Imprensa homenageia Manoel de Oliveira


7 de Abril, 2015

Fotografia: Reuters

Os jornais franceses homenagearam ontem o realizador Manoel de Oliveira, em especial o “Libération”, que publicou na primeira página uma fotografia do cineasta português com Chiara Mastroianni no filme “A Carta”, e o “Le Monde” que o lembrou como “um homem excepcional cuja vitalidade parecia afastar a Morte”.

Na capa, o “Libération” publicou a chamada “Manoel de Oliveira, um Século de Cinema”, que remete para um dossier de quatro páginas, iniciado com um artigo intitulado “Viva Oliveira!”, que inclui uma biografia, uma selecção de obras e a recolha de testemunhos sobre o cineasta.
“A notícia da morte de Manoel de Oliveira, aos 106 anos (e meio!), não tem nada de surpreendente, à priori, mas este desaparecimento - mais do que qualquer outro de um grande e amado realizador- dá vertigens porque a longevidade, a produtividade, assim como o desconcertante vigor das últimas aparições do português centenário tinham semeado nos espíritos a ideia de imortalidade”, escreve o diário.
Na filmografia salienta “quatro filmes maiores”: “O Estranho Caso de Angélica” (2010), “Vou Para Casa” (2001), “Vale Abraão” (1993) e “A Vã Glória De Mandar” (1990).
“Uma filmografia considerada intimista pela duração dos seus segmentos, prolífica mistura de lembranças e cultura, inclinações utópicas, estatura intelectual e política elevada ou pela dificuldade em situar a época a partir da qual ele nos falava tão cruelmente da nossa”, refere o jornal.
O “Libération” recolheu também uma série de testemunhos sobre Manoel de Oliveira, como os dos realizador Miguel Gomes (“Tabu”) para quem “morreu um dos maiores cineastas portugueses de todos os tempos” e o João Pedro Rodrigues (“O Fantasma”) que declarou que “foi preciso esperar a celebridade mundial para que Portugal o reconhecesse como um gigante”.
O diário francês também ouviu a actriz Catherine Deneuve - que trabalhou com Manoel de Oliveira em “O Convento” (1995) e “Um Filme Falado” (2003), que o descreveu como um realizador “muito especial, ao mesmo tempo sedutor e autoritário, e muitas vezes encantador”.
O actor francês Michael Lonsdale, que entrou em “O Gebo e A Sombra” (2012), disse estar “muito triste”, admitindo ter “sonhado trabalhar com ele durante anos” e lembrando-o como “um homem misterioso” e “uma personagem à margem capaz de fazer tudo o que quer”.
O diário “La Croix” também chamou para a capa “A Morte de Manoel de Oliveira, um Gigante do Cinema”, conhecido por ser “o último cineasta vivo a ter começado a carreira no tempo do cinema mudo”.
“A obra de Manoel de Oliveira foi importante na difusão da cultura portuguesa em França, ainda que o tenham culpado de ocupar demasiado espaço e de eclipsar outros cineastas lusitanos”, escreve o jornal que lembra que foi em França que o realizador “encontrou os meios financeiros para as suas ambições”.
O “Le Figaro” descreve-o como “um pioneiro da sétima arte portuguesa, que foi durante muito tempo um artesão solitário, produtor, argumentista, realizador e editor dos seus filmes” e recorda que Manoel de Oliveira “atraiu para a sua câmara os actores Mastroianni, Deneuve, Piccoli”. “As estrelas gostavam de entrar nos seus feitiços divertidos. Ele não parava de filmar, como que para recuperar o tempo perdido, aproveitando a imensa cultura de grande europeu com uma frescura de imaginação sempre nova. É assim que é preciso vê-lo partir de agora”, conclui o diário.

Biografia do cineasta

Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu no Porto a 11 de Dezembro de 1908 e faleceu a 2 deste mês. Foi um cineasta português e era, à data da sua morte, o mais velho realizador do mundo em actividade. Foi autor de 32 longas-metragens.
Manoel de Oliveira nasceu na freguesia de Cedofeita na cidade do Porto no seio de uma família da alta burguesia nortenha, com origens na pequena fidalguia. Ainda jovem foi para A Guarda, na Galiza, onde frequentou um colégio de jesuítas. Admite ter sido sempre mau aluno. Dedicou-se ao atletismo, tendo sido campeão português de salto à vara e atleta do Sport Club do Porto. Ainda antes dos filmes veio o automobilismo e a vida boémia. Eram habituais as tertúlias no Café Diana, na Póvoa de Varzim, com os amigos José Régio, Agustina Bessa-Luís, Luís Amaro de Oliveira, João Marques e outros. Cedo se interessou pelo cinema, o que o levaria a frequentar a escola do cineasta italiano Rino Lupo, quando este se radicou na cidade do Porto .

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA