Importância académica dos estudos culturais

Jomo Fortunato |
24 de Novembro, 2014

Fotografia: Paulo Mulaza

Os textos compilados no livro “Intervenções sobre literatura, artes e cultura” (2004), de Jofre Rocha, uma distinta referência bibliográfica pouco referenciada, constituem um contributo singular no domínio dos estudos culturais angolanos, pela pertinência e magnitude das abordagens,e, sobretudo, pela inclusão de duas figuras prestigiadas da cultura angolana, António Jacinto e Agostinho Neto.

Carlos Ceia, professor catedrático da  Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, delimita, deste modo, o domínio dos Estudos Culturais: “De uma forma geral, chamamos Estudos Culturais à disciplina que se ocupa do estudo dos diferentes aspectos da cultura, envolvendo, por exemplo, outras disciplinas como a história, a filosofia, a sociologia, a etnografia, e a teoria da literatura.
Trata-se de uma disciplina académica, cujas origens é possível determinar, sendo habitual ligar essa origem ao próprio desenvolvimento do pós-modernismo e às suas celebrações contra a alta-cultura e as elites sociais, aos seus debates sobre multiculturalismo que têm tido particular expressão nos Estados Unidos, à sua ênfase nos estudos sobre pós-colonialismo, que ajudaram a criar uma nova disciplina dentro dos Estudos Culturais, e às suas manifestações sobre cultura popular urbana, por exemplo”.
Na senda da definição Carlos Ceia, julgamos que os conteúdos incluídos no livro “Intervenções sobre literatura, artes e cultura”, de Jofre Rocha, a par de um conjunto de saberes que se encontram dispersos, sobretudo de apreciações críticas da Literatura Angolana, quer de estudiosos nacionais quer de estrangeiros, podem fazer parte dos conteúdos programáticos, sobretudo no capítulo de textos recomendados, de uma cadeira de Cultura e Literatura Angolana, de nível universitário.
Vejamos o que nos diz Jofre Rocha no prefácio da sua compilação: “A compilação dos textos e intervenções que compõem esta obra, tem como traço comum a época em que foram redigidos, e a abordagem de temas da área cultural. Trata-se de algumas reflexões e selecção de discursos proferidos em eventos realizados num período que vai de 1979 a 2002, quando apesar do conflito que então campeava, a cultura no nosso país continuava sendo também um domíno de resistência e afirmação de soberania”.

Música

A música é o primeiro dos temas, ao longo dos quinze  capítulos do livro, com o texto: “A nossa música não pode ser tomada como um corpo exótico”, uma intervenção de Jofre Rocha no acto de tomada de posse do Corpo Directivo da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC), no dia 16 de Janeiro de 1984, em que o investigador defende que, “A nossa música com imensa riqueza de conteúdo, e mensagem própria, não pode ser tomada como um corpo exótico, revestido de aspectos folclóricos para agrado de turistas, e aqui cabe também à UNAC promover a defesa do que é nosso, prestigiar os valores da nossa arte e da nossa cultura”.

Literatura

A literatura é o tópico mais privilegiado no conjunto das “intervenções” de Jofre Rocha: “Literatura angolana, ontem e hoje”, é um texto focalizado na história literária, no seguimento de uma análise que vai de José da Silva Maia Ferreira, até a formação da Brigada Jovem de Literatura, com base numa conferência pronunciada em Setembro de 1984, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Consta ainda do livro o texto da intervenção proferida no dia 17 de Setembro de 1986, por ocasião da entrega do Prémio Nacional de Literatura, em 1984,  ao escritor Henrique Abranches, na sede da União dos Escritores Angolanos, sob o título: “Algumas palavras para homenagear um membro da família dos escritores”, em que Jofre Rocha destaca as qualidades do escritor: “Uma homenagem pela sua qualidade de empenhado estudioso dos valores culturais angolanos, e pela prestimosa contribuição que vem dando ao registo e interpretação científica do nosso património etnográfico e histórico”.
Seguem-se os textos: “António Jacinto: um exemplo de intelectual fiel aos ideais da nossa independência”, a propósito do acto de entrega do Prémio Nacional de Literatura, 8 de Janeiro de 1987,  “Caminhar de mãos dadas para a construção de um futuro mais justo e mais harmonioso”, intervenção por ocasião da abertura solene da “Associação Cultural Agostinho Neto, proferida no dia 12 de Novembro de 1987, na cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, Repúlica Federativa do Brasil, “A vida e obra de Agostinho Neto”, intervenção proferida em Novembro de 1987, na Universidade de São Paulo: “Quando frequentava o 6º ano do Liceu, Agostinho Neto ganhou um concurso de poesia, organizado pelo jornal manuscrito, “O jacaré”, de que era director e redactor o seu colega, António Jacinto”, escreve Jofre Rocha, numa passagem sobre um assunto pouco referenciado.
“A identidade de um povo reside na sua língua, suporte e veículo dos valores culturais”, texto escrito por ocasião da abertura do I Simpósio Internacional sobre Cultura Angolana”, Porto, nos dias 17 a 20 de Maio de 1989. “O repouso do Grerreiro”, texto escrito no dia 24 de Junho de 1991, por ocasião da morte do escritor, António Jacinto. “António Jacinto, o exemplo que fica”, texto datado de 21 de Janeiro de 1995, quatro anos depois da morte de António Jacinto. Seguem-se: "Geração de 50: percurso literário e sua importância, na luta de Libertação de Angola”, Simpósio Internacional de Estudos Africanos, 18 a 20 de Outubro de 1995, Centro de Estudos Luso-Afro-Brasileiro da pontifícia Universidade católica de Minas Gerais, Brasil, “União dos Escritores Angolanos: um forum abrangente de reflexão e debate sobre a realidade nacional”, 21º aniversário da instituição, em Dezembro de 1996.
No dia 13 de Dezembro de 1996, Jofre Rocha “faculta aos estudiosos da cultura angolana”,  o texto, “A voz igual”: Ensaios sobre Agostinho Neto”, a propósito do lançamento, em Luanda, da 2ª edição da obra homónima. Na sequência surgem os textos: “Relançando pontes para o Mundo. A literatura angolana no limiar do terceiro milénio”, I Encontro Internacional sobre Literatura Angolana, Luanda, 10 de Dezembro, 1997, “Passagens do percurso nacionalista de Agostinho Neto, e sua contribuição para libertação total de África”, 17 de Setembro, comemorações do 80º aniversário de António Agostinho Neto, e, por último, o texto “Encontro no tempo: tendências e influências no pensamento cultural de Agostinho Neto”, Mesa redonda realizada no Centro Cultural Agostinho Neto, em Setembro de 2001.

 Percurso

Jofre Rocha, pseudónimo literário de Roberto António Victor Francisco de Almeida, nasceu no dia 5 de Fevereiro de 1941,  em Kaxicane, província do Bengo. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos e Vice-Presidente do MPLA, publicou designadamente: “Tempo de Cicio (1973, poesia), Estórias do Musseque (1976, contos), “Assim se fez madrugada” (1977, poesia), “Estórias de Kapangombe”  (1978, conto), “Crónicas de ontem e de sempre” (1985, crónicas), “Estória completa da confusão que entrou na vida do ajudante Venâncio João, e da desgraça do cunhado dele Lucas Manuel” (1985,conto), “60 canções de amor e luta” (1988, poesia),  “Entre Sonho e Desvario” (1989, prosa), “Meu nome é Moisés Mulambo”(2003, conto), e  “Intervenções sobre literatura, artes e cultura” (2004, textos dispersos).

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