Cultura

José Mena Abrantes recebe distinção no auditório Pepetela

Manuel Alnbano |

O som forte do batuque e do chocalho, transportado pela poesia de um texto recheado de mensagens filosófica, história, política, amor, ódio e a exaltação da liberdade dos indígenas na luta contra a opressão, foi o mote da apresentação da peça de teatro “A mesa”, do dramaturgo José Mena Abrantes na abertura da segunda edição do Circuito Internacional de Teatro (CIT), que decorreu na sexta-feira, no Camões - Centro Cultural Português, em Luanda.

A peça que marcou o “ponta pé de saída” do festival resultou numa actuação de cinco estrelas interpretada pelas actrizes Judite de Lemos e Rosa Kahamba, com a sala cheia de pessoas ligadas às artes, com particular destaque para o teatro, que não quiseram perder o momento de homenagem e celebração dos “50 anos de Mena”, como dramaturgo e encenador.
Em aproximadamente 40 minutos, as actrizes abriram o festival com “chave-de-ouro, conseguindo transportar o público para um passeio histórico pelas adversidades que muitos africanos sofreram, sem poder expressar os seus sentimentos e ideais, fruto da colonização selvagem a que foram submetidos durante décadas.
Embora a peça faça uma viagem cronológica no tempo, realçando ou transmitindo aspectos convergentes e divergentes entre o tradicional e o contemporâneo, pretendeu acima de tudo espelhar a identidade e a marca de um dos melhores dramaturgos do país.
A peça mostra a difícil adaptação de uma jovem às grandes cidades, desalojada “esforçadamente” da aldeia para viver nas grandes metrópoles, fruto do processo da colonização. O espectáculo foi trabalhado ao pormenor, razão pela qual a plateia comprovou o desempenho de cada uma das personagens na peça. Num outro momento, ouviram-se aplausos merecidos quando as actrizes interpretaram poemas de Agostinho Neto, que ajudaram a impulsionar a luta armada contra o colonialismo.
As actrizes interpretaram os temas Muxima, de Rui Mingas e Humbi Humbi, de Filipe Mukenga. O momento cultural continuou com o grupo de dança tradicional Tremura Show, a exibição de alguns extractos da peça de teatro Stop Malária, com a interpretação de Soraia e Agu, e o momento musical com Nell Jazz, dando outro colorido ao projecto Cultura para Todos da Companhia de Teatro Pitabel. O director do Elinga viu uma vez mais o seu trabalho de meio século em prol do teatro reconhecido, não apenas pela classe artística nacional, mas também internacional, visível durante a projecção de depoimentos de figuras do teatro, como o encenador e presidente da Associação Angolana de Teatro (AAT),
Adelino Caracol, Pulguéria Van-Dúnem, Raul do Rosário, o moçambicano Santana e o brasileiro Yarú, antigo aluno de José Mena Abrantes, fe familiares. Nesta singela homenagem a uma grande figura da arte dramática angolana, com o maior número de peças de teatro publicadas, José Mena Abrantes tem um percurso de ouro também como ficcionista, poeta, jornalista, actor e director de cena, destacando-se também como membro fundador do Teatro Elinga.

Artes plásticas

Depois da homenagem, foi inaugurada no Camões - Centro Cultural Português a primeira exposição individual de pintura de José Mena Abrantes, que deu a conhecer ao público de Luanda mais uma faceta da sua criação multidisciplinar. O autor é também reconhecido e admirado pela sua humildade e pelo perfil humanista e solidário. A exposição comporta 81quadros, com destaque para “Criação do homem I, II, III e IV”, “Espelho meu”, “Celebração”, “Mulher felina”, “Menino soldado”, “Presença ancestral”, “Copo de água”, “Auto-retrato” e “Fio dental”. José Mena Abrantes disse que é o resultado de vários anos de trabalho de observação da vida, em todos os lugares, e esteve sempre presente o “vício de desenhar, o único que me devolve aquela boa sensação de não ter de fazer nada na vida, motivo por que achei também ser capaz de pintar”. A directora do Camões, Teresa Mateus, elogiou a iniciativa dos organizadores,  e definiu Mena Abrantes como humanista invulgar munido de afectos. O director do CIT, Adérito Rodrigues “BI”, destacou o facto de a primeira edição do festival ter permitido a internacionalização de vários grupos. Também permitiu criar parcerias públicas e privadas, bem como promover e divulgar o festival.

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