Cultura

Kikondi a bênção da fertilidade

Manuel Albano

Transmitida de geração a geração, Kikondi é uma boneca de fecundidade que tem como função a fertilidade e a procriação da menina que depende da acção desse talismã, sem a qual a continuidade da vida humana seria impossível.

Boneca de fecundidade exposta em Luanda tem como função a fertilidade e procriação da menina que depende da acção da talismã
Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

O amuleto é feito por uma das irmãs casadas, entregue à menina e deve ser bem preservado até ao nascimento do seu primeiro filho. A peça é uma figura antropomórfica (em forma de boneca), representando uma rapariga adolescente, feita à volta de um pedaço de tronco de madeira revestida de malhas e fibras vegetais e uma cabeleira com tranças finas, representando o tipo de penteado usado pelas raparigas antes da puberdade.
Os olhos são assinalados com duas tachas de latão, os seios e o umbigo por pequenos nós de fibras. Na cultura bantu como em outras, a perpetuação e o alargamento da família é condição essencial para se ter uma posição social privilegiada. Para o efeito, é elaborada a Kikondi que simboliza a fertilidade das futuras mães.
O amuleto pertencente ao grupo etnolinguístico nyaneka-humbi, encontra-se estabelecido no espaço do curso médio do rio Cunene, com maior incidência na província da Huíla.
O grupo é formado por pastores e criadores de gado que praticam também agricultura, que constitui uma das principais actividades e subdivide-se em vários subgrupos entre os mumwuila, mungambwe, oxilenge-muso, ovaxilenge, ovahanda, ovaximpungu, ovadonguena, ovakwankwa e ovakhumbi.
Na cultura bantu, por exemplo, não se pode conceber uma vida sem ritos. É assim que os ritos de iniciação da mulher, na sociedade angolana, constituem um processo de transferência de traços socioculturais, os quais não se fazem num tempo único.Realiza-se o mesmo ritual desde a infância e, mesmo antes, na puberdade, na idade adulta e, às vezes, depois desta etapa da vida, por serem cerimónias de diferentes fases de integração da mulher na sociedade.
Assim, desde o nascimento, a menina é submetida aos ritos de confirmação de nome “maviza”(bakongo: Zaire, Uíge e Cabinda) ou “kufundumuna mwana” (cokwe: Moxico e Lundas); o rito de fecundidade “kikondi” (mumuíla: Huíla) e o rito de iniciação, “efundula” (mumuíla: Huíla); e “cikumbi” (Cokwe: Moxico, Lundas Norte e Sul); “casa das tintas” (woyo: Cabinda).

História a preservar
 
De acordo com a chefe de departamento de Museologia e Conservação do Museu Nacional de Antropologia, em Luanda, Evelize Njinga, a ideia é assegurar a divulgação do acervo cultural para fins educativos. Evelize Njinga reconheceu a importância do projecto “A Peça do Mês”, de divulgação das peças do museu, que tem ajudado a aumentar o nível de conhecimento dos angolanos e estrangeiros, sobre os espólios etnográficos que descrevem o quotidiano dos diferentes grupos etnolinguísticos de Angola.
Localizado no bairro dos Coqueiros, na Baixa da cidade, o Museu Nacional de Antropologia está parcialmente aberto ao público, por motivos de obras de melhoria da sua estrutura física. Algumas actividades dirigidas são realizadas no sentido de manter-se o público familiarizado com o acervo, principalmente dos estudantes que procuram os serviços do museu fundado a 13 de Novembro de 1976. O Museu Nacional de Antropologia foi a primeira instituição museológica criada após a Independência Nacional ocorrida um ano antes. Esta instituição de carácter científico, cultural e educativo está vocacionada para a recolha, investigação, conservação, valorização e divulgação do património cultural nacional.
O museu tem 14 salas distribuídas por dois andares que abrigam peças tradicionais, designadamente utensílios agrícolas, de caça e pesca, fundição de ferro, instrumentos musicais, jóias, peças de pano feito de cascas de árvores e fotografias dos povos khoisan. Além do seu núcleo permanente, o museu recebe  exposições temporárias.
Em Novembro do ano passado, o museu ganhou o seu depósito central, contíguo ao edifício principal, localizado na Baixa de Luanda. O mesmo é um espaço indispensável para a conservação da maior parte das colecções do museu que lhe permitem diversificar as suas ofertas educativas através de exposições temporárias.

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