Cultura

Live no Kubico: Ntunda Nzola, Cangato e Chetekela fazem público mergular na tradição

Analtino Santos

Depois de ter sido convidado para a edição do Carnaval de Luanda em 2016, na sua versão banda, os Ntunda Nzola voltaram a encantar o país. Com o seu ritmo principal, o Kintwene, fizeram recurso aos seus principais sucessos “Mayombe Ngombe”, “Dr Mayuya”, “Talanga Bana”, “Keni Mundiatulo” “Bala Kumbala, “Batslele Kubi Tsiami”, “Bissina”, “Kinvuela” e outros, interpretados pelos vocalistas Mambueni, Massota, Manabela e Afonso.

Fotografia: DR

O grupo apresentou temas dos álbuns “Ku Maiombe”, “Mbazu Bisuka” e “Buissi ku Makia”. Os Ntunda Nzola fizeram recurso tanto a instrumentos típicos dos Ibindas como aos mais convencionais. Foram fiéis representantes de Cabinda, com a sua música a casar-se muito bem com a dança.
A presença do grupo resultou de um esforço do Governo Provincial de Cabinda, que foi determinante para a organização deste Live no Kubico, cujos promotores foram pressionados a trazer o ritmo da província mais a Norte.

Cangato, o ex-futebolista

Do Namibe veio uma das principais figuras da música local, Cangato, que reforçou a intenção da diversidade e da pluralidade rítmica nacional. Cangato antes de brilhar nos palcos deu alegrias ao público nos campos de futebol, tendo envergado a camisola do Petro de Luanda.  A participação musical do Namibe no Live no Kubico, tal como a de Cabinda, não foi apenas musical. A gastronomia e outras manifestações culturais ajudaram a colorir o cenário do Live.

Cangato apresentou-se com a banda de suporte de Chetekela e com um formato, mais reduzido, das cerimónias dos Mucubais. As palmas, a percussão e alguns toques do Ngolo, que segundo pesquisadores está na génese da Capoeira, marcaram a actuação original de Cangato na interpretação dos temas “Ndombeshow”, “Eolindow” e “Kamamico”.

O artista também fez incursão no Semba. Do seu reportório o destaque foi para “Namibe”, “Sofia Rosa”, “Eme Kimguejiami”, “Ndondoro Danuma”, “Juju” e “Samungari”. Por outro lado, a presença do grupo carnavalesco Santa Rita mostrou a força do Carnaval do Namibe com os temas “Foca Fofinha”. e “Recordar é Viver”.  A actuação de Cangato foi a prova de que no Namibe existe um oásis musical. Ele mexeu com os Kimbaris em Angola e no exterior.

Chetekela: dupla pertença

Das três propostas do Live no Kubico Chetekela foi o único que não atravessou as barreiras sanitárias impostas pelas autoridades. O artista, que representou a Lunda-Norte, abriu o concerto mostrando a forte influência que tem do Congo Democrático, com uma performance à Fally Pupa e Ferry Gola, com o tema “Superação”. Fez ainda alguns covers da sua actuação como Gato Rivers no Estrelas ao Palco.

Interessante foi a sua incursão ao ritmo Mutuaji, que tem na congolesa Tshala Mwana uma das principais referências. Com esse estilo o músico revelou a sua costela Baluba, grupo étnico transfronteiriço angolano/congolês-democrático. Depois de temas autorais como “Adrenalina do Amor”, “Obrigado Mãe”, “Wsona”, “Pho wa Kalunda”, “Kima Kimoshi” e “Kasemumuna”, dentre outros, o músico chamou ao palco Sandra Nhakatolo, com quem partilhou a interpretação do tema “Nha Tshissola”, um momento de Cianda e de exaltação aos valores culturais do Leste.

Chetekela ainda deu o seu “toque” em “Namuleleno”, Cianda que saiu da Mukanda e hoje é dos principais temas representativos do estilo trazido à ribalta da modernidade pelo grupo Sagrada Esperança, uma das formações musicais originárias da Lunda-Norte que mais brilhou no panorama nacional.

Os últimos Live do Kubico, com as suas incursões na musicalidade tradicional das várias regiões do país e o manifesto sucesso no seio dos telespectadores e internautas, fazem pensar que os angolanos estão a despertar e a regressar, na esteira do poema de Agostinho Neto “Havemos de Voltar”, à apreciação dos sons dos batuques, das marimbas e de outros “cheiros” sonoros angolanos de raiz.

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