Simpática escrava Mammy é personagem de romance


4 de Novembro, 2014

Fotografia: Divulgação

Mammy, a simpática e teimosa escrava que cuidava com zelo de Scarlett O'Hara em “E tudo o vento levou”, tornou-se a personagem principal de um romance lançado com o consentimento dos herdeiros da escritora Margaret Mitchell, que publicou o seu famoso livro em 1936.

O livro “Ruth's journey” (“A jornada de Ruth”, em tradução livre), escrito por Donald McCaig e publicado este mês nos Estados Unidos pela Atria Books, não é uma continuação de “E tudo o vento levou”, e sim a história que o precede, a chamada “prequência”.
“É a reconstrução da vida de uma personagem famosa, cuja contribuição não foi devidamente apreciada ainda”, declarou à AFP o escritor americano de 74 anos.
No livro de Mitchell, que inspirou o filme cult do mesmo nome e que celebra este ano o 75º aniversário, Mammy nem sequer tem um nome real, afirma o autor.
Mammy torna-se assim Ruth, em referência à personagem bíblica que é símbolo da fé e fidelidade. A partir de uma menção às origens francesas da ama-de-leite de Scarlett, o autor imaginou a infância no Haiti - ex-colónia francesa - da futura empregada doméstica, uma órfã acolhida por um casal de franceses.
Expulsos pelos separatistas, o casal exila-se nos Estados Unidos, em Savannah (Geórgia), onde a francesa fica viúva e volta a casar-se, dando à luz Ellen Robillard, a futura senhora O'Hara, mãe de Scarlett.
“Mammy” vive a sua própria vida antes de se ocupar e se dedicar à pequena Scarlett.

Metade da história

“Houve milhares de ‘mammys’ no sul dos EUA, muitas delas não tinham nome (nos romances), milhares de mulheres que criaram como seus os filhos dos brancos ricos”, diz ainda o autor.
“Para mim, a ausência da voz de Mammy, da sua história, da sua personalidade em ‘E tudo o vento levou’, foi um grande vazio, é como se o livro contasse metade da história”, referiu. “A empregada doméstica é uma personagem trágica, mas que jamais perde a esperança. É determinada e muito digna, mas não é uma rebelde”, conclui.
A história do livro, cuja terceira parte é narrada do ponto de vista da escrava, termina justamente uma semana depois da famosa festa do início do romance de Margaret Mitchell.
A pedido dos herdeiros de Mitchell, McCaig escreveu em 2007 “O clã de Rhett Butler”, também derivado de “E tudo o vento levou”, e que conta os tormentos amorosos de Scarlett e Rhett durante a Guerra da Secessão.
Ao lado de “Scarlett”, de Alexandra Ripley, e publicado em 1991, este é um dos únicos dois romances até agora autorizados pela família de Mitchell, que faleceu em 1949.
O maior desafio ante um livro icónico é ser respeitoso em relação ao original e, ao mesmo tempo, ter algo extra a acrescentar, comentou o autor, acrescentando ter trabalhado com uma grande liberdade por parte dos herdeiros de Mitchell.
O livro é dedicado a Hattie McDaniel, a primeira actriz negra americana a ganhar um Óscar de melhor actriz secundária em 1939, pela sua brilhante interpretação de Mammy, no filme baseado no livro.

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