Kiluanji kia Henda sonha com Museu de Arte em Angola

Adriano de Melo |
19 de Agosto, 2016

Kiluanji kia Henda, uma das “vozes” da nova geração de artistas, que tem despontado no estrangeiro, com diversos convites para expor os seus trabalhos, elogiou, ontem, o trabalho feito por muitos artistas, não só em Angola, mas também em África, que têm ajudado a mostrar a identidade e as mudanças do contemporâneo em mostras colectivas e individuais.

Jornal de Angola - Como avalia hoje a fotografia em Angola?

Kiluanji kia Henda -
A fotografia em Angola vive um momento áureo no que diz respeito ao número de pessoas que se dedicam a esta paixão. Entre amantes e profissionais, a facilidade que se tem hoje ao acesso a máquinas fotográficas permitiu que se tornasse numa linguagem mais popular. Mas é verdade que muito tem que ser feito em termos de dar visibilidade aos trabalhos realizados. As redes sociais por certo são uma ferramenta de comunicação bastante eficaz, mas não é suficiente, precisamos de publicações especializadas em fotografia e também mais exposições.

Jornal de Angola - Com o advento das novas tecnologias, como distinguir um artista de um amador?

Kiluanji  kia Henda -
O artista tem um compromisso com um determinado público e expor o seu trabalho é fundamental para a sua prática. Isso também envolve uma responsabilidade de ordem social e económica. Conheço fotógrafos amadores muito bons, mas que não têm nem pretendem usar a fotografia como uma linguagem que os permita comunicar com um público maior, ou ser representado por toda uma estrutura ou instituições que legitimam o trabalho artístico. Muitas pessoas sabem escrever, mas a decisão de publicar um livro envolve responsabilidades que definem o papel que desempenhamos na sociedade, por isso o amador não deixa de ser um artista no seu espaço intimo, mas sem essa dimensão profissional que é extremamente relevante quando decidimos realizar uma imagem.

Jornal de Angola - O mercado já têm espaço para o “artista da fotografia”?

Kiluanji kia Henda -
A fotografia entrou para o mercado da arte no final do século XX e muito deveu-se também ao uso desta linguagem pelos artistas da arte pop e da conceptual, nas décadas de 60 e 70. Mas neste momento, não arriscaria muito em afirmar que a fotografia é a linguagem artística mais importante para a divulgação da arte feita em África internacionalmente. A lista de nomes de artistas africanos que trabalham com fotografia em eventos artísticos e prémios internacionais, é bem superior do que nas outras áreas artísticas. A facilidade que a fotografia nos oferece para interpretar a sociedade e na construção de novos imaginários, com certeza tiveram um impacto no mercado. Mas confesso que o facto de ser um meio reproduzível, ou seja que nos permite fazer várias edições de um mesmo trabalho, ainda causa um certo cepticismo no mercado angolano, mas muitas vezes cabe ao artista orientar o próprio mercado e os seus protagonistas.

Jornal de Angola - Que projectos podem dar dinâmica ao sector?

Kiluanji kia Henda -
É preciso um investimento maior em plataformas que permitam dar visibilidade a fotografia, tal como outros meios artísticos. A bem pouco tempo o artista Guilherme Mampuya falou da importância, de se criar, urgentemente, um museu ou um centro dedicado exclusivamente a arte. Eu e muitos outros artistas achamos imprescindível a criação de um museu, isso daria muito mais dignidade a classe. Por outro lado, devo dizer que adoro mostrar o meu trabalho em exposições, mas elas são eventos efémeros e muitas vezes por questões de produção, são limitativas quanto ao verdadeiro potencial de um fotógrafo profissional ou de um artista. Acredito que seria de extrema importância trabalhar em publicações. Já existe um bom número de fotógrafos que se dedicam a essa paixão a cada dia, a possibilidade de poder publicar um livro seria eternizar este olhar, e acima de tudo deixar um documento que seria relevante para a educação visual e no processo de criação das gerações vindouras.

Jornal de Angola - A fotografia é “o refúgio do pintor frustrado”?

Kiluanji kia Henda -
Não, gosto  da pintura mas nunca pensei ser pintor. A pintura exige disciplina e dedicação. Infelizmente, sempre houve um olhar limitativo quanto a ideia do que é ser artista. A definição clássica passa por expressões como pintura ou escultura. Sinto-me feliz por ter nascido numa era em que a definição de artista é ampla e o que entendemos por arte pode ser constantemente questionado.

Jornal de Angola - A linha que divide o fotógrafo profissional do artístico é visível?

Kiluanji kia Henda -
O artista também é profissional. A questão do profissionalismo está sempre ligada ao factor económico e o que temos em comum é ambos dependermos da fotografia para pagar as contas. Mas, claro que comparando os fotógrafos que trabalham com publicidade ou em jornalismo, é evidente que o artista tem uma liberdade maior, na escolha dos temas que decide trabalhar, assim também como em termos estéticos e conceptuais.

Jornal de  Angola - Qual o “objecto de estudo” do seu trabalho?

Kiluanji kia Henda -
Sou um apaixonado pela história, mas como sou artista e não um historiador, compete-me criar novas histórias. Gosto de pensar na relação entre o passado e o futuro. No meu trabalho quase existe uma rejeição do presente. Acredito na arte como um meio que nos permite viver diferentes temporalidades, por isso não somos obrigados a ser um espelho da realidade ao nosso redor. Podemos sempre encontrar novas interpretações para os factos históricos, como também fantasiar sobre um possível futuro. Dá-me um imenso prazer desfrutar da dimensão onírica no universo arte, sem descurar completamente do seu importante papel social e político.

Jornal de Angola - Quais os seus próximos projectos?

Kilunaji kia Henda -
Neste momento estou a trabalhar para um filme de curta-metragem. Espero realizar uma exposição individual, em breve, em Luanda. Boa parte da exposição é constituída por trabalhos novos, alguns em vídeo e objectos (escultura). Além disso, estou a realizar, desde o inicio do ano, um grande projecto que é apresentado em finais de Setembro na Áustria relacionado com a crise de refugiados que assola a Europa. Foi um convite feito pela direcção do Festival de Arte Multidisciplinar, em Graz, realizado desde 1968.

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