Estudo sobre curandeiros tradicionais e neo-tradicionais

Jomo Fortunato |
30 de Novembro, 2015

Fotografia: Lapin Setenta

Defendida na prestigiada Universidade de Coimbra com êxito assinalável, “A gestão da doença no espaço sócio-cultural e urbano de Luanda, os curandeiros tradicionais e os neo-tradicionais” é uma revisão actualizada da tese de Mestrado da socióloga e Professora Universitária Fátima Viegas, agora publicada em livro, estudo ímpar e contributo singular, no domínio da sociologia das religiões em Angola.

Fátima Viegas explica, na introdução do livro, as motivações e os objectivos da sua investigação: “O objectivo fundamental deste livro é apresentar uma visão global de alguns aspectos que envolvem os saberes e as práticas de cura que se estão a desenvolver em certas Igrejas Africanas Independentes, e que se relacionam com os saberes e práticas utilizadas pelos terapeutas tradicionais.
A presente pesquisa pretende ainda analisar as tenções entre os processos de articulação e hibridação, bem como a heterogeneidade constituitiva dos saberes e das práticas de cura entre os pastores-terapeutas das Igrejas Africanas Independentes, aqui designados por «neo-tradicionais» e os terapeutas tradicionais africanos, mais particularmente os curandeiros, que têm socorrido uma grande franja da população angolana”. De facto, não temos dúvidas que um dos grandes méritos de Fátima Viegas, para além da pertinência, e método ousadona pesquisa e abordagem do tema, foi o de aproximar a cientificidade da análise sociológica, à valorização do conhecimento empírico , revelando respeitar os saberes tradicionais das comunidades, no processo de diagnóstico e cura das doenças.Numa perpectiva inclusiva, a investigadora rompe com preconceitos arraigados, consubstanciados na marginalização do conhecimento que ocorre fora dos muros da “cátedra”.  Sobre o assunto Fátima Viegas é peremptória: “Este trabalho é sem dúvida um desafio para se encontrar uma nova perspectiva global contra-hegemónica no campo da saúde, entre as racionalidades científicas e o senso comum mergulhado na sabedoria africana, que desempenham um lugar importante na gestão da doença e da cura da maioria da população angolana”.

Estrutura

Na primeira parte do livro, Fátima Viegas começa por abordar os conceitos de saúde, doença e cura, concluindo o Primeiro Capítulo com a distinção de três “categorias médicas”: aprimeira é inculcada pela tradição, com recurso à feitiçaria, aos antepassados e ao curandeiro, asegunda é aproposta pela Bíblia, baseado nas dicotomias: bem, mal, Deus, satanás, bons espíritos, maus espíritos e o recurso à Igreja, e a terceiraapoia-se na Medicina Moderna, com as “eventuais” doenças orgânicas, e psíquicas, que se socorre dos hospitais.
O segundo capítulo reservou-se a questões de índole metodológica, terceiro aos modos de produção de saúde, no quarto o tema é a religião e a medicina tradicional, e no quinto e último capítulo há uma abordagem sobre a organização de determinadas igrejas, em relação a doutrinas, cultos e rituais.

Curandeiros

Numa linha de continuidade do trabalho desenvolvido por Óscar Ribas em “Ilundo”, espíritos e ritos angolanos” (1975, 2ª edição), obra em que Ribas distingue curandeiro do feiticeiro, ou seja, “todo o feiticeiro é curandeiro, mas nem todo curandeiro é feiticeiro”, Fátima Viegas faz a distinção, no quarto capítulo do seu livro  entre os curandeiros tradicionais e neo-tradicionais, “semelhanças e diferenças na gestão da doença e cura”, da seguinte forma: “Os  neo-tradicionais pretendem aparentar ser «modernos» na gestão da doença e da cura, identificando-se como cristãos.
O Espírito Santo e a Bíblia constituem os pilares da cura, recorrendo-se a versículos, como por exemplo Romanos (12:6-8); I Coríntios (12:4-11). O transe e a revelação diagnosticam os males. Lbertam e purificam os doentes, utilizando a água. Os curandeiros tradicionais na gestão da doença são orientados pelos espíritos dos antepassados e pelo conhecimento das propriedades das plantas medicinais.
O transe e a adivinhação gerem a doença. A figura de Deus faz parte do ritual como único criador de todas as coisas. Libertam e purificam os doentes, empregando acima de tudo, a água. (..) as fronteiras entre os dois agentes de cura são muito próximas, ambos oferecem cura para várias doenças, operam em transe, são intermediários de forças invisíveis, enquanto que no tradicional são ancestrais, entre os neo-tradicionais é o Espírito Santo”.

