Indústria do cinema aposta na juventude

Jomo Fortunato |
26 de Outubro, 2015

Fotografia: Paulino Damião

A APROCIMA, Associação Angolana dos Profissionais de Cinema e Audiovisual, realizou o primeiro curso intensivo de cinema, formação que abordou, como conteúdos de ensino, a escrita de argumento, formas de elaboração de um guião, produção, realização, interpretação, operação de câmara, edição, e noções de literatura,


domínios julgados imprescindíveis à concretização de um projecto cinematográfico.
Francisco Keth, secretário-geral da APROCIMA, recordou, ontem, a história dos ciclos formativos do cinema em Angola, nos seguintes termos: “A segunda geração do cinema e audiovisual angolano, que vai de 1985 a 2000, foi a mais sacrificada porque teve pouco mais de duas acções de formação, consequência do contexto de guerra que se vivia na altura, no entanto, mesmo estas, estiveram circunscritas aos profissionais da então Televisão Popular de Angola, incluindo militares angolanos que registavam os combates nos cenários de guerra”.
A APROCIMA, agremiação cinematográfica sem fins lucrativos, foi criada no dia 16 de Agosto de 2014, e tem como propósito social o desenvolvimento e a promoção do cinema angolano, incluindo a teledramaturgia e toda a produção audiovisual, bem como a defesa dos direitos e interesses dos seus associados. A instituição, como se pode ler nos seus estatutos, “pretende promover a formação profissional dos seus associados e da sociedade em geral voltada para o cinema e audiovisual, e desenvolver projectos que venham a congregar e defender os interesses artísticos e técnicos dos profissionais da sétima arte”.
Sérgio de Oliveira, Secretário para Formação da APROCIMA, que assumiu a coordenação do curso, informou o seguinte: “Este curso é o primeiro passo de um conjunto de acções que visam propiciar as condições para que, a curto prazo, Angola possa ter uma indústria do cinema. Falar de indústria, significa garantir as condições para produção de filmes de ficção, documentários e animação, com regularidade, bem como assegurar o circuito de distribuição e exibição”.

Formadores

Numa clara aposta nos quadros nacionais do cinema, a APROCIMA, convidou os seguintes formadores: Tomás Ferreira, interpretação, José do Nascimento, som,  Zizina Gourgel, produção, Domingos Magalhães, arquivo e conservação, Leonel Efe, realização, Sérgio Oliveira, argumento e guião, e Francisco Keth, edição. Aberto no dia 8 de Setembro de 2015, e encerrado no dia 14 de Outubro, nas instalações do Instituto Angolano de Cinema, Audiovisual e Multimedia , em Luanda, o primeiro curso da APROCIMA, veio celebrar os 40 anos da Independência Nacional, e participaram vinte formandos.
No fim do curso, os participantes apresentaram várias ideias para a concepção de um argumento como componente prática. Posteriormente, seguiu-se a escrita de um guião, baseado no argumento eleito da formanda Bliss Hama, e que resultou na produção de um filme, intitulado “Kuduro no Sangue”, uma curta-metragem que narra o desejo de Bezbo e Leo em seguir carreira de kuduristas, dois amigos provenientes do Huambo, que chegam a Luanda e não têm familiares nem condições para sobreviverem.

Projectos

Para além de prestar assessoria institucional às produções nacionais e estrangeiras, sobretudo as realizadas em território nacional, a APROCIMA  pretende defender a cultura angolana nas produções cinematográficas e audiovisuais angolanas,  cooperar com o Estado e a sociedade civil para o estabelecimento e implementação de políticas de desenvolvimento do cinema e audiovisual em todas as suas vertentes, visando a paz e harmonia social. Neste sentido, a associação vai desenvolver projectos e acções que visem resolver ou atenuar os numerosos constrangimentos e dificuldades que prejudiquem o desenvolvimento harmonioso do cinema e audiovisual nacional, promovendo a realização de festivais e mostras de cinema e audiovisual.

Depoimento

Orvanda da Cruz, uma das formandas que frequentou com êxito, o curso intensivo de cinema, avaliou a qualidade da acção formativa:  “O balanço foi positivo, aprendi de tudo um pouco sobre as diferentes áreas que compõem todo o processo da arte cinematográfica, desde o guião, produção, interpretação, realização, som e edição. O que me marcou foi o facto de saber que os profissionais de cinema devem saber que a sétima arte funciona de forma colectiva, ou seja, em equipa, e que cada profissional deve desempenhar com vontade e paixão a sua tarefa específica, colaborando com os demais membros da equipa. Também tive a possibilidade de me inteirar sobre a inexistência de um mercado cinematográfico, e saber que, infelizmente, a maioria dos profissionais trabalham empiricamente. Desta feita, há uma crescente e urgente necessidade de formação quer para os que já trabalham, quer para os que pretendem entrar no sector do cinema e dos audiovisuais. Neste sentido as empresas e instituições públicas, bem como as privadas, devem ter como exemplo a formação que a APROCIMA está a proporcionar ao público amante do cinema, pois só com formação poderemos enaltecer o cinema angolano”.

História

A história do cinema angolano, dos primórdios na era colonial, em 1913, passando pelo cinema socialista, em 1975, e das produções de inspiração bélica e do pós-guerra, sempre  reclamou a existência de projectos estruturados de formação superior. Logo depois da independência os franceses Bruno Moel, Antoine Bonfanti e Marcel Trillat, técnicos da “Unicité”, orientaram um curso de cinema e televisão para os quadros da então Televisão Popular de Angola. Neste período, teve formação a maioria dos profissonais da primeira geração,  que vai de 1975 a 1985, entre os quais os cineastas Asdrúbal Rebelo, Jaime Simões, e Correia Mendes, incluindo Beto Moura Pires, operador de câmara, e Leonel Éfe, director de fotografia e operador de câmara.
Fazem parte ainda da primeira geração, os cineastas Manuel Mariano, formado na Europa do Leste, António Ole que obteve uma bolsa, e seguiu para os EUA, onde foi diplomado. Estudou cultura afro-americana e cinema na Universidade da Califórnia (UCLA) e no Institute for Advanced Film Studies, em Los Angeles,  de 1981 a 1985, Zezé Gamboa que obteve, em 1984, o diploma de engenheiro de som na Néciphone, sob direcção de Antoine Bonfanti, em Paris, Orlando Fortunato que fez uma pós-graduação na Universidade Católica da América em ciências e geofísica, tendo retomado os estudos, desta vez no domínio do cinema,  na London International Film School, e Ruy Duarte de Carvalho que, em 1972, partiu para Londres, afim de estudar realização de cinema. 
Surgiu depois  a segunda geração do cinema e audiovisual, que vai de 1985 a 2000, com Dias Júnior, Tomás Ferreira, Ventura de Azevedo, José do Nascimento, Mariano Bartolomeu, José Silvestre, Nguxi dos Santos, e Domingos Magalhães, que tiveram como formação básica um curso dirigido por técnicos cubanos, em Luanda, em 1980, e cursos intensivos, ou formação superior tanto em  Portugal como em Cuba. Por último, o grande destaque vai para Maria João Ganga, uma das poucas mulheres da segunda geração do cinema, que obteve formação superior em teatro e cinema, em Paris, França.
Da terceira e nova geração de cineastas, com formação tanto em Angola como exterior, destacam-se  Adriano Botelho, Mawete Paciência, Bijú Garzim, Manuel Terramoto, Domingos Geovete, Pocas Pascoal, Henrique Narciso “Dito” e Francisco Júnior.

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