Cultura

“Luanda” provém das línguas nacionais kimbundo e kikongo

Francisco Pedro

Os habitantes da Ilha de Luanda são os detentores da origem da palavra “Luanda”, afirmou, quinta-feira, o antropólogo Isaías de Lemos, na palestra sobre  “Contribuição para os valores culturais e morais”.

Antropólogo Isaías de Lemos (à esquerda) com Filipe Vidal durante a palestra sobre Luanda
Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

A palestra decorreu no Museu Nacional de Antropologia. O antropólogo informou que “Luanda” deriva das línguas nacionais kimbundo e kikongo, e que, à luz da grafia em uso no país, resolução nº 3/87, “o termo ‘Lu Wanda’ deriva do kikongo e encontra-se aglutinado com a partícula do pronome pessoal da segunda pessoa do plural ‘Lu’, que significa ‘Lhe’, ligando à palavra-mãe ‘Wanda’, que se traduz em ‘bater’”, considerou o antropólogo.
A palavra sofreu várias formas de escrita, desde o período pré-colonial (antes da chegada dos portugueses), colonial, a época de ocupação holandesa e a última utilizada até hoje. Antes dos portugueses, e com base nas normas das línguas nacionais, a grafia correcta é “Lu-Wanda”. Os portugueses, com a colonização, modificaram-na para “Loanda”, enquanto os comerciantes holandeses escreviam “Lhoanda”.
O orador, vice-presidente da Associação Angolana dos Antropólogos,  referiu que “Lu-Wanda” traduz-se em “Batem-no”, de acordo com a epistemologia da palavra, “provavelmente à proibição da entrada de estranhos nas praias da ilha onde se recolhia o zimbo (conchas que serviam de moeda), que era o erário do Reino do Kongo”.
Acrescentou que, para os povos ambundu, das zonas de Luanda, Malanje e Bengo, o termo  “Lu-Wanda” significa “tributo”.
Além da origem do termo “Luanda”, fez considerações sobre os vocábulos “cultura” e “resgate”, enquanto os participantes apresentaram várias dúvidas e críticas a propósito das intenções sobre resgate de valores, apresentadas por angolanos que, muitas vezes, se apresentam com trajes, penteados e atitudes extra-africanas.
Lixívia, praticante de capoeira do grupo Abadá-Capoeira, criticou o facto de ver mulheres que ocupam cargos de ministras, “falam em resgate de valores culturais, mas usam perucas, até em cerimónias públicas, que exemplo nos dão?”.
O capoeirista fez uma outra crítica, ao recordar que no dia 8, um dos directores nacionais do Ministério da Cultura afirmou que o problema da língua lingala é preocupante, apenas, para a província de Cabinda. “Eu não concordo porque nos bairros do Palanca, Golf, Mabor, Petrangol, e outros da cidade de Luanda existe uma vasta população cuja língua veicular é o lingala”.
Outros participantes questionaram a existência das palavras “Loanda”, “Samba”, “Catete”, “Ginga”, “Cuchilar”  no léxico cultural brasileiro. De acordo com o palestrante, resulta do tráfico negreiro, sendo um autêntico sinal da presença de angolanos levados para as Américas na época da escravatura.
O moderador, Filipe Vidal, também antropólogo, acrescentou que os africanos não eram escravos, mas sim pessoas escravizadas, forçadas, que se renderam ao trabalho forçado.
A palestra foi organizada pela Kaniaki Cultural, em colaboração com o Museu de Antropologia, e serviu para comemorar o 25 de Janeiro, dia da fundação da Cidade de Luanda, que completou 443 anos de existência.

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