Cultura

Ensino bilingue a partir da base

Manuel Albano |

A implementação de um ensino bilingue a nível nacional pode aumentar o aproveitamento e rendimento escolar, fundamentalmente, dos estudantes do ensino de base, sugeriu, na terça-feira, em Luanda, o escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa.

Escritor moçambicano
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Ao falar durante um encontro literário  no Centro Cultural Brasil-Angola (CCBA), com estudantes universitários e membros de movimentos literários da capital, o escritor que falou da sua trajectória literária, explicou a importância da inclusão do ensino bilingue no país, por formas a garantir que as crianças estejam todas ao mesmo nível de conhecimento e aprendizado.
A título de exemplo, apontou a experiência de Moçambique, onde mais de 60 por cento das crianças não têm o português como a língua materna, razão pela qual, defende a implementação no ensino de base, essencialmente, das línguas maternas.
Desta forma, argumenta, daria a possibilidade dos estudantes, quer das classes sociais alta e médias, quer daquelas com poucos recursos, e fundamentalmente do interior, estarem ao mesmo nível de igualdade sobre as matérias curriculares.
Embora reconheça a grande influência que língua portuguesa exerce na partilha do conhecimento global e no sistema educativo, o escritor moçambicano disse que, em determinadas circunstância, o português deve ser visto também como língua estrangeira, não obstante dos países lusófonos, o terem como a língua oficial.
“Se queremos aumentar o número de aproveitamento nas escolas, realçou, ser necessário que os estudantes comecem a estudar nas suas línguas maternas, e progressivamente, nas classe subsequentes, lhes ser transmitido os conhecimentos através do português”, disse Ungulani Ba Ka Khosa, para acrescentar: “Acredito que essa seria uma das formas de se evitar as assimetrias nas classe sociais, onde os que mais têm possibilidades de terem os seus filhos nas melhores instituições de ensino continuem a ganhar vantagens sobre os demais”.
Apesar do ensino bilingue ser obrigatório no seu país, disse Ungulani Ba Ka Khosa, tem de certa forma, criado um certo “preconceito”, nas elites. “Há pouco interesse pelos estudos das línguas locais, porque o mercado de trabalhos dificilmente absorve os estudantes formados em linguística”.
Ungulani Ba Ka Khosa explicou que a crise financeira é transversal, logo os escritores moçambicanos à semelhança do que acontece com os dos outros países, são obrigados a terem uma profissão e formação académica , por formas a garantir um trabalho e a sua subsistência. “O problema da crise é uma situação geral, em que a maior parte dos escritores, não apenas moçambicanos enfrentam, mas é um problema mundial”.

Circulação dos livros


Ungulani Ba Ka Khosa defendeu uma maior circulação de obras literárias dos autores angolanos e moçambicanos, nas universidades dos dois países, embora já se tenha registado esse exercício no domínios dos textos literários. “Uma das formas de tornarmos os escritores mais conhecidos na nossa comunidade é através da troca de experiências e poderem ser estudados nas universidades”.
Sobre o actual momento das artes em Moçambique, em particular a literatura, Ungulani Ba Ka Khosa garantiu estar de saúde. “Depois da minha geração foram surgindo outros talentos que têm sabido dar seguimento ao legado que tem sido transmitido pela chamada geração clássica”.
Como referência, Ungulani Ba Ka Khosa citou alguns escritores clássicos da prosa moçambicana, com destaque para Mia Couto, Suleiman Cassano, Aldino Muianga, Marcelo Dias Panguana. Da nova saga, destacou, igualmente, Lucílio Manjate, Hélder Faife e Aurélio Furdela.
Ungulani Ba Ka Khosa, nome Tsonga de Francisco Esaú Cossa, nasceu a 1 de Agosto de 1957, em Inhaminga, província de Sofala. Formado em Direito e em ensino (bacharel) de História e Geografia, exerce actualmente as funções de Director do Instituto Nacional do Livro e Disco.

Competência no ensino  


Ao intervir no encontro, o escritor angolano José Luís Mendonça defendeu a importância de se apostar na competência dos professores a partir do ensino de base, por formas a garantir um ensino de qualidade.
Só com uma aposta mais séria na formação dos professores, pode existir, um ensino de base com alguma qualidade, com docentes capacitados em transmitir correctamente os conhecimentos académicos aos estudantes”, disse.
José Luís Mendonça acrescentou que: “É importante que se aposte naquelas pessoas que ainda estão dispostas a dar o seu contributo na transmissão do seu saber e que tiveram uma formação sólida antes e após independência”.
José Luís Mendonça chamou a atenção para a importância de se fazer uma “reciclagem intensiva”, a todos aqueles que leccionam e principalmente, os que trabalham directamente com as crianças, por formas a garantir um ensino de maior qualidade e incentivar a criatividade dos estudantes, de maneira a dar garantia do surgimento de bons escritores.       
A directora do CCBA Nidia Klein agradeceu a presença de todos, por permitir um debate activo e interactivo entre os escritores e estudantes. “Vamos continuar apostar em programação como essas, por sentir a existência de poucos espaços em Lunada, onde de forma descontraída se abordem os mais variados temas ligados sobre as artes”.

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