Homem de cultura e fundador da escola de semba

Jomo Fortunato |
30 de Junho, 2014

Fotografia: DR

Os valores culturais, intrínsecos à identidade de um povo, degeneram-se com o tempo, e a memória humana, na ausência de fontes documentais fixadas pela escrita, acaba por ser um valioso recurso que anula o natural esquecimento, restaura a história, e particulariza a transcendência dos factos culturais.

Angola  perdeu um eminente homem de cultura que, com os seus notáveis ensinamentos, deu, em vida, um contributo singular à reconstituição histórica da Música Popular Angolana.
José Oliveira de Fontes Pereira, compositor, guitarrista, bailarino, artífice, coreógrafo e figura emblemática do Grupo Teatral Ngongo, foi o fundador da primeira Escola de Semba (1958-1960) e preservou a memória de importantes momentos da cultura angolana. Malé Malamba, como ficou conhecido pelos mais próximos, contava apenas cinco anos de idade quando herdou, de um inseparável amigo do seu pai, a afeição, intuitiva, pelos instrumentos musicais angolanos, particularmente, a dikanza.
Homem de uma verticalidade cultural ímpar, José Oliveira de Fontes Pereira recorda, de forma visivelmente emocionada, a morte do seu pai: “Estava em casa com a minha mãe, quando descobri que o meu pai dava, no seu quarto, os últimos suspiros da sua vida. Alertei à minha mãe, e esta, acto contínuo, comunicou à vizinhança do bairro. Num instante mágico, Luanda inteira estava informada. Morreu José Abel Dikota, “Mu Elite”! Com uma prodigiosa memória, José Oliveira de Fontes Pereira recordou a triste ocorrência de forma  exacta: “O meu pai morreu numa tarde solarenta do dia 29 de Janeiro de 1951, as 15h:00”.
Filho de José de Fontes Pereira e de Maria Martins dos Santos,  José Oliveira de Fontes Pereira nasceu em Luanda, no dia 29 de Junho de 1939, e morreu no dia 22 de Junho de 2014. O seu pai, também conhecido por, Abel Muene ó Dikota (Mu Elite), foi tocador de concertina, e fundador do “Elite União Clube” (1919-1951), um notável grupo de Massemba do Bairro Vila Clotilde, em Luanda, formação que incluía o não menos famoso, Joaquim Carolas (dikanza).

Dinastia


Irmão da Mama Lala, primeira Rainha do Carnaval do grupo Cridália, José Oliveira de Fontes Pereira descende de uma importante “dinastia” de músicos, homens de cultura, e autores de clássicos da Música Popular Angolana. Euclides Fontes Pereira, autor da canção “Nzagi”, seu irmão, foi compositor, cantor e executante de dikanza do Ngola Ritmos, Luís de Fontes Pereira e António de Fontes Pereira, seus tios, irmãos do pai, são autores das canções:
“Ó massangu ngi madiami” e “Diá Ngó”, respectivamente, a última das quais transcrevemos os versos: Diá ngo éh/ ku buri se kima/ Diá ngo é/ ku buri se kima/ Diá ngo é/ ku buri se kima/ se u burisa/ pata ge ku muxima/ Ó kitadi/ diá ngi tulamié/ Ó kitadi/ diá ngi tulamié/ ué ngana/ kiá luna óh muxima/ kanu ka kitange (é) /  ué ngana/ ngo zo kutunga onzo/ Se uejidilé kuenda/ Ngo zo kutunga onzo/ Se uejidilé kuenda, mamã/ Ngo zo kutunga onzo.

Massemba


José Oliveira de Fontes Pereira viu o seu pai em exibição, pela primeira e última vez, numa cerimónia, em 1950, na casa de Joaquim Filipe Amado, no Bairro Indígena, e narrou o ambiente dos momentos que viveu: “O meu pai colocava-se num dos cantos da sala, empunhando a concertina, com o tocador de dikanza ao seu lado. A sala era iluminada, no centro, por um petromax, e o alinhamento coreográfico, formado, em pares, por vários cavalheiros, e respectivas damas, seguia o perímetro das quatro paredes. O mestre-sala entrava no centro, e fazia requebros e vénias, e as palmas soavam em uníssono, completando a umbigada, semba, dos pares, ao ritmo frenético da concertina e do coro dos dançarinos”, recorda, nostálgico e emocionado, José Oliveira de Fontes Pereira. Dos mestres-sala mais  conhecidos na época, figuravam os dançarinos:  Victoriano Barros e o Mestre Horácio, também conhecido por Silva. Haviam também mulheres na condição de mestres-sala: Nazaré Araújo e Maria Martins Dias dos Santos (Mutúri Marica), mãe de José Oliveira Fontes Pereira, já referida, eram as mais famosas na época. José Oliveira de Fontes Pereira integrou, em 1954, como dançarino de massemba, o Conjunto Artístico de Melodias Angolanas (C.A.M.A.), do Carvalho Simões, um conhecido artista da época, onde teve uma passagem efémera.

 Semba

Depois de várias conversas mantidas com a sua mãe, sobre a participação do seu pai na defesa da cultura musical angolana, José Oliveira de Fontes Pereira decidiu criar a primeira Escola de Semba, uma verdadeira academia que vigorou de 1958 a 1960.
“Estávamos na época da eclosão dos conjuntos, recorda Fontes Pereira, e, entusiasmado, fui ao encontro dos meus amigos na casa de Suzana Augusto Francisco (Santa). Suzana Ferreira, seu pseudónimo, cantava e dançava ritmos de várias latitudes. Na parte frontal da casa se Suzana Ferreira, havia uma pedra de formato redondo por nós designada a “Pedra do Amor”, era neste local que se encontravam os jovens da minha época”. Num desses encontros estava, para além de Fontes Pereira, Mário Clington e José Rodrigues. Era hábito o grupo fazer exercícios orais, batendo com as mãos no peito, imitando o compasso das músicas de carnaval. Foi numa dessas sessões que José Oliveira de Fontes Pereira, propôs a criação de uma escola de semba que teria, como princípio filosófico, divulgar a música e as danças angolanas. O grupo recebeu entusiasticamente a ideia, e foi criada a primeira Escola de Semba, pelo menos a conhecida na história da cultura angolana.

Dikanza

Instrumento nobre, segundo José Oliveira de Fontes Pereira, a dikanza é um instrumento de acompanhamento que se junta, de forma rítmica e harmónica, com a concertina, a viola, o kibabelo e o batuque. José Oliveira de Fontes Pereira insurge-se contra os que designam reco-reco, pela dikanza. Reco-reco é uma onomatopeia que associa o som da dikanza, quando friccionada pelo “kixikilu”, vara rítmica de fricção. O verdadeiro nome é dikanza. Lembramos que “ó hihi a i xana dikanza” é uma frase de Maria Martins Dias dos Santos , Mutúri Marica, pronunciada em 1947.
Segundo José de Oliveira Fontes Pereira, que para além de executante foi um exímio construtor de dikanzas, existe um modelo construtivo, assente em dezoito passos, para se obter uma perfeita dikanza. Um processo que vai desde o corte do bordão,  no tamanho desejado, para se obter a  altura, passando pela marcação, para determinar as divisões das ranhuras que constituirão o sector rítmico, até ao polimento, que determina o aspecto da “dikanza”. A história da Música Popular Angolana regista os nomes de Euclides Fontes Pereira (Fontinhas, Ngola Ritmos), Adolfo Coelho (Kiezos), Zé Fininho (Negoleiros do Ritmo),  Raúl Tolingas, Bonga e Augusto (Jovens do Prenda), como sendo os mais notáveis tocadores de dikanza. Yuri da Cunha, Lolito (filho de Lulas da Paixão), e Dina Cláudia, são os mais importantes seguidores, da nova geração de instrumentistas.

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