Luandino Vieira lança novo livro


29 de Novembro, 2015

O escritor angolano Luandino Vieira apresentou terça-feira “Papéis da Prisão”, um livro que escapa a géneros literários e que foi equiparado, pela experiência que conta, a outras memórias de cárcere.

“O que está aqui não é um livro. São 12 anos da vida de uma pessoa multiplicados por cada segundo e nesses 12 anos eu multiplicava cada segundo por tudo quanto me vinha à cabeça e nem sempre eram coisas recomendáveis.” Foi desta forma que José Luandino Vieira, vencedor em 2006 do Prémio Camões – que recusou receber – se referiu a “Papéis da Prisão: apontamentos, diário, correspondência (1962-1971)”.
 Um volume editado pela Caminho que reúne o conjunto da sua produção diarística desde que foi detido pela PIDE no Aljube, em Novembro de 1961, passando por várias cadeias em Luanda, até ao dia em que saiu do Tarrafal, em 1972. Rui Vieira Nery apresentou a obra na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na presença do autor. “Um monumento literário e cívico”, disse Nery, ao referir-se ao livro.
“Ao reler-me encontro em tudo ainda uma pequeníssima fagulha de qualquer coisa que precisa de ser soprada”, disse Luandino Vieira sobre a decisão de tornar agora públicos os 17 cadernos que resultaram desse período da sua vida e que somam aproximadamente duas mil folhas manuscritas. A essa razão, somou outra: “publicar depois de morto é muito fácil, ninguém assume a responsabilidade”, ironizou, numa curta intervenção onde se confessou várias vezes emocionado.
Ao longo dos cerca de três anos que decorreram desde o dia em que ligou a Zeferino Coelho, o editor da Caminho (onde tem publicada a sua obra), dizendo-lhe que lhe queria “mostrar uma coisa” até ao momento em que se constituiu uma equipa do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, liderada por Margarida Calafate Ribeiro, Mónica V. Silva e Roberto Vecchio, traçou-se um plano que terminou num livro difícil de catalogar.
É Margarida Calafate quem traça a “biografia do livro”, que “foge a qualquer classificação de género”. Um livro onde, sublinha a investigadora, está patente a “força de um projecto literário e político”. Ser escritor e “ser Angola independente e livre”. Natural de Lagoa do Furadouro, perto de Vila Nova de Ourém, onde nasceu em 1935, José Vieira Mateus veio com os pais para Luanda quando tinha três anos. Passou nesta cidade a infância e a juventude, estudou, tornou-se cidadão angolano, participou no movimento de libertação nacional e, em homenagem à cidade onde cresceu e aprendeu kimbundu, mudou o nome para Luandino.
Preso pela primeira vez pela PIDE em 1959, pela sua ligação ao MPLA, voltou à prisão em 1961, desta vez por um longo período, durante o qual escreveu alguns dos seus livros mais emblemáticos.

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