Cultura

Mapa dos instrumentos tradicionais angolanos

Jomo Fortunato |

A edição da Universidade de Coimbra, que resultou de uma homenagem a José Redinha pela sua colaboração no museu e laboratório do Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, ilustrou o tema da exposição, “África, instrumentos musicais”, no âmbito da “Semana de Cultura Africana” , que  vinha sendo realizada desde 1982.

Soba Lunda-tchokwe Kanula Tchireunda e José Redinha nomeado Soba da Comunidade em 1937 e a capa do livro em análise da Universidade de Coimbra
Fotografia: Arquivo da Fundação Sindika Dokolo

Segundo Manuel Laranjeira Rodrigues de Areia, em nota prévia publicada no livro, datada de 28 de Março de 1984, escreveu o seguinte: “O texto corresponde a uma investigação minuciosa do tema em Angola e constitui um suporte científico notável para os que, neste assunto, pretendam ir além da mera observação ocasional dos objectos expostos.
Com esta publicação, escreve mais adiante, pretende o Instituto de Antropologia homenagear o distinto estudioso das culturas angolanas que foi José Redinha. A sua intensa actividade científica, expressa em diversos livros, alguns ainda não publicados, e em várias dezenas de artigos dos quais constitui síntese de assinalar a obra “Etnias e culturas de Angola”, 1975, fica a atestar o mérito, a dignidade e a nobreza de alma do investigador e homem de bem que foi José Redinha”.
Importa referir que além do livro “Instrumentos musicais de Angola, sua construção e descrição, notas históricas e etno-sociológicas da música angolana” de José Redinha, a obra “Ethnographia e história tradicional dos povos da Lunda”, 1890, de Henrique Augusto Dias de Carvalho, uma descrição pormenorizada de alguns instrumentos musicais dos Lundas, é outra referência bibliográfica no domínio dos estudos musicológicos angolanos.
A estrutura do livro, “Instrumentos musicais de Angola, sua construção e descrição, notas históricas e etno-sociológicas da música angolana”,  inclui uma Nota prévia, Resumo em português e francês, Introdução, Notas históricas, Generalidades sobre a música banta em particular da angolana, Notas diversas, Recolhas de músicas e estudos musicológicos, Construção e descrição de instrumentos musicais, Aerofones, Cordofones, Idiofones, Membranofones, Catalogação, distribuição e registo de instrumentos musicais de Angola, Catalogação, Distribuição, Registo de Instrumentos musicais de Angola, Aerofones, Figuras de Aerofones, Cordofones, Figuras de Cordofones, Idiofones, Figuras de Idiofones, Membranofones, Figuras de Membranofones,Membranocordofones, Figura de membranocordofones, Instrumentos musicais não identificados e outros a classificar, Alguns aspectos etno-sociológicas da música angolana, A música angolana no seu complexo, A música angolana nas actividades recreativas, A música angolana como atributo e prerrogativa de chefes nativos, A música angolana no âmbito sócio-psicológico, Índice de termos geográficos e étnicos, Bibliografia e Bibliografia de José Redinha. 

Classificação
O livro “Instrumentos Musicais de Angola, sua construção e descrição”, classifica os instrumentos musicais em Membrafones,  instrumentos de percussão que produzem som através da vibração de membranas distendidas, de notar que a altura e a qualidade tímbrica dos sons destes instrumentos depende da elasticidade dos materiais utilizados, Idiofones, instrumentos em que o som é provocado pela vibração do corpo do instrumento, sem a necessidade de nenhuma tensão externa, as suas qualidades em relação ao timbre, dependem da elasticidade dos seus materiais, Cordofones,  instrumentos cujo som é obtido através da vibração de uma corda tencionada quando beliscada, percutida ou friccionada, e Aerofones, instrumentos cujo som é obtido através da vibração do ar, sem a necessidade de membranas ou cordas e sem que a própria vibração do corpo do instrumento influencie significativamente no som produzido.

