Impacto da paz no desenvolvimento da cultura

Jomo Fortunato |
21 de Setembro, 2015

Fotografia: Francisco Bernardo |

O discurso proferido pelo Presidente da República, Engº  José Eduardo dos Santos, na sessão de abertura do III Simpósio sobre Cultura Nacional, realizado sob o signo “Forja da angolanidade”, em Setembro de 2006, relaciona os benefícios da paz, ao desenvolvimento integral dos aspectos mais endógenos da cultura angolana, numa perspectiva global, inclusiva e  universalista.

De facto, a estabilidade social conseguida  com a conquista da paz, propiciou o arranque do processo de reconstrução da “Nova Angola”, a todos os níveis, incluindo a revalorização dos aspectos culturais da angolanidade, na sua dimensão material e imaterial: “Conquistada a paz, garantido o regresso organizado das populações dispersas pelo país ou refugiadas no exterior dos seus locais de origem, feita a reconciliação nacional entre todos os angolanos, lançadas as bases da reconstrução, da estabilização e do crescimento económico do país, estamos hoje em condições de trabalhar com maior dinamismo para o desenvolvimento da cultura nacional”, afirmou convicto e optimista, José Eduardo dos Santos.
Discurso histórico, orientador e intemporal, o pronunciamento do Chefe de Estado no III Simpósio Sobre Cultura Nacional, ficou marcado por uma profunda reflexão sobre vários temas: conceito de cultura, consolidação da identidade nacional, valorização das línguas nacionais, preservação do património, resguardo da memória colectiva, importância estratégica dos criadores, tradição oral, modernidade, artesanato, investigação científica, dimensão filosófica da cultura endógena, ritos de iniciação, celebração  dos mitos ancestrais, criação de infra-estruturas culturais, formação de quadros, legislação cultural, mecenato, propriedade intelectual, direitos de autor e conexos, registo internacional de instrumentos musicais tradicionais, fomento da cooperação, intercâmbio internacional, e enaltecimento da angolanidade,   perante os efeitos muitas vezes perniciosos da globalização.
No referido discurso, o Presidente da República considerou a cultura “uma variável estratégica de grande importância” na construção do Estado de direito, democrático e social: “Consideramos a questão da Cultura como uma variável estratégica de grande importância, com efeitos imediatos na coesão interna da nossa sociedade, bem como na nossa marcha em direcção aos objectivos globais que nos propomos atingir, tais como construir uma nação unida, desenvolvida e próspera com uma cultura fluorescente no Estado de Direito, Democrático e Social”.

Complexos

Depois de conquistada a paz, José Eduardo dos Santos defendeu a discussão da generalidade dos assuntos sem complexos, relacionando o papel que a cultura, pela afirmação da angolanidade, pode desempenhar, no combate à fome, desemprego, doenças endémicas, e analfabetismo: “Este espírito de abertura ao mundo que caracteriza os angolanos, permite-nos discutir em todas as áreas e afirmarmo-nos perante quem quer que seja sem complexos. Esta atitude que estamos a forjar se encontra, aliás, na base dos êxitos obtidos no panorama internacional e deve presidir as nossas acções internas, também nos domínios empresarial, social e organizacional, a fim de no mais curto espaço de tempo obtermos ganhos no combate contra a fome, o desemprego, as doenças endémicas, o analfabetismo e outros males que ainda enferma a nossa sociedade”.

Estudo


“Mesmo que alguns elementos de integração cultural e social possam ser considerados ainda como sendo frágeis, a tendência inexorável é a sua consolidação”, afirmou José Eduardos dos Santos. Para mais adiante argumentar que:   “O órgão reitor do sector e os agentes da Cultura têm assim o dever de promover acções para tornar cada vez mais consistente essa consolidação, aprofundando, por exemplo, o conhecimento das manifestações culturais locais, através da sua inventariação completa e do seu estudo, síntese, sistematização e divulgação. Isto implica um esforço sério de pesquisa científica e a mobilização de quadros que se dediquem integralmente a esta tarefa. Acho que este Simpósio deve reflectir sobre se devemos ou não fazer o resgate dessas manifestações a curto, médio ou longo prazo no quadro do desenvolvimento da nossa Cultura, da consolidação da identidade nacional e da Nação angolana.

