Proposta poética de Nok Nogueira

Jomo Fortunato|
20 de Outubro, 2014

Fotografia: Paulino Damião

Quando, em 2004, Nok Nogueira arrebatou o Prémio Literário António Jacinto, do Instituto Nacional do Livro e do Disco, com o livro “Sinais de sílabas”, sua obra de estreia, o poeta anunciava o surgimento de uma forma inusitada de reconfiguração do verso, claramente preocupado com a magnitude metafórica e a densidade lírica da sua escrita.

Há uma forma de entendimento da poesia, muito comum no universo de criação surrealista, que não pretende significar, no sentido trivial do termo, mas que, pela estimulação da memória e combinação da palavra, a poesia despoleta imagens, sensações auditivas, olfactivas, gustativas, e recordações, instaurando contextos no subconsciente do leitor, que podem remeter para ocorrências factuais da história do leitor, ou, na mais feliz das hipóteses, estimular situações imaginárias.
Nesta senda, a tipologia do verso, enquanto escrita, resulta da procura incessante do conseguimento estético, num processo em que o poeta ensaia várias e infinitas combinações, pela selecção da palavra escrita. Contudo, achamos pertinente referir que a escrita, no seu processo de emanação criativa e aleatória, no sentido surreal de “escrita automática”, pode ser geradora de sentimentos. É assim que entendemos os “mundos possíveis”, no processo de criação poética de Nok Nogueira.
Filho de Emília António Casimiro e de Jeremias Miguel, Emílio Miguel Casimiro, Nok Nogueira, nasceu no dia 24 de Dezembro de 1983, em Luanda. Trabalha na Televisão Pública de Angola, colaborou no Jornal de Angola, e publica textos de análise crítica sobre diversos temas ligados à música, literatura e artes plásticas no “Novo jornal”.
O poeta publicou os seguintes livros: “Sinais de sílabas” (2004), Instituto Nacional do Livro e do Disco, “Tempo Africano”, (2006), União dos Escritores Angolanos, e pela editora, “Nóssomos”, “Jardim de Estações” (2011), e “As mãos do tempo” (2012).

Lirismo

De tanto fluxo lírico “As mãos do tempo” são obreiras de várias temporalidades de uma viagem de sonho, com paragem obrigatória em cinco estações poéticas, representadas, de forma simbólica, nos livros: “analogia”, “transversalidade”, “onomatopeia”, “simetria”, e “evocação”, embora o livro possa ser lido como um único poema. É assim que, ao longo da sua narrativa ficcional, Nok Nogueira propõe imagens inusitadas, pela sugestão da palavra escrita, num processo em que o leitor rebusca o histórico da sua colecção de imagens.  Note-se que em “As mãos do tempo” o leitor tem a liberdade de estabeler o seu ritmo de leitura, estabelecendo as pausas, de forma natural, no interior do verso: “nada mais consta do catálogo das rosas/senão tuas mãos como jograis de memória”...  ( na versão original é um verso único, aqui a divisão é nossa).
Embora “as mãos” e o “tempo”, enquanto categorias de reflexão filosófica,  possam ser refletidas de forma separada,  a verdade é que tanto “as mãos”, como o “tempo”, podem ser desdobrados em dois conceitos  de curiosa reflexão: o da temporalidade das mãos, a existência dos membros do   nascimento à morte, e  as mãos na sua temporalidade, ou seja, um conceito que nos remete, de forma automática, para a hominização, o trabalho e a formação biológica do ser humano.
Se “a função faz o órgão”, um processo realizável no tempo, entenda-se que a função aqui é sinónimo de trabalho, então “As mãos do tempo”, enquanto proposta literária, é também uma reflexão sobre a origem da espécie humana, mais como evolução do que como criação, vejamos os seguintes versos: “dentro de nós como um tempo oculto/ por entre as mãos que refazem as sementes”.
“Mãos”e “tempo” surgem de forma reiterada ao longo do poema, rendilhando uma teia lírica que amadurece e cai como um fruto sobre o charco do desespero: “meu desejo é ainda caminhar por entre caminhos nenhuns tal como fazem os loucos”, e dos vencidos: “aos retidos em suas mortes nada souberam nem mesmo a noção de ter voz” e de esperança: “mãos corrigindo as mãos/ e são de perdão/alguns actos de ingratidão/e são também de terra/ embora a sede os desterre/ mas continuam a ser de mãos/ e voltam a ser sementes/ para que frutos/ possam ser e mais adiante possam ainda estar em nossas mãos/ e assim se faz a terra/ e assim se faz nação”.
O mundo e as suas mudanças tumultuosas, a luta pela preservação e o  amor pela natureza, estão contidas no verso: “Vou por entre as calçadas/ a ver se o mar ainda se encontra onde o deixei/ antes de mim”. A verdade é que no processo de busca metafórica da narrativa, o poeta, para além de criar “mundos possíveis”, acaba por abordar questões cruciais da frágil existência humana, quando mais não seja porque a literatura é, de igual modo, homóloga à vida.

Caetano

No início falavamos das imagens, de facto julgamos que a  forma mais cómoda de ler “As mãos do tempo” é deixar que, no processo de leitura, as imagens se instaurem no nosso imaginário. Este exercício faz-nos lembrar  a veia poética de Caetano Veloso, na canção “Trem das cores”: “A franja na encosta cor de laranja, capim rosa chá/ O mel desses olhos luz, mel de cor ímpar/ O ouro ainda não bem verde da serra, a prata do trem/ A lua e a estrela, anel de turquesa/ Os átomos todos dançam, madruga, reluz neblina/ Crianças cor de romã entram no vagão/ O oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã/ E a seda azul do papel que envolve a maçã/ As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar/ Os dois lados da janela/ E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há/ Azul que é pura memória de algum lugar/ Teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios/ Ou pra ser exato, lábios cor de açaí/ E aqui, trem das cores, sábios projetos: Tocar na central/ E o céu de um azul celeste celestial”.

Materno

O amor materno do poeta, constitui um dos momentos mais simbólicos e emocionantes de “As mãos do tempo”: como se voltasse ao ventre de minha mãe/ e nele nunca me encontrasse nem a mim/ nem a ela nem a morte nem a vida nem terra nem mar nem dor nem angústia nem deuses faróis nem diabos inventados nem blasfémia nem profecia/ como quem voltasse e nunca o tivesse feito ou talvez nunca o aferisse como quem  amasse e nunca o percebesse e fôssemos um sonho inventado eu e minha mãe/ minha mãe e eu /talvez uma mão pintando as mãos do tempo e uma possível voz da qual nada /entendêssemos para que ainda assim voltássemos a tactear as mãos que tecem as linhas imaginárias de um país por nascer por entre as franjas do amanhecer/de um dia que não sei se alguma vez existira e se ainda existirá/ como quem nada entendesse ou como se andássemos de costas para o mundo  e nada víssemos para além do nada que nada pudesse ainda hoje alimentar  e fôssemos apenas eu e minha mãe minha mãe/ e eu ela sem ventre que me acolhesse e eu sem um nome o qual a ela pudesse dar...

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA