Cultura

Joãozinho Morgado o rei dos tambores

É tratado como o Rei dos Tambores e considerado como o homem que marcou o compasso do Semba. Das palmas das suas mãos, passaram muitos sucessos da música angolana. Referimo-nos ao Mestre Joãozinho dos Tambores, homem do B.O., que nos últimos anos fixou residência no Prenda e no dia 7 de Fevereiro celebrou mais um aniversário.

Fotografia: DR

Os dotes de Joãozinho Morgado podem ser sentidos em canções como “Lemba” e “Minha Cidade é Linda”, na voz do amigo Dionísio Rocha, acompanhado pelos Negoleiros do Ritmo, “Kua Dila”, de Teta Lando, “Bartolomeu” e “Nzenze”, de Prado Paim, “Kuale Ngo Valodo”, de Carlos Lamartine, ou “Kamba Diami”, de David Zé, temas dos anos 70. Mais tarde, na época do ressurgimento da produção discográfica, em “Kambuila” e “Balabina”, de Filipe Mukenga, “Manuele”, na voz de Sabú Guimarães, e em “Mucagiami”, “Manazinha” e outros sucessos de Carlos Burity. Num outro momento para acordar a música angolana “Balumuka”, dos Mendes Brothers, assim como “Angola Kuia”.
Outros sucessos como “Serenata a Angola”, de Paulo Flores, “Kiene Kia Tuxinde”, com Yuri da Cunha, e outros com músicos de uma outra geração ajudam a traçar o perfil geracional do artista que aceita a “Declaração de Amor”, tema onde Matias Damásio faz uma ode ao Semba, convidando o Rei Elias e o Rei das Tumbas que também esteve na chamada renovação estética de André Mingas.
Não foi por acaso que o famoso “Camaradas Pato Fora”, oficialmente “Cinco de Julho”, instrumental dos Merengues, com solos de Zé Keno, ficou como última sugestão. Com esta formação, encontramos algumas das mais aclamadas batidas emanadas das mãos mágicas de Joãozinho Morgado.
João Lourenço Morgado é homem de mudanças, neste caso, de inovações rítmicas, mas sempre mantendo a verticalidade da música angolana de raiz que desde muito cedo aprendeu.
Com discrição, João Lourenço Morgado celebrou o seu aniversário, mas os amantes e amigos da música angolana deram aquele abraço e mostraram o seu reconhecimento, apesar do silêncio das autoridades.
Paulo Flores, no tema “Farrar”, foi feliz ao cantar “esse grande tumbador, cota Joãozinho Morgado, filho de um tocador, sanfoneiro Mestre Geraldo, sua mãe, a lavadeira, ensinou sua primeira canção de uma vida inteira: o Semba, como hoje é chamado”. Curiosamente o mesmo Semba que o Governo Angolano pretende apresentar como Património Imaterial da Humanidade na Unesco, mas que altas figuras do ministério de tutela - num concerto do autor que diz ser o Semba a nossa bandeira, numa iniciativa de apresentar o Mestre - simplesmente ignoraram, o que pode ficar demonstrado como está a ser feito o trabalho de casa.
Mas aqui importa partilhar algumas revelações feitas pelo menino prodígio dos tambores que, aos 7 de Fevereiro de 1947, nasceu na Missão do São Paulo, no frenético Bairro Operário (B.O.), filho de Geraldo Morgado e de Antónia João Martins, também conhecida como Antónia Dya Geraldo, ambos enraizados nas manifestações culturais.
O pai sanfoneiro, professor de dança, dinamizador da rebita e do grupo carnavalesco e a mãe tocadora de tambores e de outros instrumentos de percussão em ambientes festivos, e outros ligados a sessões de calundús, proporcionaram ao garoto um meio cultural onde os tambores marcaram o compasso da sua infância. Joãozinho confidenciou que o Mestre do pai inicialmente surgiu porque trabalhava na área de obras da Câmara Municipal e depois pela ligação nas lides culturais.
