Merecido tributo a Agostinho Neto

Jomo Fortunato | Lisboa
13 de Junho, 2016

Fotografia: DR

A Casa da Cultura Angolana Welwitschia, associação sem fins lucrativos, promoveu uma homenagem ao poeta Agostinho Neto, no passado dia 7 de Junho, no âmbito das comemorações dos quarenta anos de independência de Angola.

A cerimónia decorreu no Auditório Agostinho da Silva da Universidade Lusófona, ocasião em que foi apresentado o livro “Cartas de Maria Eugénia a Agostinho Neto”.
Irene Alexandra da Silva Neto, filha do poeta Agostinho Neto, realçou no prefácio, “Um suave junco lutando com leões”, a importância  do contexto do surgimento das cartas e o “contributo documental” do livro, nos seguintes termos: “A Fundação Dr. Agostinho Neto tem o privilégio de publicar as cartas de Maria Eugénia para Agostinho Neto, escritas no período ante-guerra colonial dos anos 50, no século XX, e após o início da luta armada em 1961 que ilustram aspectos privados, humanos e sentimentais de dois jovens que se iriam notabilizar, anos mais tarde, nos campos das letras e da política e que se pretende seja um contributo documental para o entendimento das personalidades em apreço e também para a análise histórica, sociológica, económica, cultural e política da época”.
O acto de homenagem contou com a presença de, entre estudantes, associados e convidados, Marcos Barrica, Embaixador de Angola em Portugal e seu Adido Cultural, Luandino de Carvalho e pela Casa da Cultura Angolana-Welwitschia, Victor Ramalho, Presidente da Mesa da Assembleia Geral, Onofre Martins dos Santos, Presidente da Comissão de Honra, João Cravinho, Presidente do Conselho Geral e Eduarda Ferronha, Presidente da Direcção, que, no acto de abertura da homenagem, teceu as seguintes considerações: “A Casa da Cultura Angolana-Welwitschia é um fórum voltado para a comunidade Angolana e congrega naturais e amigos de Angola na defesa da sua cultura, das suas tradições, do seu desenvolvimento e que queiram contribuir para o seu progresso cultural, social e económico. Pretendemos desenvolver relações com entidades competentes com vista à recolha de conhecimentos técnicos, científicos e culturais sobre Angola. Temos como projecto desenvolver a edição de um Boletim destinado a informar os sócios sobre Angola, a sua cultura e sobre o plano de actividades da associação. É nossa intenção investir na juventude da diáspora, no seu potencial de transformação e mudança positiva, em que a diversidade e inter-culturalidade constituem riquezas que são fundamentais na sociedade. Para além desta homenagem, vamos assinalar as comemorações dos quarenta anos da independência de Angola, com alguns projectos, nomeadamente, tertúlias de homenagens a artistas angolanos e amigos de Angola, exposições, e vamos realizar um congresso. Importa realçar que as comemorações dos quarenta anos de independência de Angola começaram em Maio, aqui em Lisboa, e vão até Novembro de 2016”.

Cartas

O momento mais alto da homenagem foi a apresentação do livro “Cartas de Maria Eugénia a Agostinho Neto” pelo professor Pires Laranjeira, docente da Universidade de Coimbra que na  introdução do livro escreveu o seguinte: “As cartas de Maria Eugénia, Jenny, que vivia em Lisboa para Agostinho Neto, preso na cadeia da PIDE, no Porto, abrangendo o período de 13 de Julho de 1955 a 10 de Junho de 1957, desde então seis décadas são passadas, incluem-se num âmbito que podemos apelidar de “cartas de namoro, camaradagem e julgamento”. De namoro, porque eles estavam no estado de encantamento e casariam logo depois, no ano de 1958, de camaradagem, porque se achavam empenhados na libertação de Portugal da ditadura de Salazar e na luta de libertação nacional de Angola, sobretudo por parte de Agostinho Neto, militante e dirigente do MUD Juvenil, conotado com o PCP, de que nunca foi militante, e activista do movimento popular anti-colonial, e de julgamento, porque o processo do Porto está muito presente nelas e também porque ambos vão julgando os poemas do outro e fazendo o juízos sobre as suas vidas”. Curiosamente, escreve o académico,  o poeta  Agostinho Neto tratava a Maria Eugénia por Jenny: “Embora Maria Eugénia fosse tratada por Geninha e Maria Eugénia pela sua família, não deixa de ser curioso o facto de ser tratada por Jenny pelo namorado e pela sua roda de amigos e pela frente de camaradas da política e da cultura. Recorde-se que esse era o nome da esposa de Karl Marx - Jenny Von Westphalen- uma aristocrata prussiana que casou com o revolucionário por amor e teve de viver uma vida tumultuosa e de uma penúria a que não estava habituada”.