Tradições


José Eduardo dos Santos reconheceu o valor das tradições na sua relação com a modernidade,  e do papel que desempenham na construção do carácter identitário da cultura angolana: “Resgatar algumas dessas valiosas tradições considero que é um trabalho que se impõe, pois são elas as balizas que definem o carácter identitário do nosso povo e que podem transmitir princípios e valores do nosso passado comum que nos diferenciam dos demais povos. Não é por acaso que muitos dos nossos criadores já se baseiam nelas e irão certamente continuar a basear-se para produzirem a música erudita, a dança contemporânea, as danças africanas estilizadas, as belas artes e o teatro moderno”.

Modernidade

Justo e visionário, o Chefe do Excecutivo estabelece um equilíbrio entre a tradição e a modernidade: “Isso não deverá impedir, no entanto, que continuemos a inserir-nos sem complexos na modernidade, apoiando sem reservas a expressão das novas realizações, inquietações e aspirações que a transformação das bases da nossa sociedade e o progresso social e científico nos impõem.  No necessário equilíbrio que é preciso estabelecer entre estes dois parâmetros é que reside a dificuldade maior, pois existe quase sempre a tendência de se conferir maior atenção a um deles em detrimento do outro.  O que importa é não rejeitar nenhuma das duas heranças de que todos nós somos depositários, a que vem dos nossos antepassados e nos é transmitida ao longo das várias gerações, e aquela, cada vez mais determinante, que nos chega dos nossos contemporâneos, das nossas próprias vivências actuais e do acesso ao conhecimento científico”.

Identidade

José Eduardo dos Santos defende, sem chauvinismos, a construção e defesa da identidade cultural angolana, apelando à inclusão  e integração de outros saberes e visões do mundo: “Já há muito foi reconhecido e aceite que é na diversidade e no cruzamento das formas próprias de expressão de agrupamentos humanos de diversas origens e características que se geram as formas mais complexas de riqueza espiritual e mesmo de realização sócio-económica”. Para mais adiante afirmar que: “temos de assumir e entender que Angola absorveu ao longo de séculos elementos culturais de povos oriundos do interior e do exterior do Continente, que configuram o seu perfil actual como Nação soberana e independente. Negar ou escamotear essa realidade, que nos coloca numa posição singular no contexto de África, seria negar-nos a nós próprios ou amputar-nos de elementos essenciais para a definição da nossa identidade”.

Legislação

O Chefe do Executivo revelou a sua preocupação com a estabilização de um quadro normativo em relação à cultura, nos domínios da realização, produção e fruição artística: “Considero ainda necessário que se elabore um conjunto de diplomas referentes às artes, ao espectáculo, ao cinema e audiovisual que estabeleça o quadro normativo regulador da concessão de apoios do Estado ao sector, criando-se as condições que permitam o acesso das pessoas a novas oportunidades de fruição cultural e ao pluralismo da criação cultural”. De facto, enquadram-se nessa perspectiva as iniciativas que o Governo já leva a cabo com vista à construção de edificios, muitos dos quais em funcionamento,  que albergam o Instituto Médio de Artes Cénicas, estando em vista a conclusão do Instituto Superior de Artes, Museu de Arte Contemporânea, Arquivo Histórico e  Biblioteca Nacional.

Universalidade

Por último, a universalidade da cultura angolana, e a auto-estima dos angolanos foram destacados pelo Presidente da República, nos seguintes termos: “Desenvolver a auto-estima ou confiar em nós mesmos com humildade, aprender cada vez mais e adquirir aptidão para trabalhar para o êxito ou para a vitória. Estar no mundo com uma identidade cultural própria, enraizada na nossa história e na do nosso Continente, mas aberta a um património de valores que já pertence a toda a Humanidade e que nos permite competir em pé de igualdade com outros povos do mundo”.

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