Foi neste quadro que começou a acompanhar a Turma do Santo Rosa e formações carnavalescas que passavam pelo Bairro Operário, universo que o encantava e o ajudou a desenvolver habilidades nos tambores, tocando em tudo que aparecesse, desde panelas, barris, latas e muito mais.
Aos 8 anos despertou o interesse do empresário e dinamizador cultural Luís Montês que numa passagem pelo B.O. ficou admirado ao encontrar o miúdo tocando três tambores. Foi nessa fase que começou a reunir outros
amigos para criar os Negoleiros do Ritmo, tais como Infeliz e Geoveth.
Com os Negoleiros do Ritmo fez a sua primeira actuação em Portugal e gravou toda a obra discográfica do conjunto, que cantou “Minha Cidade é Linda”, “Riquita”, “Ai Compadre” e outros sucessos que o tornaram numa das formações mais requisitadas para os bailes em Angola.
Nessa formação esteve com Dionísio Rocha, Almerindo, Mário Fernandes, Zé Fininho e Carlitos Vieira Dias, o colega que em 1974 o levou para a Companhia de Discos de Angola (CDA) para tocar nos Merengues, formação que na época reuniu os melhores executantes.
Com os Merengues participou em obras magistrais da música angolana como “Angola Ano Um", “Independência”, “Mutudi Ua Ufolo” e "Bartolomeu”, respectivamente de Carlos Lamartine, Teta Lando, David Zé, Prado Paim e tantas outras que marcam a história da indústria discográfica bastante produtiva nos anos 70.
Joãozinho dos Tambores, nessa fase, não apenas gravou temas hoje considerados clássicos, mas criou o andamento e marcações do Semba que sempre que pode faz demonstração com um tambor. Mas o seu sonho é o da criação de uma escola de percussão.
Depois deixa os tambores dos Merengues e vai tocando com outras formações. O Semba Tropical é outro conjunto por onde passou e destaca a participação no Canto Livre de Angola no Brasil, a Banda Madizeza e a Banda Welchitchia são outros projectos dos quais se orgulha, assim como a experiência americana com a comunidade cabo-verdiana em Boston, quando excursionou com os Mendes Brothers, quando os irmãos apresentavam uma proposta assente na música angolana.
Trabalhou com Elias Dya Kimuezo, André Mingas, Carlos Burity, Paulo Flores, Filipe Mukenga, Yuri da Cunha, Nelo Paim, Carlos Vieira Dias, Matias Damásio, Paulo Flores, Botto Trindade, Dionísio Rocha, Carlos Lamartine, Carlos Timóteo Calili, Zeca Tirilene, Zé Fininho, Teddy Nsingui, Betinho Feijó, dentre outros com créditos no Semba, Kilapanga e outros ritmos nacionais. Um tamborista jovial apesar de ser um sexagenário.
Lembra com grande emoção a passagem pela sala Cecília Meireles do Rio de Janeiro e dos concertos em Londres com o Semba Tropical, com grandes nomes da música angolana. De momentos marcantes a passagem por Cabo-Verde em 1976 com o Conjunto Merengue é memorável e não esquece a digressão com Yuri da Cunha pela Sony com Eros Ramazotti. Uma outra fase internacional que gosta de mencionar é a participação no Conjunto Angola 70 formação revivalista da música angolana que fez duas grandes digressões pela Europa e festivais de música em Marrocos.
O último projecto discográfico que está envolvido é a Turma da Bênção, um disco onde pela primeira vez, solta a voz em Morgadinho um instrumental onde faz animação. Neste projecto Paulo Flores, Teddy Nsingui, Botto Trindade, Galiano Neto, Pirica e Mayo Bass são alguns nomes que participam nesta iniciativa intergeracional. Na fase de gravação do projecto apresentou-se em Outubro no B.leza em Lisboa e participou em oficinas de percussão no Bairro Alto com a participação de referências da música africana residentes em Lisboa como o cabo-verdiano Paulino Vieira, Waldemar Bastos e artistas emergentes.

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