Moçambicano vence Eduardo Costley-White


14 de Março, 2017

Fotografia: KUPHALUXA|MOVIMENTO LITERÁRIO MOÇAMBICANO

O escritor moçambicano Lucílio Manjate venceu, ontem, a primeira edição do Prémio Literário Eduardo Costley-White, da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento (FLAD), tendo afirmado que  “a literatura não permite conceber ilhas”, disse ao destacar a importância do galardão.

“A literatura não nos permite conceber ilhas, queremos saber como o nosso texto dialoga com outros lugares e gentes”, explicou o escritor, que venceu com a obra “Rabhia”.
“Rabhia” descreve uma história de amor e de morte. “Uma história de guerra e de heróis, uma história de conspirações e do crime organizado, de tradições que chocam com a modernidade, de confronto de gerações.”
A cerimónia de entrega do prémio realizou-se, ontem,  no auditório da FLAD, em Lisboa, com a presença de Vasco Rato, presidente da fundação, e do escritor Mia Couto, também ele moçambicano, presidente do júri do prémio.
O Prémio Literário Eduardo Costley-White, no valor de dez mil euros, é uma iniciativa do Programa FLAD África, em parceria com a editora Edições Esgotadas, e tem como objectivo promover novos talentos africanos de língua portuguesa.
Na óptica do escritor, o prémio tem “o condão de divulgar e promover escritores que dificilmente poderiam ver o seu trabalho reconhecido no espaço da língua portuguesa e não só, pois estamos a falar de escritores oriundos de países que, infelizmente, ainda se defrontam com dificuldades de publicação e divulgação capazes de os colocar no mercado internacional”, disse Lucílio Manjate, em declarações à imprensa portuguesa.
Na primeira edição deste prémio, foram validadas 34 candidaturas, de poesia e prosa, de autores de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.  O vencedor considerou que a publicação de autores africanos que escrevem em português “é importante, porque permite edificar esta língua também africana por herança e direito histórico.”
Acrescentou que, do ponto de vista do autor africano, “o português dá-lhe a oportunidade de expressar a sua cultura nos espaços da língua portuguesa e não só, porque, como sabemos, estamos a falar de contextos em que convivem línguas e culturas diversas e o português, com o estatuto de língua oficial, tem assumido o papel de levar ao mundo, de forma criativa, esse imaginário africano.” Lucílio Manjate, de 36 anos, nasceu em Maputo e estudou Linguística e ­Literatura na Universidade Eduardo Mondlane, onde ensina literatura. Lamentou que, “em contextos como o moçambicano”, as editoras escasseiem e as poucas que existem deixem o seu trabalho a meio.
“Não temos editores capazes de apostar em escritores, capazes de contribuir para a sua formação como escritores, alguém que seja capaz, por exemplo, de discutir e opinar sobre o texto, de modo a que o autor se supere”, disse.
Manjate tem publicadas várias obras de ficção, entre as quais “Manifesto” (2006), “Os Silêncios do Narrador” (2010), “O Contador de Palavras” (2012).
O escritor é também autor das obras “A Legítima Dor da Dona Sebastião” (2013) e “O Jovem Caçador e a Velha Dentuça” (2016), inéditas na edição livreira portuguesa.  O autor considera fazer parte de “uma geração a quem lhe foi negada a possibilidade de falar em língua bantu” e que, exactamente por isso, “procura, hoje, resgatar algo que nunca teve, mas que faz parte do seu imaginário: as línguas bantu e toda a sabedoria que elas encerram, porque os nossos pais, tios e avós falavam nessas línguas, mesmo na nossa presença.”
“Mas fazemos esse resgate irremediavelmente em português, num exercício de metalinguagens e traduções necessárias para que, a partir do português, tenhamos acesso ao universo cultural local. A língua portuguesa cumpre esse papel e assim se torna essencial para mim.”

capa do dia

Get Adobe Flash player



ARTIGOS

MULTIMÉDIA