Depoimento

No artigo “O Fenómeno religioso  à luz  de três obras de Fátima Viegas”, publicado na Revista Angolana de Sociologia nº 1 de Junho de 2008, o professor Victor Kajibanga, Decano da Faculdade de Ciências Sociais, escreveu o seguinte:  “Com a publicação destes livros, os anais da historiografia angolana  registam um  valioso contributo à memória sobre o passado ainda recente e o presente ainda sentido do fenómeno religioso em Angola. De resto, partilho com Artur Pestana “Pepetela” a ideia central do seu prefácio ao livro Angola e as Religiões: «o acto religioso não está parado no tempo e predefinido à partida, antes vai evoluindo com as sociedades que contribui a estruturar». É esta a ideia que atravessa os três trabalhos de Fátima Viegas ao apresentar uma base de dados sobre o fenómeno religioso no período que vai de 1975 a 2007, com elementos fornecidos pelos próprios agentes do acto religioso, igrejas e de outras instituições religiosas. Enfim, com estes três trabalhos, Fátima Viegas traz a religião para o mundo dos homens e dos fundamentos que estruturam a sua essência social, enquanto constructo social da realidade – neste caso, a realidade social angolana.

Percurso


Filha de José Francisco Republicano e de Mariana Josefina Republicano, Maria de Fátima Republicano de Lima Viegas, nasceu na província do Namibe, Porto Alexandre, Tômbwa, no dia 19 de Fevereiro de 1950. Socióloga, doutorada em Ciências Sociais pela Rocheville University, Estados Unidos da América (2006), mestrada em Sociologia de Desenvolvimento pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal (2004), é licenciada pela Universidade Moderna de Lisboa, Portugal (1995).
Pós-graduada em «Violência religiosa na situação internacional contemporânea», pela Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal (2006) e em «Questões raciais e pensamentos subalternos: colonialidade do poder, filosofia de libertação e epistemologia fronteiriça», pelo Centro de estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil (2004).
Fátima Viegas frequentou o 3º ano do curso da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, Luanda, o curso de Relações Internacionais e Diplomacia, no Instituto de Relações Internacionais, em Roma, tendo concluído o curso de Paleografia, Diplomática e Arquivística, no Instituto do Vaticano, em Roma, Itália (1986). É membro de algumas associações profissionais, destacando: a Sociedade Angolana de Sociologia, Associação de Investigação Científica de Moçambique, Associação Portuguesa de Sociologia, e Associação dos Médicos e Terapeutas Tradicionais.

Livros

Fátima Viegas publicou, incluindo textos em revistas especializadas,  os seguintes livros: “Panorâmica das religiões em Angola Independente” (1975-2008) Luanda, Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos, Ministério da Cultura, 2009, “A voz das mulheres deslocadas em Angola: Estratégias de Sobrevivência”, Luanda, Edição AHA, 2001.
Em 1999, publicou pela Lito Tipo a obra “Angola e as religiões, uma visão social”, um ano antes lançou “Panorama Religioso em Angola. Dados Estatísticos”, 1975-1997, Luanda, pelo Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos, do Ministério da Cultura, e, o livro em análise,  “A gestão da doença no espaço sócio-cultural e urbano de Luanda, os curandeiros tradicionais e os neo-tradicionais”, edição da Kilombelombe, Luanda, 2015.

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