Depoimento
A importância  cultural e histórica do conjunto da obra do etnólogo José Redinha foi revelada pelo filho,  Artur Redinha: “Desde muito novo percebi ser a vida do meu pai muito diferente da habitual. Tenho a imagem permanente do meu pai a trabalhar desde o nascer do sol até horas muito tardias, diariamente, sem fins-de-semana, feriados, nem férias. Em vinte e três anos de vida nunca o vi fazer uma viagem de férias ou gozar um mês de descanso. Notei também desde novo a múltipla correspondência recebida pelo meu pai de todas as partes do mundo, as muitas referências na imprensa ao seu nome e trabalhos, as inúmeras conferências e palestras para que era convidado, inclusive no estrangeiro. Só depois do 25 de Abril, pude presenciar pela primeira vez, era eu aluno do liceu, em Luanda, nos anos de 1974 e 1975, a presença de obras de José Redinha nos curricula de algumas disciplinas. Além disso vi-o pela primeira vez ser convidado para um alto cargo governamental durante o Governo de Transição de Angola, facto nunca ocorrido durante o anterior regime.
O espólio de José Redinha está preservado em Lisboa, em condições de acondicionamento razoáveis, e dispersa por vários locais. Partes desse espólio, aliás, ainda se encontram da mesma forma que foi deixada por José Redinha, há cerca de quarenta anos atrás”.

Percurso
José Redinha nasceu em Alcobaça, em 1905, e chegou a Angola em 1927. Passou pelos Serviços de Administração Civil de Angola no Quimbumbe, Ambriz, Bengo, tendo seguido depois para a Lunda, Chitato, onde trabalhou na Diamang , Companhia dos Diamantes de Angola. Enquanto investigador planeou, organizou e dirigiu diversas missões, campanhas de reconhecimento territorial, étnico e cultural no interior da Lunda e do Alto Zambeze, de 1936 a 1946, onde percorreu mais de quinze mil quilómetros efectuando pesquisas científicas, recolhendo materiais etnográficos representativos dos mais relevantes aspectos da cultura material das populações locais, na ordem dos vinte milhares de peças de natureza etnográfica.
A riqueza e importância do trabalho que desenvolveu junto da comunidade Quioca, Lunda-Tchokwe, levou à sua nomeação como Soba dessa comunidade, em 1937.
Investido nessa função pelo Soba Sa-Cavula, passou a ser conhecido localmente por «Sa-Kapuma», que, traduzido literalmente, significa “Soba Feiticeiro”. José Redinha foi Director-Geral do Ensino Superior em 1975 e 1976 e Etnólogo-consultor do Ministério da Educação e Cultura de Angola entre 1979 e 1983.
Depois da sua saída da Lunda por razões de saúde, em 1959, dirigiu o Museu de Angola até 1961, ano em que ingressou no IICA, Instituto de Investigação Científica de Angola, onde trabalhou até à reforma, em 1970. Licenciado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa em 1966.

  Destaque das principais referências bibliográficas

Ao longo da sua carreira,  José Redinha publicou vários livros: “As gravuras rupestres do Alto Zambeze”, 1948, “As máscaras africanas: esboço”, 1952, “Paredes pintadas da Lunda”,1953, “Campanha etnográfica ao Tchiboco, Alto Chicapa, anotações e documentação gráfica”, 1955, “Máscaras e mascarados angolanos: uso, formas e ritos”, 1955, “Máscaras de madeira da Lunda e Alto Zambeze”, 1956, “Etno-sociologia do Nordeste de Angola”, 1956, “Subsídios etnográficos”, 1964, “Os Benamai da Lunda (1965), “Cerâmica angolana: esboço de classificação”, 1966, “Escultura angolana: esboço de classificação”, 1967, “O fenómeno económico e a etnografia”, 1969, “Palácio dos Governadores de Angola: notas históricas e catálogo-guia”, 1969, “Sincretismos religiosos dos povos de Angola”, 1971, “Álbum etnográfico”, 1971, “Práticas e ritos de circuncisão entre os quiocos da Lunda”, 1973, “A habitação tradicional angolana: aspectos da sua evolução”, 1973, “A caça, seus processos e mitos entre os povos angolanos: notas descritivas e esboço de sistematização”, 1973, “Bibliografias temáticas: etnografia e etnologia de Angola”, 1973, “Insígnias e simbologias dos chefes nativos de Angola”, 1974, “Etnias e culturas de Angola” ,1974, e, por fim o livro em análise, “Instrumentos musicais de Angola: sua construção e descrição: notas históricas e etno-sociológicas da música angolana, na sua edição de 1984.

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