Cultura

Integração competitiva das tendências do Carnaval

Jomo Fortunato

A história dos povos tem demonstrado que os modelos comunicacionais, da esfera tradicional  da cultura, nem sempre estão em oposição com a modernidade, existindo uma complementaridade geracional ao longo do tempo.

Organização interna e formas de financiamento podem constituir o antídoto contra as assimetrias
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

A modernidade, enquanto estádio adulto da tradição, ergue-se num processo de ruptura parcial com a tradição, conservando sempre as linhas de força representativas dos valores do passado.
O conjunto dos valores identitários do carnaval angolano, representados pela tradição, em grupos como “União Operário Kabocomeu”, com a singular e expressiva kazukuta, o “União Mundo da Ilha”, “O União 54”, com a sonoridade das expressivas banheiras, e o “União Kiela”, com a vibração  do semba, constituem, pela exaltação dos valores da tradição, a identidade do carnaval tradicional angolano nos tempos modernos, facto que urge preservar.
No seu tempo, os “Unidos do Caxinde”, com a sua forma sumptuosa de exibição, representaram o paradigma da modernidade, reorientando os critérios clássicos de avaliação - dança, canção, corte, painel, comandante, alegoria, e falange de apoio - baseados num regulamento que, estruturalmente, remonta aos primórdios do Carnaval da Vitória, que reclama, pela exigência dos novos tempos, uma profunda discussão e revisão.
Se os aspectos artísticos da tradição, sobretudo a estrutura rítmica da canção, dança, corte, alegoria e adereços, constituírem a base dos critérios de avaliação, estamos longe de considerar os “Unidos do Caxinde” um modelo da tradição. Contudo, se, inversamente, a avaliação do júri exaltar a mudança, a permeabilidade ao novo, incluindo a absorção dos ventos de outras paragens, os “Unidos do Caxinde” foram, inequivocamente, o modelo da modernidade.
A organização interna e formas de financiamento dos grupos de carnaval, engajando, para o efeito, os grandes grupos empresariais de forma directa, podem vir a constituir o antídoto contra as assimetrias materiais entre os grupos, nivelando as formas de apresentação e prestação artística no grande desfile.

Plano

Será pertinente a criação de um “Plano Nacional de Reorganização do Carnaval” que visa imprimir mudanças estruturais na forma de organização do Carnaval Nacional, num processo que engajaria os Governos provinciais, representantes dos Grupos de Carnaval, Blocos de Animação, Associação Provincial do Carnaval de Luanda (APROCAL), Comissão Nacional Preparatória do Carnaval, Direcções Provinciais da Cultura, Associações Culturais e todos os intervenientes na  realização do Carnaval, incluindo convidados e demais interessados. 
O referido plano teria os seguintes objectivos: melhorar o estado actual de realização do carnaval, reorganizar a estrutura interna dos grupos, rentabilizar a sede dos grupos, transformar os grupos em associações, realizar eleições e potenciar o estatuto da APROCAL, criar associações do carnaval nas Províncias, documentar, em vídeo, ou em outros suportes de registo, a história do carnaval, criar estratégias de transformar o Carnaval em produto turístico, e definir o número de foliões dos Grupos de Carnaval, no grande desfile central. Não sendo conclusivo, o “Plano Nacional de Reorganização do Carnaval”, visa instaurar um debate alargado com os principais intervenientes na realização do carnaval angolano, procurando consensos para uma festa que se pretende mais organizada e participativa.  Entendemos que o carnaval deve ser preparado ao longo do ano, pelo que se deve criar um calendário de reuniões de auscultação com os grupos, para que as suas necessidades sejam geridas e atendidas, atempadamente, de maneira racional e adequada. 

Blocos
O surgimento mediático dos Blocos de Animação trouxe consigo uma participação eufórica da juventude, que introduziu uma nova linguagem e forma de exibição no Carnaval actual.  Os Blocos são a parte visível de um novo traço cultural, que tem contribuído para a redefinição do Carnaval, e podem evoluir para verdadeiros Grupos de carnaval, o que, de certo modo, poderá reduzir o peso da participação do Estado. Os Blocos de Animação caminham, cada vez mais, para uma auto-sustentação e muitos deles são provenientes de agremiações culturais e grupos empresariais, com estatutos e funcionalidade própria. Daí que esteja em aberto a criação de uma Classe D, constituída pelos Blocos de Animação que poderão passar, depois de uma discussão alargada e séria, à competição geral.
 
Kuduro
Enveredar pela modernidade na tradição, conservando os traços culturais de identidade colectiva, deve ser o princípio de adaptação do carnaval aos novos tempos.  Tal como o semba, a varina, a tchianda e a kazucuta, danças de proveniência popular, emigraram para o carnaval, o kuduro, enquanto género musical e dança de expressão internacional, deve figurar, naturalmente, na contemporaneidade do carnaval com a criação de um grupo potente que venha a promover esta expressão artística. A dança, um dos suportes emblemáticos  do kuduro, possui uma plasticidade coreográfica reconhecidamente angolana, que sobrevaloriza o ritmo e a palavra inusitada, características de fácil introdução no ritmo do carnaval. As ocorrências do quotidiano dos bairros, a crítica social e política, os comportamentos, os defeitos do adversário, o enaltecimento de virtudes, a auto-promoção, são os temas e  estratégias recorrentes de composição temática dos textos do kuduro, que, resguardando o conteúdo moral dos textos, devem evitar no carnaval o uso irreverente da palavra obscena .

Adereços
As estratégias de restauro dos adereços, para melhorar a forma de apresentação dos Grupos, passa pelo engajamento de profissionais dos vários domínios da arte e dos ofícios que intervêm no processo de criação da estética do Carnaval: artistas plásticos, carpinteiros, funileiros e empresas em condições de fornecer materiais passíveis de serem introduzidos no Carnaval. 

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