Cultura

Importância turística e cultural do artesanato nacional

Jomo Fortunato

No quadro da valorização do artesanato e da implementação das linhas mestras da política cultural, o Estado angolano em parceria com entidades privadas, pode ressuscitar a tradição das feiras e promover a divulgação online da produção artesanal. A ideia é associar a valorização patrimonial ao entretenimento, promovendo os artesãos e a criação artística, num processo que poderá propiciar o desenvolvimento económico, no interior das comunidades.

Promoção contínua de feiras do artesanato contribui para o aumento do rendimento dos artistas
Fotografia: Jaimagens

A promoção contínua de exposições itinerantes e feiras de artesanato, associada à realização de concertos de média dimensão, pode contribuir para o aumento da renda e diminuir, paulatinamente, a pobreza dos artesãos que, ao longo dos anos, têm produzido peças artesanais, muitas das quais de inegável valor artístico.

O artesanato desenvolve-se em todo o país, e, no seu conjunto, inclui exemplares de valor utilitário e outras que cumprem uma função estética, com peças que vão desde esculturas, cestaria, esteiras, cerâmica, cachimbos de barro, cabaças, indumentária e calçado.

Angola já possuiu uma indústria activa de tecidos de algodão e ráfia, inspirados em modelos de criação plástica de feição artesanal, quer em Luanda, como nas províncias. No passado, os panos de algodão manufacturavam-se, com maior ou menor assiduidade, em diversos pontos de Angola. Sobre o assunto vejamos o que escreve o etnólogo José Redinha, “no norte, mais propriamente na região dos congos, os antigos cultivadores usaram largamente os panos de ráfia. Notícias do século XVI relatam o uso daquele tecido designado ‘pano de palma’, com o qual se vestiam o rei e os seus cortesãos.

Alguns desses panos eram lavrados e de um aspecto tão agradável, que lembravam o “cetim aveludado”. Sabe-se, também, que alguns presentes enviados pelo rei do Congo a D. João II, por intermédio de Diogo Cão, incluíam muitos ‘panos de palma’ bem tecidos e caracterizados com finas cores”.

Artesão
O artesanato, enquanto arte manual utilitária e artística, tem uma larga expressão na variedade das comunidades angolanas, o que justifica a valorização criativa, reprodutiva, autoral e biográfica do artesão, enquanto artista. Neste sentido, julgamos ser urgente valorizar o artesão enquanto sujeito com história, o que pressupõe, para além da divulgação da sua obra, empreender estudos rigorosos e datados sobre o seu percurso, formação, origem e contextos de aprendizagem. Os povos de Angola, à semelhança de outras sociedades em idêntico estádio de evolução, não dispunham de recursos de industrialização fabril própria. Nestes termos, não obstante a existência de indústrias domésticas de produção de diversos profissionais, cada homem era, em princípio, artífice, operário, obreiro, e, em certa medida, um artista. O artesão, conforme a sua aprendizagem, vocação, especialidade, e recursos, satisfazia as suas necessidades e as do grupo a que pertencia. Por este motivo, e pela ausência de padrões rigidamente fixos que caracterizam as produções mecanizadas e industriais, o artesanato nativo apresenta-se variado e diverso na sua tipologia. As matérias-primas, os costumes, as vocações gregárias, as situações geográficas e os sistemas de economia, também influem, como é natural, na redistribuição dos ofícios, no desenvolvimento das aptidões, no aperfeiçoamento das técnicas e na expansão do artesanato.

Associação
Existe uma associação de âmbito provincial, a Associação Provincial dos Artesãos de Luanda (APROARTE), que tem promovido a participação de artesãos em feiras e exposições. Na verdade, a tipologia do artesanato luandense vai desde, esculturas, joalharia, tapeçaria, cestaria, mobiliário, pintura, e calçado. Os materiais mais usados são, a madeira, pedra, arame, marfim, tintas, mateba, bambu, pano, bordão, fibra de sisal, bronze e ferro.

Províncias
Malanje é uma das províncias mais ricas em diversidade artesanal. Do ponto de vista da expressão artística foi em tempos idos uma das referências que nos apraz realçar, particularmente, os municípios de Marimba, Kirima e Massango, que foram os centros de artesanato que mais se destacaram na produção de cestos, sofás, peneiras, pilões, chapéus, pentes de pau, estatuetas e outros objectos feitos de palhas, madeira, bambú, junco e argila. Importa referir a qualidade e diversidade da produção artesanal do Uíge, Cabinda, Lunda-Norte, Lunda-Sul, Cuanza-Norte, Cuanza-Sul, Benguela, Huíla, Namibe, Huambo, Bié, e Cuando Cubango.

