Humanismo e plasticidade literária de um poeta

Jomo Fortunato |
4 de Maio, 2015

Fotografia: DR |

A poesia de João Maimona instaura interrogações sobre a condição humana, através das possibilidades infinitas da plasticidade verbal e da transfiguração poética.

As distensões da palavra, que ocorrem de forma reiterada em inusitadas realizações semânticas, é cúmplice da sua própria verbalização, resguardando sempre a opacidade do indizível.
João Maimona, um dos poetas mais importantes da sua geração,  é autor de uma obra em permanente reordenamento e reinvenção, a cada momento diacrónico da sua leitura. Tudo ocorre num processo em que  cabe sempre ao leitor a construção da sua própria “Estética da recepção”, e, curiosamente, encontramos num dos versos do poeta, a síntese metafórica, mais acabada, da génese da sua arte poética: “são palavras escritas em folhas de mel”...
Na verdade, as “folhas de mel”, que nos remetem de forma automática para “As abelhas do dia” (2000), título surreal de um dos seus livros, revelam a dimensão naturalista, humanista, e, sobretudo, a dimensão plástica da  poesia de João Maimona.
Se empreendermos uma reflexão especulativa sobre a natureza e os mecanismos de construção textual da poética de João Maimona, valorizamos, tendencialmente, um texto que sugere marcas de múltiplas caminhadas, em que os silêncios gritam de mágoa e os desesperos ressuscitam de esperança, contudo, a denúncia à mendicidade, miséria e indigência planetária, ocorrem de forma reiterada na sua escrita: “Não cantarei os braços/ nem os corpos distraídos, não cantarei/ Ainda que a voz atravesse/ ninhos de crianças arruinadas... (in“Trajectória obliterada”, 1985).
Filho de Joana Malata e de Manuel Kuambidi, João Maimona nasceu no dia 8 de Outubro de 1955, em Kibokolo, Maquela do Zombo, província do Uíge. Inquieto na selecção das palavras, vadio na imaginação e subversivo no estilo, João Maimona já anunciava a sua “carga viral”, no sentido poético do termo,  no seu primeiro      livro, “Trajectória obliterada”, do qual ainda se ouvem os sinos das suas sementes: “Quem nos mandou incendiar os litorais alheios ?”

Tertúlias

João Maimona foi membro fundador da Brigada Jovem de Literatura do Huambo, e nesta cidade que conheceu Zaida Dáskalos, eminente mulher de cultura , bibliotecária da Faculdade de Ciências Agrárias,  irmã do poeta Alexandre Dáskalos, prima do escritor Ndunduma Ué Lépi, e tia da Alexandra Dáskalos, esposa do escritor Arlindo Barbeitos. Com   Zaida Dáskalos, João Maimona partilhou inúmeras tertúlias, no emblemático, Largo Kussi, e na Biblioteca da Faculdade, onde discutiam temas de literatura universal , e artes plásticas, encontros que se revelaram  fundamentais para a consolidação do nível de  língua portuguesa do poeta.

Formação

João Maimona chegou a Leopoldville, ex-Congo Belga, em 1961, aos seis anos, integrando um grupo de refugiados angolanos,  fugidos em consequência da repressão colonial. Concluiu a instrução primária e os estudos secundários na Escola Saint-Pierre, época em que toma contacto escolar com a língua portuguesa, com duas madres. Estudou humanidades científicas no Colégio de Altos Estudos, e na Faculdade de Ciências, durante um ano,  em  Outubro de 1975,  em Kinshasa, tendo regressado a  Angola, no domingo do dia 13 de Setembro de 1976.  Em 1978 fixou residência no Huambo, onde se licenciou em Medicina Veterinária.  É diplomado em virologia médica e epidemiologia animal, pelo Institut  Pasteur e “Institut Nationale Vétérinaire d´Alfort” de França, de 1993 a 1995.  

Distinções

Membro da União dos Escritores Angolanos, João Maimona venceu, duas vezes, o  Prémio Sagrada Esperança pelo INALD, Instituto Nacional do Livro e do Disco, com as obras “Trajectória obliterada” (1984), galardão entregue no salão nobre da então Assenbleia do Povo, no dia 17 de Setembro de 1985, na presença do então Director do INALD, António Fonseca, em representação do Secretário de Estado da Cultura, Boaventura Cardoso, e  “Idade das palavras” (1996). Em 1987 foi distinguido com a medalha de bronze no concurso internacional de poesia organizado pela Academia Brasileira de Letras, na cidade do Rio de Janeiro.

Bibliografia


Ao longo da sua carreira, João Maimona publicou os seguintes títulos bibliográficos: “Trajetória obliterada” (poesia, 1985), “Les Roses Perdues de Cunene”, (poesia, 1985), “Traço de união” (poesia, 1987), “Diálogo com a peripécia”, (teatro, 1987), “As vias poéticas da esperança em Agostinho Neto (ensaio, 1989),  “As abelhas do dia” (poesia, 2000), “Quando se ouvir os sinos das sementes” (poesia, 1993), “Idade das palavras” (poesia, 1997), “No útero da noite” (poesia, 2001), “Festa de Monarquia” (poesia, 2001), “Desejo de liberdade e humanização em Agostinho Neto” (ensaio, 2002), “Lugar e origem da beleza (poesia, 2003), “O sentido do regresso e a alma do barco” (poesia, 2007, “As Colheitas do Senhor Governador" (Teatro, 2010), e “Memória de Sombra” (poesia, 2012). Por ocasião dos trinta anos de escrita literária, João Maimona vai  publicar uma antologia, denominada “Palavras escritas em folhas de mel”, que reúne textos dos livros:  “No útero da noite”, “Festa de Monarquia”, e “O sentido do regresso e a alma do barco”, onde cada título representa uma década. Os livros “Madame Ondina Samba e sua taças”, “As Lágrimas do Império”, e o “Repouso ante-mortem do imperador”, aguardam publicação. A obra poética de João Maimona é objecto de estudo na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Portugal, e na Pontifícia Católica de Minas Gerais , Brasil, e os seus poemas figuram em diversas antologias em Angola, Espanha, Bélgica, França e Macedónea. “O falar das Máscaras” é o título de uma exposição do escultor Massongi Afonso, inaugurada em  Abril de 2000, sobre poemas de João Maimona.

Doutoramento

A poesia de João Maimona foi objecto da tese de Doutoramento, “Do alarme do mundo e das celebrações da escrita  na poética de João Maimona”, apresentada  em Setembro de 2010, pela candidata Terezinha de Jesus Aguiar Neves, orientada pela Professora Doutora Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco, no Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, na Área de Concentração de Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa. Na sinopse da tese, lê-se o seguinte: “Análise e interpretação da poesia de João Maimona, com base na leitura atenta de dois livros seus da primeira fase “Trajectória obliterada” e “Traço de união”, e de outras duas obras suas de fase posterior, “No útero da noite” e “O sentido do regresso e a alma do barco”. Angústia e jubilação: reflexo de dois momentos significativos da experiência estética do poeta angolano. A tensão da escrita e a celebração da palavra: consciência de responsabilidade, na junção poesia-vida”.

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