Cultura

Importância cultural do grupo Músico - Teatral Ngongo

Jomo Fortunato

Volvidos cerca de 58 anos, Roldão Ferreira, que entrou no Grupo Músico - Teatral Ngongo, em Maio de 1961, na condição de cantor, dançarino, compositor e dramaturgo, recordou com visível nostalgia os seus tempos de juventude, “Era nosso dever, como angolanos, valorizar e proteger a cultura angolana, num contexto de clara assimilação dos valores da portugalidade.

Roldão Ferreira um dos integrantes do agrupamento defensor na cultura angolana na época
Fotografia: DR

Foi na sequência das iniciativas do saudoso, José Oliveira Fontes Pereira, também conhecido por, Malé Malamba, que nos afirmámos na sociedade colonial de então e julgo que fizemos história, porque muitas das figuras do Ngongo tiveram um importante papel no processo de luta anti-colonial, e, depois, no pós-independência”.
De facto, com a extinção do Club Bota Fogo pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), no dia 5 de Fevereiro de 1961, José Oliveira Fontes Pereira, decidiu fundar o Grupo Músico -Teatral Ngongo elegendo como principal divisa, “Ngongo é sofrimento, é vida”.
O Club Bota Fogo, agremiação desportiva e cultural, foi fundado em 1952, na cidade de Luanda e tinha a sede no Bairro Marçal, junto ao Centro Recreativo e Cultural Maxinde. À época, sentiam-se os efeitos do ataque às cadeias de Luanda pelos heróis do 4 de Fevereiro, num contexto de adversidade das autoridades coloniais ao desfile da primeira Escola de Semba, igualmente fundada por José Oliveira Fontes Pereira,que chegou a ser impedida de participar na edição do Carnaval de 1959.
Com a “intenção de dar continuidade à defesa intransigente da cultura nacional”, ainda nas palavras de Roldão Ferreira, José Oliveira Fontes Pereira recorreu aos antigos membros do Club Bota-Fogo, com destaque para, Armando Correia de Azevedo, Joaquim António Jorge, Quim Jorge, e Ezequiel de Almeida, que, acto contínuo, solicitaram os préstimos de Manuel Pereira do Nascimento, presidente da Liga Nacional Africana, para a cedência de um espaço de ensaio e exibição, passando o Grupo Músico -Teatral Ngongo a Departamento Cultural da Liga Nacional Africana, decisão celebrada no dia 4 de Outubro de 1961, data oficial da fundação do Ngongo.
Durante o período de acção cultural do Grupo Músico -Teatral Ngongo foram programadas inúmeras temporadas artísticas e sessões de música, teatro, dança, jograise recitaisde poesia com poemas de Joaquim António Jorge, Quim Jorge, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Jaime Macedo de Magalhães, Mário António e Mário Arsénio Gonçalves. O Grupo Músico -Teatral Ngongo foi responsável pelo surgimento de importantes compositores que fizeram época ao longo da história da Música Popular Angolana, com destaque para, Cirus Cordeiro da Mata, Roldão Ferreira, Sabú Guimarães, Sofia Rosa e José Oliveira Fontes Pereira.

Teatro
O Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA), instituição ligada à colonização portuguesa, tomou conhecimento da existência do Grupo Músico -Teatral Ngongo e convidou o grupo a aderir as festas da cidade de Luanda, para exibição da peça teatral “Muhongo-a-kasule”,em sessão exibida no dia 15 de Agosto de 1962 no Cine Teatro Nacional, com texto original em língua portuguesa do escritor, Óscar Ribas, traduzida depois para Kimbundu, pelo Grupo teatral, Ngongo. Na sequência, o Grupo Músico -Teatral Ngongo foi exibindo as peças, “Alembamento”, de Malé Malamba, “Mui” (ladrão)e “A taberna” deArmando Correia de Azevedo, “Qual doi mais”do livro “Ecos da minha terra” de Óscar Ribas, “Elas, elas…elas” e “Namoro no Sambila”, de Dionísio Alves Mendes do Sacramento Neto, “Próprio Nini”,um conjunto peças de teatro que, em defesa das línguas nacionais, também foram exibidas, tanto em língua portuguesa como em Kimbundu.
Homens
O elenco artístico do Ngongo era constituído por quarenta e cinco homens e vinte e três mulheres, com destaque para os seguintes homens, Sebastião Soares da Silva, Mário Arsénio Gonçalves, Armando Correia de Azevedo, José Oliveira Fontes Pereira “Malé Malamba”, Joaquim António Jorge, Quim Jorge, Roldão Ferreira, Ezequiel de Almeida, Dionísio Alves Mendes do Sacramento Neto, “Próprio Nini”, Rodrigo Celestino, António Correia de Azevedo, Jorge Antunes, Aureliano de Oliveira Neves, “Voto Neves”, Justino Velasco Galiano “Tiozinho”, Emílio Pedro da Silva “Milex”, Ciros Cordeiro da Mota, Manuel Gomes da Silva, José Rodrigues, Carlos Alberto de Sousa Guimarães, Sabú, Lino Vicente Ferreira Júnior, José d’Olim Cordeiro da Mata, Luís José Fernandes, “Fuínha”, José Augusto Prata, Apolinário Monteiro, António Monteiro, José Olívio Alberto Pereira, Vorcelana, Octávio do Nascimento Gonçalves, Manuel João Baptista, Miguel Francisco dos Santos Rodolfo, “Kituxi”, António Domingos de Oliveira, Fernando Sofia Rosa, Pedro Domingos Andre, “Lerson”, Pedro da paixão Franco, “Nito”, Fernando da Conceição, “Muxima”, André José Brás, “Jimmy”, Paulino Fernandes, Hernani, Francisco António, “Ziza”, Augusto Santana da Costa, Gabriel Fernandes, António Sobrinho, Luís Adão Soares “Girafa”, António Caetano Marcolino, “Marco Polo”, José Pedro “Pepé”, Domingos José “Strol” e Eduardo Rodrigues de Paiva.

Mulheres
A valorização da mulher e a arte no feminino, sempre foram princípios inalienáveis do Grupo Músico -Teatral Ngongo e, longo da sua curta existência, destacaram-se as seguintes mulheres, Amélia ArleteRodrigues Mingas, Dina Stella Setas Vieira Dias, prima do Liceu Vieira Dias, Albina Faria de Assis, Maria do Carmo Faria de Assis, Eduarda Torres Vieira Dias, também conhecida por Duda, Isabel da Paciência Veríssimo e Costa, Efigénia da Silva Mangueira, Geny, Ana Maria Pedro João, Catarina Marcelina Junqueira, Ana de Miranda Martins Monteiro, Kuto, Maria Filomena de Sousa, Filó, Lita, Maria de Fátima de Sousa, Mifá, Constantina Vieira Braga, Ilda Sofia Coelho Rosa, Maria Pedro, Nené,Maria da Conceição de Almeida, Lila, Isabel Dias dos Santos,Olímpia Dias dos Santos, Domingas Queiva, Minga, Josefa Nené, Raquel Pita Grós,Ana Lopes Teixeira,Ana Maria Pedro João, Nany, Catarina, Caty, entre outras mulheres que celebraram e marcaram a história da arte e cultura angolana no feminino.

Existência
Devido a constantes perseguições da PIDE, o grupo Músico -Teatral Ngongo teve vida efémera e viveu apenas de 1961 a 1966. O Ngongo era considerado pela polícia política portuguesa, uma continuação do Bota Fogo daí ter sido constituído um alvo a abater. É assim que começam as transferências dos seus membros, muitos dos quais funcionários públicos, para diversas províncias de Angola, permanecendo em Luanda somente o Departamento musical, até 1968.

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