Turismo
O Centro de Arte do Benfica-Mercado do Artesanato absorveu o antigo mercado do artesanato, constituindo um importante vector cultural e comercial, que se junta à tradicional prática turística da zona do Museu da Escravatura. A prestação dos serviços turísticos passa pela criação de catálogos promocionais e plataformas digitais das peças mais elaboradas com a biografia dos artesãos, suportado pela reutilização criativa das modernas tecnologias da esfera comunicacional, para uma cabal informação de quem visita Angola.

Espaços
Em Luanda, o artesanato é produzido e comercializado em alguns pontos da capital. O artesanato produzido no Bengo tem as mesmas características com as de Luanda, e os artesãos comercializam as suas obras nas suas comunidades. Tradicionalmente, o artesanato que se produz é constituído, essencialmente, por chapéus, balaios, cestos e abanos. Os espaços de maior referência de comercialização são, a feira permanente da Ilha do Cabo, feira temporária do Panguila, Loja Espelho da Moda, Zunga Zunga Makiese, artesãos ambulantes e o Centro de Arte Benfica-Mercado do Artesanato.

Centro
Localizado na comuna do Benfica, município de Belas, província de Luanda, o Centro de Arte Benfica-Mercado do Artesanato convive com o Museu Nacional da Escravatura, local de memória e referência histórica, e possui um atelier do artesão, que comporta cinquenta pessoas, um auditório, com cento e sessenta e um lugares, uma sala de exposições, que pode albergar cento e vinte pessoas, e ainda sete edifícios de apoio. A criação de infra-estruturas é um passo importante para a valorização do artesanato, de forma a restaurar a sua funcionalidade comercial, preservação, recuperação dos valores e saberes tradicionais. O carácter utilitário da produção artesanal antecede a sua função estética, embora a utilidade e o adorno apareçam conjugados, numa só peça artesanal. O Centro de Arte Benfica-Mercado do Artesanato tem conferido mais dignidade aos artesãos e melhorados os seus rendimentos comerciais.

Mesa-redonda
A mesa-redonda realizada de 26 a 27 de Agosto de 2010, no Museu de História Natural, pelo Ministério da Cultura e Governos provinciais, em Luanda, deu um novo impulso ao entendimento e valorização do artesanato, entendido como importante factor de “desenvolvimento comunitário”. A reunião, que juntou especialistas neste domínio, discutiu questões relacionadas com a criação de novas indústrias, formas de tornar o artesanato mais atraente a partir da criação de cooperativas e empresas, rentabilização do artesanato utilitário, através do turismo.

Em relação às conclusões do encontro destacamos as que julgamos mais pertinentes, introdução de novos produtos na prática do artesanato, desenvolver acções que visem estimular a produção do artesanato como actividade geradora de rendimento nas comunidades, aplicar medidas de identificação e protecção de obras de artesanato produzidos e reproduzidos, regulamentar a importação e exportação do artesanato, inserir as artes tradicionais na indústria para o desenvolvimento de novos produtos, participar periodicamente em Feiras Internacionais de artesanato para a recolha de experiências, adaptáveis à realidade angolana.

Gestão e integração do artesanato no sistema de ensino
Estudos recentes sobre gestão cultural, apontam várias funções do artesanato das quais destacamos, para além da essencialmente cultural e de terapia ocupacional, a patrimonial, simbólica, social e comercial, ou seja, o artesanato é uma importante fonte de rendimento, principalmente para as pessoas com pouca formação e fraca capacidade de investimento.

Existe ainda a função recreativa, da qual se integra a turística, e, uma das mais importantes, a pedagógica. Neste sentido, o ensino do artesanato nas escolas, integrado na disciplina de trabalhos manuais, pode constituir uma estratégia dos alunos se inteirarem dos valores culturais das suas zonas de origem. Existe ainda o chamado “artesanato de recuperação”, que consiste na criação de peças a partir da reutilização ou reciclagem de diversos materiais, que pode, igualmente, estar integrado no sistema de ensino. Destacamos ainda a função ambiental do artesanato, que consiste na selecção e valorização dos materiais intervêm na cadeia de produção artesanal, que permitem a preservação de paisagens e dos ecossistemas, muito devido ao facto da maioria do artesanato ser realizado sem recurso a maquinarias, não poluindo o planeta.

Julgamos que a gestão e promoção do artesanato nacional, passa pela valorização, antes de mais, do artesão, que, na maior parte dos casos, não possui a visibilidade do artista plástico e conferirmos ao seu produto, uma legítima dimensão artística. A verdade é que a repetição e dimensão utilitária do artesanato, asfixia a sua dimensão artística, relegando às obras dos artesãos à compartimentação, por vezes pejorativa, da chamada cultura popular. Historicamente, o artesão responde por todo o processo de transformação da matéria-prima em produto acabado. Contudo, antes da fase de transformação o artesão é responsável pela selecção da matéria-prima a ser utilizada e pela concepção do produto a ser executado, momentos por que passam, igualmente, os artistas plásticos consagrados. Actualmente, é possível estabelecer o convívio entre a produção manual e o processo de industrialização do artesanato.

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