A estética e cultura da poesia de Neto

Francisco Pedro|
16 de Setembro, 2014

Fotografia: Santos Pedro

A importância estética e cultural da poesia de Agostinho Neto para a literatura angolana e para a nova geração de autores foi apresentada e debatida ontem, no Palácio da Justiça, em Luanda, durante um colóquio.

Denominado “Agostinho Neto e a Literatura Angolana”, o colóquio centrou-se principalmente no conteúdo de alguns livros e poemas de Agostinho Neto, como “Havemos de Voltar”, considerado por José Luís Mendonça um dos maiores escritos em português.
O escritor, que foi um dos oradores do primeiro painel, “Agostinho Neto - Homem de Cultura”, elogiou o jogo rítmico da poesia de Neto por lembrar uma canção, assente no realismo e na necessidade de libertação, assim como de voltar às origens e às tradições.
O Poeta Maior, sustentou José Luís Mendonça, utilizou em “Havemos de Voltar” “termos próprios do vocabulário africano, que lhe conferem uma grandeza”. Além disso, destacou, é também um dos poemas mais conhecidos e referenciados pela nova geração.
José Luís Mendonça fez igualmente menção às críticas negativas que nos últimos anos surgiram em torno da poesia de Agostinho Neto, as quais considerou de “revanchismo político, feito com a intenção de atacar o partido no poder e o Executivo, através de um denegrir da sua figura”.
O escritor Luís Kandjimbo, que foi outro dos oradores, falou sobre “Os intelectuais e a teoria das ex-Nações” e destacou a importância do debate de ideias, “uma das questões muito defendidas por Agostinho Neto”.
“Penso que é importante um mais alargado debate de ideias”, uma das frases de Agostinho Neto citada por Luís Kandjimbo, sustentando que o poeta defendia o debate de ideias como uma necessidade da dinâmica da vida social. Para o Poeta Maior, adiantou, os autores devem situar-se na sua época e serem agentes activos de mudança.
A professora brasileira Edna Maria dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falou sobre “Agostinho Neto: Intelectual orgânico e Cultura Revolucionária” e destacou que a importância do “Guia Imortal” enquanto intelectual se deve ao facto de congregar diferentes facetas, como a educação, cultura e política, à semelhança de Amílcar Cabral.
“Os grandes líderes trabalharam as contradições, especificamente aquelas relacionadas com a libertação, articulando a escrita como um elemento de luta”, salientou.
A docente disse ainda que uma das qualidade da poesia de Agostinho Neto é a de ser apelativa e contra o individualismo, “incentivando as pessoas a partilharem relações entre o local, o nacional e o mundial”. Na opinião da investigadora brasileira, Agostinho Neto deve ser constantemente lembrado, assim como outros líderes africanos.
No primeiro dia de actividades do colóquio também foram apresentados os temas “A importância e a oportunidade de um projecto de investigação: A cultura à luz do pensamento de Amílcar Cabral e de Agostinho Neto” e “Agostinho Neto: de Icolo e Bengo para o mundo”, sob a moderação do investigador Jean Michel Tali. Ainda ontem, com a presença na cerimónia de abertura da ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, e a presidente da Fundação António Agostinho Neto, Maria Eugénia Neto, além de deputados e diplomatas, foi apresentado o tema “A consciencialização cultural do homem negro, a luta de libertação nacional e a cultura no discurso de Agostinho Neto”.
“Agostinho Neto: Libertando-se através da poesia”, “A mística revolucionária na poesia de Agostinho Neto”, “O ritmo desse fogo” e “A poesia de Agostinho Neto na imprensa angolana” foram os outros temas debatidos.
O Colóquio, que encerra hoje, visa saudar o 92º aniversário do nascimento do primeiro Presidente de Angola e realçar a sua obra como estadista e homem de cultura, no âmbito do II Festival Nacional da Cultura.

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