aço, 4º Passar a lixa número 100 ou 120 sobre o bordão para estimular a inspiração na confecção e se obter uma superfície menos áspera, 5º Tapar as bases exteriores com serradura e cola branca e deixar secar, 6º Marcar o tamanho dos punhos e seguidamente caracterizar o sector rítmico na medida desejada, 7ºMarcar com uma caneta de feltro sobre o bordão, para se determinar as divisões das ranhuras que constituirão o sector rítmico, 8º Passar a serra sobre os riscos para a formação das divisões e das ranhuras, 9º Passar uma grosa sobre as aberturas lado a lado, 10º Passar uma lima de quatro polegadas, entre as divisões para torná-las ovais, obtendo-se assim uma boa confecção, 11º Passar uma linha de meia cana de lado a lado para quebrar as arestas e obtém-se as ranhuras do tipo A, 12º Passar entre as divisões das ranhuras lixas número 100 ou 120 para tirar as sobras, 13º Passar lixas de 120 e150 sobre o sector rítmico, para embelezar a dikanza, de forma a torná-la atraente, 14º Abrir a saída do som tirando a fibra interior, tornando-a oca, 15º Quebrar com uma faca as arestas na margem para não ferir os dedos e lixar toda a superfície côncava, 16º Forras as bases interiores com serradura e cola branca, 17º Desenhar padrões nos punhos se desejar, 18º Polir os punhos com verniz, de tipo celuloso ou sintético.

 

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