Livros

Além do livro “Cartas de Maria Eugénia a Agostinho Neto” estiveram disponíveis ao público, por ocasião da homenagem, “Agostinho Neto, obra poética completa”, que inclui os títulos, “Sagrada Esperança”, “Renúncia impossível” e “Amanhecer”, e o volume I da série em banda desenhada, “Agostinho Neto, de cabeça levantada”, 1922-1961, que inclui os títulos “Agostinho Neto, todos para o interior”, 1962-1971, “Agostinho Neto, A vitória é certa”, 1972-1975 e “Agostinho Neto, Resolver os problemas do povo”, 1975-1979, com desenhos e pintura de Osvaldo Medina, texto de São Vicente, e pesquisa e coordenação de Irene Alexandra Neto.  Sobre o ineditismo das publicações em banda desenhada, Maria Eugénia Neto escreveu o seguinte no prefácio do primeiro volume: “Há muito exigida a história ilustrada sobre António Agostinho Neto, a Fundação colocou mãos à obra para produzir um trabalho cuidado que proporcione o prazer da leitura e do desenho. Creio que a biografia de Agostinho Neto dada ao público em banda desenhada é uma forma criativa de dar a conhecer a história da Pátria e do seu Libertador. Os desenhos, leves e graciosos, enquadram bem o texto histórico, sem enfado, levando-nos a querer saber mais e mais sobre o nosso passado recente. A arte dos desenhos prima pelo rigor histórico e está baseado na pesquisa de documentos e fotografias verídicos. A ficção é utilizada quando não se obteve retratos de certas personalidades e imagens de alguns arquivos”.

Programa

O programa da homenagem incluiu uma exposição fotográfica sobre a vida e obra do Presidente António Agostinho, um ciclo de debates, testemunhos sobre a vida e obra de António Agostinho Neto, e um recital. Luís José de Almeida, Embaixador e representante permanente de Angola junto da CPLP, falou da dimensão de Agostinho Neto, enquanto Estadista, Luandino de Carvalho, Adido Cultural da Embaixada de Angola em Portugal, dissertou sobre a escrita e a poesia de Agostinho Neto, Victor Ramalho, Secretário Geral da UCLA e Presidente do Conselho Geral da Welwitschia falou sobre a Casa dos Estudantes do Império, e o jornalista Carlos Veiga Pereira fez um depoimento sobre Agostinho Neto como amigo e companheiro de Agostinho Neto. A homenagem contou ainda com os testemunhos de Luzia Moniz, Onofre Martins dos Santos, Pires Laranjeira e a música de Té Macedo que interpretou “Kilamba”, de Belita Palma, e o clássico “Muxima”, acompanhada pelo pianista argentino,  Franco Sherif.

Recital

A dimensão poética de Agostinho Neto foi recordada na homenagem com um recital de poesia protagonizado por Ilda Poças, que declamou o poema “Adeus à hora da largada” e “O içar da bandeira”, por sua vez o actor, Daniel Martinho, recitou o poema “Kinaxixe” e “Noite”, Hélder Oliveira recitou o poema “A voz do sangue” e “Criar”. No recital houve uma espaço dedicado a criança com poema de Tatiana Vasconcelos que estabelece uma relação intertextual com o poema “Havemos de voltar” de  Agostinho Neto. Por último a moçambicana, Elsa de Noronha recitou o poema “Fogo e ritmo”, e “África levanta-te e caminha” do seu pai, Rui Noronha.

Casa

A Casa da Cultura Angolana-Welwitschia é uma associação sem fins lucrativos que congrega naturais e amigos de Angola, com vista à defesa e divulgação da cultura angolana, tradições e desenvolvimento em Portugal. A instituição tem como objetivos a promoção e a realização de atividades de âmbito cultural, social, educativo e recreativo, dirigidas aos angolanos, seus descendentes e amigos de Angola no sentido de lhes proporcionar melhores condições de integração e o incremento dos laços afetivos entre Angolanos e Amigos de Angola e Angola.
No exercício da sua actividade a Casa da Cultura Angolana-Welwitschia pretende fomentar a divulgação, o estudo e a investigação de fenómenos culturais, económicos e sociais africanos em geral e angolanos em particular, desenvolvendo iniciativas nas áreas da saúde, justiça, formação e educação para o desenvolvimento. 
A instituição congrega naturais de Angola seus descendentes e amigos de Angola ou a ela ligados materialmente ou espiritualmente que queiram contribuir para o seu progresso cultural, económico.

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